A França nos detalhes

Marisa Vieira da Costa - O Estado de S.Paulo

Matthieu e Bénédict Halbronn, donos da Futon Company, trazem para o Brasil um pouco do seu jeito de morar

No fim de uma rua tranquila no Alto de Pinheiros, a casa de uma água, meio escondida atrás de um muro, abriga uma família francesa - os Halbronns. O pai, Matthieu, é natural de Aix en Provence; a mãe, Bénédict, de Montpellier; mas a pequena Luma nasceu aqui no Brasil, para onde o casal se mudou em 1998 por afinidade com a cultura do País. "Meus pais viajavam muito e gostavam de design. Em casa, tínhamos peças originais brasileiras, ouvíamos a música daqui, conhecíamos a literatura", explica Matthieu, engenheiro mecânico que se formou pela tradicionalíssima École Nationale Supérieure d?Arts et Métiers, criada por Napoleão Bonaparte. Bénédict, que na França trabalhava com design gráfico, topou na hora quando o marido lhe propôs atravessar o Atlântico. "Era uma maneira de crescer", diz ela.

Nenhum dos dois, porém, imaginou que seu futuro no Brasil começaria a ser traçado quando foram procurar um futon em lojas da Liberdade. "Só achamos edredons", conta Matthieu. "Aí resolvemos fazer nós mesmos o que queríamos." Mas só em 2001 nasceu a Futon Company, que, com o tempo, passou a produzir muito mais que futons. Hoje, a empresa faz móveis, acessórios e luminárias, além de representar outros designers e exportar para vários países.

Matthieu e Bénédict atribuem o sucesso da Futon Company ao seu jeito de fazer as coisas. "Só trabalhamos com matéria-prima original, nunca com genéricos", diz o designer, que emprega seus conhecimentos de engenharia, como princípios mecânicos e visuais, no desenvolvimento de móveis. "Inovamos ao fabricar móveis rebaixados e desmontáveis, ao ampliar a cartela de cores. Em vez do tradicional preto, por exemplo, fazemos barrado colorido nos tatames. Tudo o que fabricamos é funcional e simples. Nosso sofá cabe numa caixa, como no sistema flat pack usado pela Ikea", explica Béné.

Todos esses conceitos os Halbronns levaram para a casa modernista de 220 m², de concreto armado e muito vidro, que ocupam desde 2003. Antes de se mudarem, fizeram algumas reformas. Tiraram a porta que dava para o jardim e ampliaram o janelão da sala. Eliminaram um lavabo no meio da sala e colocaram lareira, tijolos aparentes na parede, pontos de luz e uma escada caracol de acesso ao mezanino.

"Ficou com cara de casa de campo, como queríamos", diz Bénédict. A maioria dos móveis é protótipo da Futon Company, como o sofá Istambul, feito com futons (custa a partir de R$ 818 o módulo de 90 cm x 90 cm), e a poltrona de espuma com almofada solta, forrada de camurça ferrugem, peça única. Ou os pufes Berlingot, de lonita roxa (R$ 420 com a capa), em volta da mesa de centro Noguchi (por R$ 2.800, na Arquivo Vivo). "Nos inspiramos numa bala tradicional francesa, que tem esse formato triangular", revela Matthieu. E ainda a cadeira Tripolina, feita com sobras de madeira e couro, reedição dele de uma peça de 1877.

Por toda a casa, convivem o antigo e o contemporâneo, o anônimo e a grife. Uma mesa antiga de fazenda comprada na feira da Praça Benedito Calixto recebe a luz do pendente em forma de chapéu chinês, de papel washi, assinada por Francisco de Almeida (R$ 565 na Futon Company). Há ainda uma luminária tripé de Noguchi e outra em coluna de Ricardo Spino. E a cadeira Paulistano, de Paulo Mendes da Rocha. No canto étnico, os objetos trazidos do Marrocos e uma manta boliviana reúnem-se a uma mesinha baixa e a uma antiga geladeira de madeira.

Embora bem estabelecido no Brasil, o casal mantém a relação com a França por meio de detalhes, como as cores que escolheram para decorar a casa, a comida do dia a dia e os livros franceses que trocam com os amigos. Voltar a morar na França? "Talvez um dia, depois da aposentadoria", confessa Béné.