A reinvenção das mostras de decoração

Marcelo Lima - O Estado de São Paulo

Em quase quatro décadas, a fórmula foi sempre bem-sucedida: um edifício tem seus ambientes decorados e, em seguida,é aberto à visitação. Até que o isolamento social se impôs e, com ele, a necessidade de se reinventar

A Casa Modernista da rua Bahia, em Higienópolis, futura sede da mostra virtual Modernos Eternos

A Casa Modernista da rua Bahia, em Higienópolis, futura sede da mostra virtual Modernos Eternos Foto: Emiliano Hagge

Durante cerca de quatro décadas, a fórmula foi bem-sucedida em quase todos os lugares pelos quais passou: um edifício tem seus diversos ambientes decorados por arquitetos, paisagistas e designers de interiores, e, em seguida, o novo endereço é aberto à visitação, se transformando em plataforma de lançamento de tendências, novos produtos, além de sede de diversos eventos. Até que o isolamento social se impôs e, com ele, a necessidade de se reinventar.

No caso da Casacor São Paulo, a maior e mais longeva das mostras de decoração do País, que este ano chegaria à sua 34.ª montagem –, o evento ocorre também em 15 praças nacionais e quatro internacionais, Miami, Bolívia, Paraguai e Peru – a decisão pelo cancelamento definitivo da edição deste ano, a princípio programada para junho, só se deu no final do mês passado. 

“Já estávamos com a mostra deste ano em pleno andamento quando fomos surpreendidos pela pandemia. Estudamos diversos cenários, tendo em vista o cumprimento dos protocolos de segurança e mesmo opções digitais, como a ideia de proporcionar um tour virtual por ambientes físicos prontos. Até que concluímos que não poderíamos prescindir da presença física de nossos visitantes”, afirma Lívia Pedreira, diretora-superintendente da Casacor.

Segundo ela, ao longo do tempo, a mostra passou a ser valorizada também por propiciar uma extensa rede de relacionamentos. “São profissionais, clientes, público, fornecedores. Ter de abrir mão deste contato pesou muito na nossa escolha”, explica Lívia, que, promete para breve a estreia de Janelas – um projeto criado para tentar minimizar um pouco o hiato gerado pelo cancelamento entre o evento e seu público cativo.

“Não se trata de uma mostra digital, mas de um formato inédito que terá uma dimensão virtual, mas também física, além de alcance nacional. Nosso objetivo é propor uma reflexão sobre a casa pós-pandemia, sob a ótica da arquitetura, do urbanismo e do design de interiores. Assim, pretendemos difundir conteúdo, tal como já vínhamos fazendo nas nossas últimas edições”, adianta ela, que anuncia o lançamento de Janelas para o dia 28 deste mês, no site da marca, casacor.com.br. 

Realizada desde 2014, a partir da ideia de mesclar o novo e o antigo em ambientes onde tudo, dos móveis aos objetos, fica à venda, Modernos Eternos foi outra das mostras do circuito nacional que teve de rever sua edição em função da pandemia. Tendo como base uma locação histórica, a Casa Modernista, projetada pelo arquiteto Gregori Warchavchik, na Rua Bahia, em Higienópolis, o evento deste ano será 100% digital.

Janelas é o nome do projeto da Casacor 2020 que vai pretende transmitir conteúdo para o público cativo da mostra

Janelas é o nome do projeto da Casacor 2020 que vai pretende transmitir conteúdo para o público cativo da mostra Foto: Sissy Yeiko

“Já havíamos alugado a casa. Diante da impossibilidade de utilizá-la, lançar mão da tecnologia e viabilizar a mostra, assim como as artes e a música começaram a fazer, me pareceu a opção mais acertada”, declara Sergio Zobaran, cofundador e diretor da mostra paulistana. Com data de lançamento programada para o dia 7 de setembro, Modernos Eternos vai reunir profissionais de todo o Brasil, além de alguns nomes internacionais, que já estão desenvolvendo seus projetos digitais para exibição no portal modernoseternossp.com.br.

O público poderá realizar a visita virtual de maneira gratuita e, entre os profissionais convidados, Raquel Silveira, Zanini de Zanine e Maximiliano Crovato já são nomes confirmados. “Penso que o resultado será particularmente interessante pela importância histórica do edifício e ainda por ele nunca ter sido explorado por esse tipo de mostra”, ressalta Zobaran.

Estava tudo encaminhado, inclusive com as casas projetadas especialmente para sediar o evento sendo construídas em frente à Bahia de Todos os Santos. em Salvador, quando a covid-19 chegou. “Confesso que tive dificuldade de abrir mão do meu sonho da edição física, mas no meio do caos é preciso tomar decisões rápidas”, diz Andrea Velame, idealizadora da mostra baiana Casas Conceito.

Em sua terceira edição, a exposição este ano será virtual, tendo como base um projeto de 15 mil m², que leva a assinatura do arquiteto Marcus Barbosa. “Para manter o nosso DNA, teremos como sede virtual um bairro situado entre a terra e o mar, em meio a alguns dos marcos históricos de Salvador. Serão dois prédios e 15 casas, para as quais, para ter acesso, o visitante terá de embarcar em um barco e atracar em diversos ‘ fingers’”, explica ele. 

Ao todo, foram trinta os profissionais de vários Estados convidados para executar os projetos. Na mostra, o visitante poderá vivenciar três tipos de experiência: fotos estáticas em 3D, visita 360° (na qual poderá acessar as especificações de todos os produtos) e, por fim, um tour virtual por cada ambiente. 

“Acredito que estamos ampliando o conceito de mostra de arquitetura e decoração. Pretendo voltar a ter o evento físico quando tudo isso passar, claro. Mas acredito que o virtual chegou para ser uma ferramenta a mais”, pontua Andrea, que anuncia a abertura da mostra para o dia 16 de novembro, no site andreavelame.com.br. 

Casas Conceito:mostra baiana que este ano terá também formato 100% virtual

Casas Conceito:mostra baiana que este ano terá também formato 100% virtual Foto: Juliana Herman/ISABELLA NALON ARQUITETURA