Bárbaros Campanas

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Criador diz que este Salão de Milão foi um dos mais produtivos para ele e o irmão, e defende o design como veículo de expressão

Fernando e Humberto Campana continuam apostando no que fazem de melhor: experimentar. Muito e sempre. Não causa espanto, portanto, que a originalidade dos trabalhos da dupla continue a angariar a atenção do público. E os melhores comentários da crítica. Foi assim em Milão, há duas semanas, onde viveram grandes momentos, ainda sob os ecos da erupção vulcânica islandesa. Está sendo assim, agora, na Inglaterra, com a inauguração de uma exposição no aristocrático castelo de Waddesdon e o lançamento de mais um livro, Campanas Brothers – Complete Works (So Far), à venda no www.amazon.com (US$ 47,25). De Londres, entre um compromisso e o outro, Fernando falou por telefone com o Casa.

 

Como foi Milão este ano para vocês?

 

Um dos mais corridos que já tivemos e um dos mais produtivos. Nunca conseguimos, em uma mesma edição da Semana de Design, apresentar tamanha quantidade de trabalhos, de forma tão significativa. Projetos de conteúdo experimental que se revelaram bastante satisfatórios, do nosso ponto de vista. Além da coleção Edra 2010, em que apresentamos uma estante, uma mesa e uma luminária inéditas, desenvolvemos uma coleção de vasos de resina, a Nativo Campanas, para a Corsi, peças para a Venini, tapetes para a Nodus e até mesmo uma coleção de jogos de mesa de linho para a Flat Design.

 

Poucos designers com tantos anos de estrada conseguem tamanha coerência de linguagem trabalhando com produtos tão diferenciados e, ainda assim, se mantendo no mainstream da cena internacional. Qual é a receita do sucesso de vocês?

 

Não acredito que exista uma receita. No nosso caso, acho que tem sido o desejo de experimentar sempre. Muitas vezes temos como objetivo um produto, mas, no percurso, acabamos chegando a outros. Abrindo novas portas. Concordo com Bruno Munari (artista e designer italiano), quando ele afirma que "de coisas, nascem coisas". Conosco, ao menos, tem sido assim.

 

Como está sendo essa experiência na Inglaterra? O que estão armando por aí?

 

Viemos participar da reinauguração de uma galeria de arte contemporânea e design, no castelo de Waddesdon, perto de Londres. Aqui vamos apresentar lustres e peças únicas criadas com o estúdio Venini, de Veneza, que incorporam ao artesanato de vidro local elementos que fazem parte de nosso imaginário. A exposição coincide com a publicação de uma monografia sobre nossa carreira, publicada aqui pela Rizzoli Albion, que vamos lançar também em Londres.

 

Tanto no Brasil quanto no exterior, vocês se tornaram uma referência assumida para toda uma geração de jovens designers. A que atribuem tal identificação?

 

Em parte à nossa proximidade com esse público, já que participamos de diversos workshops internacionais ao longo do ano. Mas muito, acredito, em função da forma pela qual conduzimos nosso trabalho, da liberdade do nosso fazer. Algo que acaba por propagar a ideia de que a criação está ao alcance de todos e que não depende, necessariamente, de complicados processos. O importante é o fazer. Acho que vem daí essa identificação.

 

Vocês têm sido apontados como precursores do design art. Um modo de abordar a questão do design que desloca o foco do grande mercado para as galerias. Como você vê o futuro desses projetos? É algo que veio para ficar ou um simples modismo?

 

Acho apenas que o design está finalmente assumindo seu papel como veículo de expressão. Seja ela política, de crítica social, artística.

 

Por que não? Assim como a arte, o design pode, sim, ser uma ferramenta para propagar mensagens e, nesse sentido, acho natural que ele coloque questões até então restritas ao universo da arte. E essa já é uma realidade percebida pela indústria. Basta, por exemplo, ver a produção da italiana Alessi, que está absorvendo processos artesanais na sua produção.

 

E como você vê a atual cena do design nacional?

 

Com bastante entusiasmo e expectativa. Não me concentro em nomes, mas, aqui e ali, vejo trabalhos interessantes, tão experimentais quanto os melhores apresentados em países como a Holanda, por exemplo. E depois, este ano, o Salão do Móvel de Milão recebeu nada mais, nada menos, que 5 mil brasileiros! É gente que não acaba mais. Foram arquitetos, empresários, decoradores... Para existir tanto interesse, alguma coisa boa está acontecendo. Ou está em vias de acontecer.