A megalomania do feio e do belo

- O Estado de S.Paulo

A mania de grandeza está intimamente ligada ao desejo de poder e até Brasília pode ser considerada um exemplo disso

Pura elegância. Interior do hotel Burj Al Arab, em Dubai, que se autoproclama um sete-estrelas.

 

 

Para os megalômanos, muito é sempre pouco. Haja vista os deuses das óperas, os super-heróis inventados pelo homem e os famosos ditadores, que, como a história nos mostrou, chegam ao poder e a ele se aferram. Há quem diga que todo governante ou construtor acaba padecendo desse mal, e que toda obra de arquitetura seria uma expressão de megalomania.

 

Óbvio que, independentemente da intensidade, tem a ver com narcisismo, ego superdesenvolvido, exibicionismo, demonstração de riqueza, ânsia de poder e desejo de imortalidade. E o que é subproduto da megalomania pode facilmente abraçar o mau gosto e a vulgaridade. Erigir cidades, estátuas, palácios, lançar uma frota de aviões estampados com o próprio logo podem ser meio, meta e brinquedo. Pense em Dubai, em Las Vegas, no épico Intolerance, de D.W. Griffith, e em Cidadão Kane, de Orson Welles.

 

No campo da arquitetura, devemos muitos horrores à megalomania dos homens. Algumas edificações, como o parque pessoal de diversões de Michael Jackson, na Califórnia; o estranho Cafesjian Center for the Arts, construído pelo milionário Gerard Cafesjian em Yerevan, na Armênia; o palácio presidencial erguido por Nicolae Ceausescu, em Bucareste, no lugar de todo um quarteirão antigo da cidade; e o Palácio Sans-Souci, no Haiti, construído por um ex-escravo, Henri I, o primeiro rei negro do país, que ali se matou com uma bala de ouro no peito em 1811, já se transformaram em atrativos grotescos e diversão para turistas e curiosos de excentricidades. É preciso reconhecer, entretanto, que devemos também aos megalômanos as grandes maravilhas da arquitetura mundial, como as pirâmides do Egito; a muralha da China; a Galeria dos Espelhos em Versalhes; o Taj Mahal; o castelo de Ludwig II da Bavária, que serviu de modelo para o da Bela Adormecida de Walt Disney; as dólmenes de Stonebridge, e também, por que não, Brasília, sonho de um presidente taxado de megalômano. E é sorte da modernidade ter à disposição uma safra de arquitetos como Renzo Piano, Norman Foster, Frank Gehry, Santiago Calatrava, Rem Koolhaas, I.M. Pei e outros que, mesmo sendo autocratas ou megalômanos, contribuem com obras que honram a estética, a funcionalidade e o olhar.

 

 

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Tal qual o leão da Metro, a megalomania pode rugir e assustar. E aparecer de soslaio, na política, na tecnologia, nas ciências e nas artes. A bomba atômica é um subproduto da megalomania tecnológica e só a ideia de alguns países desejarem possuí-la torna-se uma das questões mais delicadas da política internacional.

 

Durante o comunismo, quando líderes mumificados se transformavam em relíquias - vide Lenin com seu Rolls Royce e os monumentos que o idolatram -, a propaganda mostrou-se essencial à megalomania. Foi quando se tentou elevar à categoria de arte obras dirigidas ao culto de personalidades do regime. Talvez somente a pompa do Vaticano, com seus ouros e vermelhos, pode ser comparável ao luxo e à riqueza dispensados à imagem de ditadores como Lenin, Stalin, Mao, Hitler, Ho Chi Minh e alguns africanos como Bokassa ou Idi Amin Dada, este dono de uma piscina cheia de crocodilos. Lembrar que por trás das tão cantadas glórias, ações e pensamentos dessas figuras de triste memória, foram sacrificadas mais de 70 milhões de vidas. O sucesso, para eles, só pode ser expresso por meio de símbolos externos. O trono, o poder ou a riqueza eram apenas um ponto de partida.

 

 

Moderno. Réplica da Basílica de São Pedro na Costa do Marfim, mandada construir por um presidente que sonhava alto e ali colocou um sofisticado sistema de ar refrigerado.

 

 

Nero, o incendiário. Do ponto de vista médico, a megalomania é uma doença que consiste em superestimarmos nossas capacidades. Do psicológico, um reflexo de nossa cultura que estimula no homem o desejo de ser único, de chamar a atenção e se sentir eterno. Difícil fugir, entretanto, de seu aspecto destrutivo, predatório e decadente - Nero preferiu incendiar Roma a deixá-la para outros.

 

A competição estaria na raiz da megalomania. Quantos palácios não foram erguidos para competir com Versalhes? Na Costa do Marfim, nos anos 80, o então presidente Félix Houphouët-Boigny chegou a construir uma réplica da Catedral de São Pedro, com 7 mil lugares e ar condicionado, hoje um mastodonte sendo destruído de forma inclemente pelo clima.

 

Não se pode esquecer de Las Vegas, a Disney dos adultos, com suas famosas réplicas da Torre Eiffel, das pirâmides do Egito, do Grande Canal de Veneza, com direito a andar de gôndola no segundo andar de um edifício, e até o leão da Metro dentro de uma enorme jaula num dos hotéis locais.

 

Temos também a multicultural Dubai nos Emirados Árabes, onde 100 nacionalidades vivem juntas dentro do ar condicionado desafiando um clima de deserto. Lá, um hotel, o Burj Al Arab, se autoproclama o único sete-estrelas do planeta e tem, tal qual uma taça empinada, uma quadra de tênis a 2.100 m de altura do mar onde Andre Agassi e Roger Federer já se enfrentaram.

 

Muito fácil é muito dinheiro e gosto pretensioso caminharem juntos. Numa Rússia livre para enriquecer, espantam os interiores opulentos e carregados de tudo o que brilha e reluz, e as exposições de automóveis com carros de última geração com pedras semipreciosas incrustadas.

 

Também de cair o queixo é o megaprojeto de uma ilha artificial de mais de 700 mil m² no Mar Negro, com o formato da Rússia e acomodação para 25 mil pessoas, encomendada ao arquiteto holandês Erick van Egeraat para as Olimpíadas de Inverno de 2014, na cidade de Sóchi. Quem sabe a ideia é ofuscar as Olimpíadas de Pequim, em 2008, que serviram, de forma megalômana e espetacular, para afirmar o crescente poder dessa nação maior do mundo em área e população.

 

Até agora, em matéria de tamanho, maior que o tenebroso palácio de Ceausescu dos tempos da Guerra Fria, só mesmo o prédio do Pentágono em Washington, atacado por um avião no famoso 11 de setembro. (www.mariaignezbarbosa.com).