Banho com vista

Penélope Green - O Estado de S.Paulo

Em Manhattan, edifícios de vidro são a nova referência em banheiros de luxo

Entre as várias vertiginosas versões de coberturas do prédio 432 na Park Avenue, a Cuisenaire, a cerca 420 metros de altura, bateu todos os recordes no mês passado, com seus banheiros: brilhantes contêineres reflexivos de vidro e mármore. A imagem mostra uma enorme banheira de hidromassagem oval, plantada diante de uma janela a 90 ou mais andares de altura. Dali, toda a Lower Manhattan se espalha como a visão de alguém em um jato particular. 

Os vertiginosos banheiros do 432 Park Avenue, embora sejam os mais altos, não são os únicos na cidade. Em toda Manhattan, em torres de vidro a serem construídas em breve ou próximas da conclusão, ambientes totalmente devassados ostentam os respectivos donos, nus, envoltos em toalhas de banho ou de roupão, como outras tantas vitrines – embora o público de toda essa exposição provavelmente seja composto apenas de pássaros. 

Aparentemente, as principais referências para os banheiros de luxo da atualidade (os da época de Edward na Inglaterra ou da antiga Roma) foram substituídas pelo cubo de vidro da loja da Apple na Quinta Avenida, construída pela Macklowe Properties, que também ergueu o 432 Park Avenue.

Todo mundo quer uma janela, disse Vickey Barron, corretora da Douglas Elliman e diretora de vendas da Walker Tower. “Agora, o que a maioria das pessoas quer na sala de visitas, quer ter no banheiro também. ‘O que?’, elas perguntam. ‘Sem nenhuma vista?’.”

Mesmo em um dia chuvoso, a cobertura de US$ 47,5 milhões (R$ 119 milhões) da Walker Tower não precisa de luz artificial. No banheiro master, uma banheira majestosa, prateada, da marca Waterworks, tem visão total da Lower Manhattan. O habitante da torre não vê vizinhos a partir do 23.º andar, e certamente estes não o verão – por causa do pé-direito do edifício, no 23.º andar tem-se a impressão de estar no 30.º.

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Dos banheiros de esquina do 215 da Chrystie Street pode-se ver o Edifício Chrysler e a Ponte da Rua 59, desde que não se sofra de vertigens. Os banheiros de 6,5 metros de comprimento ficam nos cantos do prédio, totalmente de vidro. “Não se trata de exibicionismo, mas de desfrutar do que há lá fora. Você pode até reunir pessoas no banheiro, compartilhar o banho ou trazer uma cadeira para dentro”, disse o arquiteto inglês John Pawson, que cuidou dos interiores do empreendimento.

Recentemente, havia sete pessoas no banheiro master de um apartamento no 20.º piso do 737 Park, onde um apartamento de três quartos com quase 403 m² está à venda por US$ 19,695 milhões (R$ 49,5 milhões). No espaço, em duas paredes opostas, há dois toaletes e dois chuveiros, um em frente ao outro, por trás de paredes de vidro. “Algumas pessoas não se importam em se exibir um pouco e outras não se importam em se exibir muito”, disse Gary Handel, diretor da Handel Architects, que participou da construção do edifício. 

Jill Roosevelt, corretora da Brown Harris Stevens, que levou seus clientes para conhecer alguns dos novos edifícios de vidro da cidade, disse que o 737 (foto acima) em particular provocou conversas sobre os hábitos de intimidade. “Isso não afeta as vendas, mas há sempre uma reação, desde indiferente até divertida. Depende de como cada um se sente à vontade ou não com seu cônjuge ou parceiro”, acredita

Um casal – “o que achou graça” – ponderou com interesse os vasos sanitários posicionados frente a frente no banheiro. “Bom, acho que ficaríamos olhando um para o outro lendo o jornal”, disse a esposa. 

/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA