Alfaiate de almofadas

JENNIFER GONZALES - O Estado de S.Paulo

No apê em Nova York Marcela Pepe cria peças produzidas em seu ateliê, em São Paulo

  O apartamento de 90 m² diante do Lincoln Center, no Upper West Side, em Nova York, é onde Marcela Pepe e seu marido, Vinícius, vivem há quase dois anos. De lá a designer comanda o ateliê, especializado em almofadas e outros itens customizados, instalado no Real Parque, em São Paulo. "Sou 100% grata à tecnologia", diz Marcela, que administra o negócio com a ajuda do Skype (programa que faz ligações telefônicas via internet) e de uma câmera de vídeo no computador. Com esses equipamentos, a designer mantém-se em contato diário com Rosa, seu braço direito. "Se estivesse começando do zero seria complicado, mas a empresa já existia há mais de três anos quando vim para cá", conta. A grife, que leva seu nome, é conhecida pelo estilo eclético da designer, com produções que vão do contemporâneo ao étnico. "É uma alfaiataria de almofadas", define a paulistana de 32 anos, que também produz mantas e cortinas (as peças de pronta entrega vão de R$ 80 a R$ 900) e trabalha com tecidos nacionais e importados. Das ruas de Nova York a exposições em museus, tudo serve de inspiração. "Outro dia vi uma moça com um casaco de matelassê e fiz uma almofada a partir dessa roupa", lembra. No imóvel de um dormitório, ela pinta e borda no laptop, idealizando composições com amostras digitais em altíssima resolução. "Quase posso ?tocar? os tecidos, ver de perto as tramas e texturas", diz. O espaço, utilizado também como escritório, tem um pequeno arquivo de madeira (Ikea, US$ 160), revestido com tecido floral. Móveis adquiridos em Nova York, caso do sofá forrado de linho natural (Crate & Barrel, US$ 2 mil o modelo Petrie) e da poltrona Charles Eames (Conran Shop, US$ 4,2 mil) misturam-se, no living, com objetos de várias partes do mundo, como o marmiteiro trazido da Tailândia, a luminária italiana ArcoFloor (Design Within Reach, US$ 2.700) e o xale com aplicações de miniespelhos, garimpado em um antiquário no Marrocos. O Brasil também está representado na ambientação, com o vaso de Calu Fontes, o abajur de acrílico Jazz, de Claudia Troncon (R$ 1.100), e as galinhas d?Angola da Oficina de Agosto, entre outros. "É uma amostra do que o design nacional tem de melhor", opina. Mas, por que essa mulher de fala humorada e ascendência italiana está tocando seu negócio a partir de Manhattan? Circunstâncias da vida, apesar de a decisão de se tornar designer têxtil ter amadurecido com o tempo. "Não sabia muito bem para onde atirar quando terminei o colegial", reconhece. Acabou fazendo administração na Escola Superior de Propaganda e Marketing e cursos de desenho na escola Dalton de Luca, na Vila Madalena. No último ano da faculdade, tentou uma vaga no Central Saint Martins College of Art & Design e foi aprovada. "Foi um banho cultural viver em Londres por um ano", diz Marcela, que iniciou o curso em setembro de 1999. Na volta ao Brasil, no ano seguinte, fez estágios, entre eles o de design gráfico no estúdio do arquiteto Rafic Farah. Contudo, Marcela sentia falta de papel, caneta, tela. "Comecei a maquinar como poderia trabalhar de forma mais artesanal", lembra. Em 2002, num papo com a avó e uma tia, teve um estalo. "O que posso fazer? Um ateliê. Mas de quê? Tecidos. E o que fazer com eles? Almofadas!" Chamou então uma costureira e a sala de jantar virou área de trabalho. Meses depois, abriu um ateliê num galpão de 90 m² e lá ficou até o fim de 2006, quando se casou com Vinícius, que trabalhava com publicidade nos Estados Unidos. "Mudei o ateliê para um espaço menor", diz Marcela, que garante que não vai ficar em Manhattan para sempre. "Aqui tem 300 mil qualidades, mas é uma cidade dura. No Brasil temos calor humano, alto-astral", diz ela, que, enquanto fica, aproveita tudo o que Nova York oferece.