A Grécia célebre de um inglês T.H.

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Robsjohn-Gibbings, que teve Onassis como cliente, fez sucesso om releituras de objetos da antiguidade grega

Quando trocou Londres por Nova York, em 1936, aos 31 anos, Terence Harold Robsjohn-Gibbings levava na bagagem projetos de móveis inspirados nos desenhos que decoram vasos e bronzes da antiguidade grega e que ele pesquisou no British Museum. Com experiência em arquitetura naval, em projetos de interiores de navios transoceânicos, e um agudo sentido de marketing, encomendou a um bom marceneiro nova-iorquino seis dessas peças e as instalou no escritório e showroom quase minimalista que abriu no número 515 da Madison Avenue. Em pouco tempo estaria amealhando clientes e gozando do sucesso que o acompanhou até morrer, em 1976. Ainda hoje, suas criações são disputadas em leilões e galerias.

Num país onde então só se decorava com antiguidades ou reproduções de mobiliário do século 18, Robsjohn-Gibbings surpreendeu com uma linha de móveis da maior simplicidade, resultado da releitura de elementos do mobiliário da Grécia antiga - embora não conste que qualquer peça daquele período tenha sobrevivido para falar-nos de sua história -, somada a traços do art déco. Postas num setting de paredes brancas, portas duplas de bronze, lareira sem console e chão de mosaico com desenho do deus Dionísio numa charrete puxada por panteras, encantavam o olhar de quem ali adentrasse. Apesar de inusitados e bem contemporâneos, faziam referência ao passado e eram feitos com material tradicional, como madeira e couro.

Discreto, sotaque britânico e elegante em ternos bem talhados, logo passou a ser convidado para os mais badalados jantares de Manhattan. Crítico, dizia abertamente não gostar do que ali estava na moda, "uma mistura indigesta dos estilos Queen Anne, georgiano e espanhol". Surgiam os primeiros clientes: Elizabeth Arden, Doris Duke, Neiman Marcus, Otto Kahn e Alfred A. Knopf. Como luva e para seu deleite, caiu-lhe às mãos fazer na Califórnia, em Bel Air, para Hilda Boldt Weber, a decoração da famosa Casa Encantada, que, bem mais tarde, em 1952, viria a ser comprada pelo hoteleiro milionário Conrad Hilton. Para mobiliá-la e decorá-la, projetou mais de 200 peças - esfinges, delfins, pés-de-leão, chãos de mosaico, tochas, colunas jônicas e o que pudesse fazer referência à Grécia, país que passou a visitar com frequência.

Crítico feroz

Prolixo, encontrava tempo para escrever livros e artigos em jornais e revistas. Em 1944, lançou Good Buy Chippendale, em que ironiza o mau gosto dos americanos, diz que a decoração é de certo modo show off e que os decoradores muitas vezes são apenas os "ghostwriters ou escritores de autobiografias glorificadoras em que transformam as casas de seus clientes". Para ele, a Bauhaus era uma fraude, com "cadeiras baixinhas que beijam o chão e que deixam arranhar bumbuns". Admirava Picasso e Henri Moore, mas considerava os desenhos de Le Corbusier, Mies van der Rohe e Marcel Breuer "úteis, mas sem vida". Lamentava que nos Estados Unidos, naqueles tempos de pós-guerra, não se praticasse uma boa arquitetura, mas dizia acreditar que uma nova geração de americanos haveria de se voltar mais na direção de um estilo Frank Lloyd Wright do que naqueles dos Georges e Luíses europeus.

Era inimaginável que as tão badaladas decoradoras de então, como Elsie De Wolfe, Dorothy Draper ou Rose Cumming, pudessem ter preocupações dessa ordem. Com maior ou menor gosto e talento, se restringiam a refrescar ambientes, a ousar com a superposição de estilos, a transformar a cara dos interiores, A torná-los mais leves, arejados e práticos. Robsjohn-Gibbings, no entanto, chamava a atenção como designer e sua influência nunca deixou de se fazer sentir. Seu moderno destituído de pretensões vanguardistas não assustava. O luxo para ele estava na beleza inerente ao material, no tom e no aspecto da blond wood, na aparência, na textura e na fiação dos tecidos. A simplicidade seria o resultado de um pensamento racional e ao mesmo tempo libertador da imaginação. Mais na linha de um Jean-Michel Frank, que sabia falar de luxo e opulência por meio de um aparente minimalismo.

Fase moderna

Em 1946, começou a projetar para a Widdicomb Furniture Company e seus desenhos se tornaram cada vez mais conhecidos. Foi sua fase mais moderna e, ao mesmo tempo, menos grega: cômodas e escrivaninhas com argolas de bronze como puxadores de gavetas; mesas altas e baixas, formas orgânicas, lacas, conjuntos de sala de jantar, luminárias. Sempre conceituando, um ano depois lançaria o segundo livro, O Bigode da Monalisa: dissecando a Arte Moderna, e em 1957, o terceiro, Homes of the Brave.

Em 1960, convidado por Susan e Eleftherios Saridis a desenhar para a indústria moveleira na Grécia, resolveu que ali passaria a morar. Voltou-se para os desenhos dos anos 30, de linguagem grega, e criou a linha Klismos, que lá ainda é produzida. A Klismos Chair, entronizada no MoMA; o banco Diphros e o Klimi Couch não poderiam ser mais contemporâneos. Aristoteles Onassis tornou-se seu cliente. Em 1950, já tinha sido agraciado com o Waters Award.

Até morrer, em 1976, não descuidou de sua coluna na Architectural Digest. Mais alguns anos e teria sabido que, em 1980, as 200 peças desenhadas para a Casa Encantada haviam sido vendidas em leilão pelo seu mais recente proprietário, David Murdoch. E que, em Paris, a Galerie Eric Philippe passaria a comercializar essas "novas" antiguidades. T.H. Robsjohn-Gibbings gostava de dizer que, caso Thomas Jefferson, o ex-presidente americano conhecido por desenhar móveis, fosse vivo e entrasse na casa de um americano, iria julgá-la por sua utilidade e não pelo charme do antigo. Ele talvez não imaginasse que suas próprias criações viriam a se transformar em cobiçadas antiguidades. Graças à Saridis, no entanto, e à releitura da Grécia antiga, T.H.Robsjohn-Gibbings se mantém moderno e contemporâneo. (www.mariaignezbarbosa.com)