Arte contra o high tech

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

O barroco pós-moderno de Elizabeth Garouste revaloriza o artesanal contra o excesso de industrializados na decoração

Duas recentes exposições em Paris, a primeira na galeria En Attendant les Barbares, em outubro passado, e outra na galeria Avant-Scène, no mês seguinte, apresentaram os primeiros trabalhos de Elizabeth Garouste em vôo solo, ou seja, não mais em parceria com o suíço Mattia Bonetti, com quem dividiu quase 30 anos de sucesso.Nos anos 80, em plena apoteose do high tech e do funcionalismo, a dupla Garouste & Bonetti surgiu tal qual os bárbaros às portas da Roma decadente: chocando ao retomar o barroco sob uma ótica pós-moderna; revalorizando o artesanal contra o excesso de produtos industrializados na decoração; propondo o uso de materiais primitivos e naturais como ráfia, pele de animais, galhos, terracota e gesso, e tentando injetar fantasia e sonho no dia-a-dia das pessoas ainda sob a égide do "menos é mais". Curiosamente, a primeira exposição da dupla foi na famosa Maison Jansen, em 1980, que ainda tentava sobreviver depois de quase dois séculos vendendo o que de mais chique e novo houvesse nas artes decorativas para o mundo endinheirado. Ali, nesse templo sagrado e legendário, com suas criações Elizabeth e Mattia quiseram homenagear os designers originais do passado, explorando justamente as possibilidades que eles podiam oferecer aos criadores contemporâneos. Pouco depois, sem conseguir reerguer-se, a Maison Jansen fechou as portas. A dupla, no entanto, seguiu seu caminho a todo vapor, inclusive influenciando o surgimento, não só de vários outros criadores, mas também de muitos editores e galerias voltados para essa linha de sofisticação fantasista e teatral como não se via em Paris desde os anos 30, quando ditavam, no setor, nomes como Diego e Alberto Giacometti e Jean-Michel Frank.Bastou que fosse convidada para decorar o Club Privilège, dentro da boate Palace, a quintessência então do chique (seu marido, o artista Gerard Garouste, foi o autor das pinturas nas paredes) e, em seguida, junto com Bonetti, ambientar a maison de costura de Christian Lacroix - onde deram asas à criatividade com formas orgânicas e barrocas em cortinas com apliques contrastantes, portões de ferro, estampas, móveis, maçanetas e detalhes de iluminação que vieram a influir na própria produção do costureiro -, para que a dupla Garouste & Bonetti virasse moda. Hoje, diante do sucesso de Philippe Starck com seus hotéis ou o do artista plástico e neodecorador Julian Schnabel, com a decoração do nova-iorquino Gramercy Park Hotel, o barroco e o elaborado não mais espantam.Se havia curiosidade em relação às produções independentes de Elizabeth Garouste (que saiu de cena por uns tempos) e as de Mattia Bonetti (que já vinha expondo só), as duas exposições falam por ela em alto e bom som. Num vocabulário decorativo recomposto, onde a essência de seu estilo barroco, sem deixar de lado a graça e a imaginação, parece ter ganho serenidade, são apresentados móveis, luminárias, cadeiras e outras criações que parecem brincar com as mais variadas possibilidades de formas e matérias. A recusa da simetria dá a essas criações algo do aspecto orgânico de uma pérola barroca irregular. O acabamento, quando patinado, pode caminhar no sentido dos dourados, dos bronzes e da platina e se harmonizam ao expressionismo das formas sensuais e femininas. Isso sem falar nos variados tons dos vidros de Murano que ganham formas orgânicas e cores pastel inusitadas. A estética do "barbarismo"Elizabeth Delacarte, dona da Avant-Scène, criada em 1986, e que desde os primórdios só expõe as criações originais dessa nova geração de artistas, esclarece que, em sua galeria, o barroco é sinônimo de movimento, lirismo e excentricidade: "Abri minha galeria num momento onde tudo era design industrial, perfeito. Sentia necessidade de um lugar onde pudesse entrar poesia, fantasia e alguma imperfeição".Na galeria En Attendant les Barbares, de Agnès Standish-Kentish - na verdade, a primeira editora das obras da dupla e que continua, entre outros, editando o seu trabalho -, a exposição se chamou Fragmentations. Na mostra, o conceito de fragmentação é explorado por meio de peças que evocam a multiplicidade, sem no entanto cair na repetição, num trabalho que tenta uma desconstrução que se equilibra entre impulsos contrários. O resultado é um trabalho onde a independência, a autonomia e a liberdade vão aparecer no tratamento dado aos pés desiguais de uma mesma mesa, nos detalhes inesperados no bronze, na luminária que pode ter três pernas e três braços diferentes entre si, no aplique de parede que parece explodir com tubos em várias direções e nos espelhos Corolle e Bang Bang, compostos por fragmentos disparatados. Elizabeth Garouste, nascida em Paris em 1949, de pais poloneses, estudou na famosa École Camondo de artes decorativas e foi ali que conheceu o marido, o pintor Gerard Garrouste e também o grande amigo Philippe Starck. Sua primeira experiência artística foi a concepção e a realização de costumes para o teatro a pedido de Jean-Michel Ribes. Bem jovem ela já dizia: "Desenhamos para provocar nas pessoas o sonho. Não acredito em progresso no desenho. Você só tem como alternativa repetir o que ficou para trás ou então propor algo mais, tentar criar um mundo diferente". O que então surgiu e o que conseguiu com Bonetti foi impor o que muitos chamam hoje, sobretudo na França, de "barbarismo", movimento estético com viés antiburguês, ou seja, contra o que percebiam como o gosto maçante imposto pelo mercado. Foi assim que apareceram os móveis lembrando a era Neanderthal de pedras falsas ou verdadeiras, mesas de ferro batido e cadeiras com saias de ráfia como que prontas para um hula-hula. Sobre uma hoje famosa e muito fotografada cadeira de encosto alto de bronze patinado e couro de vaca, criada pela dupla nos anos 80, o inglês Stephen Calloway, figura curiosa por seu jeito pessoal de vestir, autor e consultor de estilo já comentava: "Impôs-se tal como um trono de chefe tribal avançando nas portas de Roma nos últimos dias de seu declínio".Lírico e funcionalMesmo que, com sensualidade e humor, e muitas vezes lembrando as imagens das revistinhas dos Flinstones, essas criações sempre trouxeram em seu bojo as marcas do luxo e da sofisticação franceses e já fazem parte das coleções de museus como o Beaubourg, o Grand- Hornu, o Musée des Arts Décoratifs, o MoMA e muitos outros. Também são deles, o saguão e a escadaria do Ministério da Cultura da França. A idéia nunca foi a imposição de um look total. Atemporais, suas criações se adaptam a qualquer ambiente, clássico ou contemporâneo. Falam por si como as obras de arte. Peças quase únicas, "concebidas como se imagina uma coleção de moda". É como Elizabeth Garouste tenta explicar a filosofia por trás de suas criações, mas lembrando que não deixam de ser funcionais apesar de sempre inspiradas na fantasia. Se uma máscara ou um sol por ela esculpidos se transformarem em luminárias, hão de projetar luz. Tudo, no entanto, levando você para bem além do fácil, do banal e da convenção.