Alma de bistrô

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Marie-France Henry, que comanda o La Casserole, aberto por seus pais em 1954, repete o cardápio francês nos jantares que gosta de dar na casa do Pacaembu

O ano de 1954 foi especial para São Paulo. A cidade, então com 2,5 milhões de habitantes, festejava 400 anos de fundação com inaugurações urbanísticas importantes, caso do Parque do Ibirapuera, embelezado por projetos de Oscar Niemeyer. Outro presente foi um tipo de restaurante que muitos paulistanos, na época, desconheciam: o bistrô parisiense. É certo que o Freddy, também de culinária francesa, funcionava desde 1935 na Conselheiro Crispiniano. Mas o La Casserole, de Roger e Touna Henry, era diferente: instalado em frente ao mercado de flores do Largo do Arouche, tinha aura romântica. Virou ícone - e continua aberto no mesmo endereço. Marie-France Henry, filha dos fundadores, relembra a história do La Casserole na sala de sua casa, no Pacaembu, para onde se mudou há 10 anos. "Morei a vida inteira num apartamento na Rua Rego Freitas, perto do restaurante. Lá festejava meus aniversários e comia profiteroles, quando voltava da escola." O crescimento da cidade e a degradação do Centro empurraram Marie-France para um bairro mais tranqüilo. "Vim para cá em busca de verde e sossego", resume ela, que revela ter hábitos simples. "No restaurante, fazemos comida francesa clássica, elaborada. Mas aqui em casa eu faço arroz, feijão, salada", diz, apontando para o ambiente espaçoso mas simples, decorado com objetos pessoais. À frente do La Casserole desde 1987, Marie-France conta que, na França, os Henry eram ligados ao ramo hoteleiro e o gastronômico. "Quando chegou a São Paulo, depois da 2ª Guerra, meu pai foi trabalhar como gerente do Hotel Esplanada, atrás do Theatro Municipal", recorda. Depois de juntar economias, Roger abriu o La Casserole no lugar onde então pulsava a cidade. "No começo foi difícil. Não havia ingredientes e meu pai acabou por trazer um chef e dois cozinheiros da França", conta ela. Cozinha despojada Nascida em São Paulo, Marie-France estudou no Liceu Pasteur, formou-se em Administração na Fundação Getúlio Vargas e foi professora de pedagogia. Na década de 80, o pai perguntou se queria assumir o restaurante. "Decidi encarar o desafio. Abandonei a carreira de educadora e fiquei sozinha no comando", revela. Sensata, fez mudanças pontuais na decoração e introduziu, aos poucos, pratos contemporâneos no cardápio. "O La Casserole continua a ser referência para paladares refinados, de quem aprecia escargots, gigot com feijão branco e confit de pato. É na mudança de estação que apresentamos novidades", diz. Receitas do restaurante também são servidas em casa. "Adoro dar jantares, mas os convidados que aparecem com a expectativa de encontrar luxo se dão mal... Aqui impera a informalidade", diz ela. "Jamais teria uma cozinha projetada, nem me passa pela cabeça ter um serviço de prata." Coerente com esse estilo de vida, a cozinha de Marie-France tem cortinas de chita para esconder mantimentos, vasos de tempero na janela, mesa de madeira. Os azulejos brancos reforçam a luminosidade que entra pelos vidros sobre a bancada azulejada. No piso, cerâmica cor de terra. A despeito do despojamento, há objetos escolhidos a dedo, como panelas La Grand Maison e Le Creuset (de R$ 387 a R$ 1.200, conforme o modelo, na Raul's) e uma, de bambu, para cozimento a vapor, trazida da China (modelo com 30 cm de diâmetro e dois recipientes, R$ 59, na Tenmaya Presentes). Latas de biscoitos francesas, cafeteira de vidro, chaveiro em forma de fouet e livros de culinária - da Larousse Gastronomique ao clássico Fou de Saveurs, de Marc Veyrat, dão cor e vida ao ambiente. Uma porta de correr de madeira e vidro separa a cozinha da sala de jantar, onde a decoração é caprichada em dias especiais. "Tudo aqui tem a minha história", diz ela.