Ao lado do que há de melhor

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Antes coadjuvante, o Brasil já é visto como protagonista no cenário internacional do design

Agora que o mundo interessado em design esteve com o olhar voltado para o 48º Salão do Móvel de Milão, vale uma reflexão sobre o design brasileiro, que, na opinião de muitos, já está caminhando junto com o que de melhor é produzido no mundo. A revista alemã Form, quando publicou, em 1994, um artigo de Adélia Borges sobre o que se fazia no Brasil em matéria de design, deu a ele o título de Design Brasil - Rico em Futuro. Quinze anos depois, há poucas semanas, quando da inauguração da mostra Design Brasileiro: Fronteiras, no MAM paulista, a própria Adélia Borges, curadora da mostra, dizia em seu pequeno discurso de abertura: "Esse futuro chegou".

A seu ver, no cenário internacional do design, o Brasil está deixando a posição de coadjuvante para ser visto como protagonista. Acredita ser este um momento-chave do nosso design, de maturidade, e de consciência de como é fundamental, para o desenvolvimento do País, o incentivo a políticas de economia criativa. E está certa de que, se houver inteligência e vontade, o Brasil poderá se posicionar no mundo de forma cada vez mais vigorosa e expressiva.

Na Inglaterra, por exemplo, a política de incentivo à indústria criativa é praticada há algumas décadas e, sem que o design se desvincule do universo da cultura, mas se associando à produção de bens e serviços, vem gerando emprego e renda. Cada vez mais, em diversos países, aumenta a consciência da importância do papel do design na sociedade, o que pode trazer grandes oportunidades para países periféricos e permite que já se fale em polos múltiplos, e não em apenas um polo central de onde tudo emanaria. Começa a haver também no Brasil a consciência de que o verdadeiro designer não é aquele que segue tendências e modismos, mas o que cria e acrescenta ao setor em que atua, beneficiando o desenvolvimento do País. E que a inovação, ao contrário do viés deslumbrado com que boa parte da mídia e dos decoradores ainda enfoca o que é ditado pela moda, vai muito além desses valores.

CAUSAS SOCIAIS

No Rio, onde foi fundada a ESDI, em 1963, a primeira escola de design industrial do Brasil, e se realizaram, no MAM, em 1968 e 1970, as duas primeiras bienais de desenho industrial do País, já se debatia, nos anos 80, um design que levasse em conta questões ecológicas e de meio ambiente. Houve na cidade um período bastante fértil, nos anos 60 e 70, quando mestres da ESDI, como Roberto Verschleisser e José Luiz Ripper, conseguiam motivar e mobilizar estudantes de design para as causas sociais do design. E vale também citar a pequena mostra idealizada em 1979 pelo carioca Gabriel Patrocínio Da Natureza ao Produto - Do Produto à Natureza, que ganhou espaço no Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em meio a uma mostra de design internacional. Em 1980, a exposição foi remontada no Rio. Hoje, certamente seria categorizada como design sustentável. Do Rio para Milão, com o apoio da Secretaria de Desenvolvimento do Estado, do Sebrae e da TAM, a mostra Rio+Design 2009 partiu com 95 trabalhos de designers cariocas na bagagem, e, paralelamente ao Salão do Móvel, esteve exposta no Palazzo Affari ai Giureconsulti.

Embora o Rio tenha vivido, depois desses movimentos iniciais, um período de certa estagnação, pensar o design de forma integrada ao desenvolvimento nunca parece ter desaparecido da pauta da cidade. No MAM carioca, no ano passado, durante a primeira Brasil Design Week, foi divulgado um manifesto por um design brasileiro, que assinalava a criação do Fórum Brasil-Design, que, por sua vez, acaba de lançá-lo em Milão, na Rio+Design 2009.

Numa tentativa de repor em marcha os esforços anteriores e consciente da necessidade de uma efetiva política de design para a cidade, a Secretaria de Cultura do Rio, em reunião em 25 de março, presidida por Jandira Feghali, e com a participação de figuras como Sergio Rodrigues, Claudia Moreira Salles, Oscar Metsavaht, da Osklen, TT Leal, da Coopa-Roca, representantes da Daspu, Tecnopop, historiadores e professores da ESDI e PUC, tratou da proposta de criação de um centro de referência de design, que, lidando com passado, presente e futuro, possa viabilizar a criação de uma agenda pública para o setor. A ideia, como explica o ex-diretor e professor da ESDI Gabriel Patrocínio, engloba a definição do papel do design na reconstrução da cidade e da autoestima do carioca. E, segundo Rodolfo Capeto, atual diretor da instituição, o desejo é que se torne uma política de design de Estado, de caráter perene, e não de governo, que é sempre transitório.

