A loja de um Brasil chique

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

  Fernando Droghetti em sua casa, nos Jardins, onde, nos interiores, é sempre primavera. Foto: Zeca Wittner     Uma loja marco na cidade, depois de mais de cinco anos de existência e de ter tido, inclusive, uma filial na Daslu, a Jacaré do Brasil se despede dos paulistas. Sem choro, velas ou funeral, mas apenas porque seu dono, Fernando Droghetti, resolveu experimentar viver em Trancoso, onde tem uma pousada a lhe exigir a atenção, a Jacaré do Brasil Casa, e também a loja, a mais antiga de todas as Jacaré do Brasil, fazendo o sucesso de sempre, mas a pedir mais de seu tempo. Ainda para ocupá-lo, as viagens regulares a Barcelona, onde a loja abriu a primeira filial no exterior, aos cuidados da amiga Claudia Esteve, e o garimpo de sempre, Brasil afora, à cata de material. Vai certamente fazer falta, pois na Jacaré até hoje se abastecem de móveis e objetos para seus projetos muitos dos maiores arquitetos e decoradores de São Paulo. Sig Bergamin é assíduo, Isay Weinfeld também. E infindável é a lista de outros profissionais como João Armentano, Jorge Elias, Gilberto Elkis e Patrícia Anastassiadis que ali vão buscar o que é sofisticado, tem raízes e cara de Brasil. Além do que, perde a cidade, pois a Jacaré se transformara também em ponto de encontro do beautiful people local e internacional. Não raro estariam por ali circulando, e comprando, Guilhermina Guinle, Fafá de Belém, Luciano Huck e muitos turistas antenados. Pode-se dizer que a Jacaré do Brasil é, de certo modo, uma herdeira contemporânea da loja O Pote, de Maureen Bisilliat, que tanto sucesso fez nos anos 70 e 80, onde o artesanato brasileiro, escolhido com olhar exigente e apurado, era tratado e mostrado como obra de arte. Fernando Droghetti diz que ficou sabendo da existência de O Pote, que não conheceu, apesar de ter morado sempre em São Paulo, por pessoas que entram em sua loja e fazem esse mesmo paralelo. Como fazia Maureen, cuja loja mais parecia uma galeria de arte de design minimalista, a ideia de Fernando foi valorizar e mostrar o aspecto design, o charme e a beleza que pode ter o que é bem nosso e popular. Embora de forma mais coloquial e colorida, numa linha mais déco, e inicialmente com a ajuda de Sig Bergamin, Fernando Droghetti - às voltas durante 18 anos com o mercado financeiro e, portanto, antes distraído e alheio à questões de estética - deu-se conta de que a forma, em geral reta, dos nossos móveis populares tinha tudo a ver com o lado simplicidade do design moderno e que objetos em desuso poderiam ganhar nova função. E descobriu que, sobretudo, o que é Brasil pode ser, sim, muito chique, refinado, e não visto, tido e tratado apenas como coisa exótica ou folclórica: "Havia o que vinha do Império, rico, com influência europeia e que era bem visto. O resto não se respeitava".Queima totalA liquidação na Jacaré, com descontos que chegam a 50% e 70%, começou no início de novembro e vai até o fim de janeiro. Houve uma prévia, na véspera do primeiro dia da liquidação, que esvaziou a loja e deixou muita gente decepcionada ao chegar no dia indicado e encontrar sinal de vendido na maioria dos itens. Não durou muito. A loja foi reabastecida e todos os dias aparece renovada e ambientada, pois é ainda enorme o estoque - e bem carregado o depósito onde são guardadas as peças há anos garimpadas, os móveis e objetos de linha da Jacaré que vêm a ser cópias de originais e as peças recicladas, ou seja, as que foram repaginadas e assim ganharam novos usos e funções. Ainda há tempo, portanto, para uma visita e para a compra de uma lembrança dessa Jacaré do Brasil que se despede. E vão deixar saudades os tablescapes, ou verdadeiras paisagens sobre mesas ou prateleiras que Fernando sabe tão bem compor, guiado por cores e formas com equilíbrio e proporção. Foi com esse olhar "Brasil chique e sofisticado" e com o look eclético que imprimiu às suas lojas que Fernando Droghetti decorou a casa onde mora em São Paulo, e que pretende manter mesmo residindo na Bahia. Situada numa pequena vila nos Jardins, a construção é de 1934 e foi o pied-à-terre na cidade de famosas irmãs fazendeiras que moravam no interior. Sem negar a grande influência do decorador e amigo Sig Bergamin, Fernando, ou Jacaré, como é também conhecido, partiu para fazer ele mesmo essa decoração. Deixou-se levar pelo que encontrou, a luz que ali entrava, as janelas antigas, a porta de igreja no bar, o assoalho de madeira antiga e a lareira com brasões de família e pedimentos de gesso branco. Sem formalismoAssim pautado e orientado, usou e abusou de peças encontradas Brasil afora, recicladas ou copiadas, e de alguns móveis europeus, como as poltronas francesas que forrou com camurça e a mesa inglesa da sala de jantar que, ao lado de cadeiras de palha de bistrô francês, fica isenta de qualquer pretensão ou formalismo. Sem medo de errar e com ideias para dar e vender. Um xale em tons de balas coloridas virou toalha em mesinha redonda entre poltronas de capa branca. Um tecido de listras, cortado em triângulos, se transformou em charmosas capas de almofadas. Uma cadeira de couro verde, bem detonada, ao lado da lareira, tem perto uma luminária de pé feita com tripé antigo de teodolito. Palha no chão, tapetes que podem ser, sim ou não, persas, panos orientais ou do nosso artesanato nas paredes, sobre móveis, arcas, arcases, poltronas e sofás. Tem lustre de opalina verde e tudo o mais que possa contribuir com cor, humor e história. Objetos bizarros, livros, revistas, castiçais, vasos onde sempre haverá flores, pois é seu hobby escolhê-las e arranjá-las, atividade que lhe amaina o stress. Nas paredes, ou espelhos, ou pinturas, ou fotografias ou velhos fragmentos de bandeiras. Ficar em casa com prazer, em ambiente bem alegre, cozinhar para os amigos e usar para comer a mesa de pedra no jardim, bem posta e cheia de flores, é hoje uma das prioridades de Fernando Droghetti. A outra é que os amigos o visitem em Trancoso e que os paulistas descubram o look Brazil chique e praiano da Jacaré do Brasil Casa e que nela se hospedem. (nese@terra.com.br)