A mania dos lofts continua

- O Estado de S.Paulo

Casa Cor. Mostra de decoração exibe lofts à moda brasileira, com espaços integrados e algumas boas soluções

Único. Ladrilhos hidráulicos da Ibiza, desenhados por Francisco Cálio, marcam o Loft do Artista - que tem espaço até para um carro. A poltrona de Tom Dixon, em primeiro plano, é da Miniloft

 

 

Foi na Nova York dos anos 70 que os lofts tiveram seu bum. Executivos, publicitários e artistas passaram a morar em velhos armazéns, onde predominavam ambientes integrados em meio a pés-direitos altos, janelões e mezaninos. Esse jeito descolado de viver foi assimilado - e diluído - pelo mercado imobiliário brasileiro. E, por extensão, pela Casa Cor.

 

Hoje qualquer apartamento sem grandes divisórias pode ser chamado de loft, palavra que, em inglês, significa mesmo sótão ou depósito. Na mostra de decoração deste ano, dez projetos adotam tal nomenclatura e buscam transmitir a sensação de um habitar com liberdade, sem abrir mão do conforto.

 

Passear por esses ambientes e observar cada detalhe é perceber o esforço de arquitetos e decoradores por refletir certo conceito de contemporaneidade - mais ou menos bem solucionado, dependendo do caso.

 

"Para criar, pesquisei bastante em livros e andei pelos galpões detonados da Barra Funda", conta Francisco Cálio, que projetou o Loft do Artista, de 180 m². É uma homenagem ao baiano Marco Magalhães, cujas obras pontuam o espaço de resultado simpático.

 

De tudo, de tudo, o que mais chama atenção ali é a poltrona meio retrô de Tom Dixon e a geometria com quê brasiliense nos ladrilhos hidráulicos em parte do chão. Formam uma espécie de passadeira a partir da qual se distribuem quarto, living, cozinha, banheiro, além de um miniateliê. "Agora vou desenvolver com a empresa dos ladrilhos o desenho em outras três cores: terracota, areia e azul", conta o designer de interiores.

 

Bem menor do que o de Cálio é o Loft da Mulher Bem-Resolvida, com 36 m². "É quase um corredor", brinca a autora, Maricy Borges. A arquiteta juntou cozinha, estar, quarto e banheiro na planta tipo "linguiça". Vale ressaltar o trabalho executado no teto, que ganhou efeito curioso com a aplicação de papel de parede cru e adamascado, à base de seda, e ripinhas que têm lá sua funcionalidade: embutem LEDs coloridos. "O teto é como uma extensão da decoração", considera ela, que desenhou a cama de baldaquino com linhas secas.

 

Projetos assim, pequeninos, refletem a tendência implacável da metragem cada vez menor nos novos imóveis à venda. Outro que apostou nessa realidade foi o experiente Toninho Noronha. Pensado para uma jovem designer têxtil que vive só, a concepção dele, em 70 m², explora o feminino por meio de uma combinação de cores claras, como o verde, e algumas estampas florais suaves.

 

Nem parece que no espaço, mais comprido que largo, há sala de estar, home office, banheiro, cozinha e quarto. Tudo conectado e com a presença marcante de peças de design escandinavo, apreciadas pelo arquiteto. "A ideia era fazer várias caixas, mas não consegui quem bancasse", conta. Ao menos criou, a partir dessa ideia, uma cama com jeitão futurista, que mais parece uma cápsula protetora. É o ponto alto do lugar, cujo nome inicial proposto pela organização era Loft do Escritor Frustado, sabe-se lá o que isso significa. "Pedi para trocar", diz Noronha.

 

Já o que era para ser o Loft do Milionário virou o do Jovem Investidor. Leonardo Junqueira assina o projeto, de 82 m². Um dos destaques é a poltrona anos 70 concebida por Ricardo Fasanello - tão fofa que dá vontade de levar para casa. E a escultura de parede com formas sinuosas. "Desenhei esse elemento para quebrar as linhas retas", explica o arquiteto.