As peças expostas na Rio+Design 2009, que em Milão ocupou uma varanda de 100 m² com vista para a Praça do Duomo, foram escolhidas por Freddy Van Camp e Gabriel Patrocínio. O projeto de instalação foi de Guto Índio da Costa. Com néon, ele criou os contornos da paisagem carioca, que, à noite, permaneciam iluminados e podiam ser vistos por quem ali passasse. Compunham a mostra criações de Sergio Rodrigues, o designer-mor carioca, de Antonio Bernardo (o premiado anel Puzzle), de Claudia Moreira Salles (a cadeira Siri, com assento de travesseiro e encosto de sobras de madeira), de Gilson Martins (as bolsas com orgulho de ser brasileiras). E entre ainda muitas outras criações (pregadores de roupa e geladeira de aço inox), o skate ecológico, já premiado em Hannover em 2008 com o iF Design Award, feito de pupunha, bambu e fibras naturais unidos por um adesivo vegetal à base de óleo de mamona, idealizado a quatro mãos e mentes por Pedro Themoteo, Bruno Temer e Thiago Maia, formados pela ESDI em 2007.

Em São Paulo, por ser a principal sede da nossa indústria, há obviamente mais escritórios e núcleos de experimentação dedicados à produção do design. A exposição Design Brasileiro: Fronteiras, aberta em abril e que vai até 28 de junho, no MAM paulista, uma mostra de pequena dimensão, que, como diz Adélia Borges, não tem "a pretensão de fazer um ranking dos melhores", é especialmente significativa, pois pontua de forma muito apurada os diferentes campos de atuação do nosso design.

Com trabalhos de 2000 até aqui, a ideia era oferecer um panorama que mostrasse a inserção do design por meio de suas diferentes vertentes - na ciência, na tecnologia e na produção industrial e de serviços. Incrível é a diversidade e a pluralidade dessa produção, que vai desde o design gráfico, editorial, de embalagens, moda, mobiliário, eletrodomésticos e por aí afora. Nomes como o de Marcelo Rosenbaum, com sua mesa Seis para a Tok & Stok; de João Grillo, com ladrilhos hidráulicos de bolas em cores cítricas; de Kiko Farkas, com a marca Brasil já tão difundida; de Ilse Lang, com o cabideiro que é releitura dos tentos que serviam aos gaúchos para pendurar as rédeas dos cavalos; de Carlos Motta, com a cadeira Radar de peroba-rosa, e de Oscar Metsavaht, com seus calçados de pele de salmão, são apenas alguns entre tantos criadores e grupos de criadores presentes.

IDENTIDADE CULTURAL

Outra cidade brasileira que parece ter acordado para o design é o Recife, onde, durante oito anos, foi secretário de Cultura João Roberto Peixe, um ex-professor da ESDI. Preocupou-se, entre muitas outras, com questões como a da identidade cultural do carnaval local, com sua dimensão urbana, não do ponto de vista do decorativo, mas na qual a marca deveria ser prioritária, maior que o conteúdo. O projeto de macrodesign feito pelos arquitetos Carlos Augusto Lira e Joana Lira para o carnaval do Recife é outro trabalho que se destaca no MAM.

Citar os irmãos Campana como exemplo da notoriedade do nosso design lá fora pode soar um pleonasmo ou injustiça com outros profissionais que já atraem a atenção da indústria e de museus no exterior. Sem, no entanto, mudar o foco do assunto a que a coluna hoje se dedica, e parafraseando Clóvis Rossi, que outro dia, inspirado em Nelson Rodrigues, se referiu ao complexo de vira-lata de que padeceríamos, aqui uso os designers Humberto e Fernando Campana como exemplo de que foi preciso que fizessem sucesso lá fora antes que os respeitássemos aqui dentro. É hora de olharmos para dentro e acreditar que nosso design não é mais apenas uma promessa. (www.mariaignezbarbosa.com)