A era de ouro da Arte de tecer

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Exposição em Paris mostra como as tradicionais manufaturas francesas enfrentaram o século 20

É sabido que, desde o século 17, os franceses são grandes mestres na arte de tecer - um artesanato que floresceu, se desenvolveu e foi se refinando graças ao trabalho que era executado pelas grandes manufaturas de Beauvais, Gobelins e Savonnerie. O resultado dessa meticulosa atividade manual, que para muitos tem ranço de passado, mas que serviu para forrar paredes inteiras, cabeceiras de cama, dosséis, cadeiras, bancos e sofás em palácios reais e da aristocracia europeia, pode até hoje ser visto e admirado por visitantes e turistas estrangeiros, e continua a atrair colecionadores e apaixonados por antiguidades.

O que não se sabia tão bem, e que a exposição Elégance et Modernité, 1908- 1958, un renouveau à la française, inaugurada em Paris, no dia 5, na Galeria dos Gobelins, vem justamente nos revelar, é como essas grandes manufaturas enfrentaram a chegada do século 20 e a modernidade, um período de tantas transformações acarretadas pela industrialização e de novas posturas em matéria de usos e costumes. A mostra, que deve permanecer em cartaz até 26 de julho, exporá ao público, pela primeira vez, peças que pertencem ao Mobilier National e que já serviram para decorar residências presidenciais e embaixadas francesas no exterior. São sofás, cadeiras, biombos e painéis forrados com tapeçarias feitas nessas três manufaturas, baseadas em desenhos feitos por grandes artistas plásticos então contemporâneos e encomendados aos melhores criadores de móveis de Paris, como André Groult, Émile-Jacques Ruhlmann, Maurice Dufrene, Armand-Albert Rateau, Gilbert Poillerat e outros do mesmo calibre.

Não sendo um gênero novo, a ideia de convocar artistas foi a maneira encontrada, nas primeiras décadas do século, pelos diretores dessas manufaturas, como Gustave Geffroy, de Gobelins, um crítico de arte e amigo de muitos artistas, e Jean Azalbert, de Beauvais, um ex-conservador da Malmaison, para associar a arte decorativa da tapeçaria à modernidade que então se vivia. Em colaboração, as três manufaturas se transformaram em laboratórios desses novos tempos, uma política que foi seguida por seus sucessores durante toda a primeira metade do século, prática depois interrompida e que só seria retomada em 1999 e 2004, quando novamente as manufaturas resolveram convocar artistas contemporâneos para influenciar em suas criações.

 

Sofá de Jean e André Lurçat, moderno com sua forma geométrica

 

LUXO E REFINAMENTO

Mesmo que no início do século a tecelagem da tapeçaria não fosse uma novidade e pudesse, mesmo então, soar algo retrógrado, há quem considere esse um período de ouro, muito especial e particular, pois testemunha um momento muito fértil do luxo e do refinamento francês, privilegiado pela capacidade de fazer, ou do savoir faire desse artesanato tão delicado e tradicional, posto em confronto com o mobiliário de uma nova era. Artistas plásticos como Raoul Dufy, Xavier Longobardi, Odilon Redon, Emile Gaudissart, Paul Vera e Jean e André Lurçat, mais famosos hoje do que então, aceitaram de bom grado associar seus nomes ao mundo das artes decorativas, um setor especialmente fulgurante no período.

RELEITURA

As mudanças no comportamento doméstico - vivia-se na França a 4ª República - acabavam influenciando a questão da forma e do repertório ornamental. Vivia-se o pós-art nouveau, e o que aconteceu nesse setor específico da tapeçaria foi a fixação no tempo de um recorte de criatividade muito especial, de uma renovação baseada na releitura de estilos franceses antigos e que reagiam à influência e à quase imposição de movimentos vanguardistas vindos de fora.

Interessante é que os artistas, ao desenharem os cartões que seriam traduzidos depois pelos artesãos, definiam inclusive quem deveria ser o designer do móvel que ganharia o seu desenho, que tipo e tom de madeira seriam adequados, qual combinaria melhor com as cores do desenho. Tinham consciência do móvel como objeto único, elevado à categoria de arte, mesmo que pudessem ser repetidos e comercializados. Em tempos não mais monárquicos, havia já a ideia de que o móvel de bom desenho e qualidade pudesse se popularizar e estar mais ao alcance da burguesia.

A exposição, que tem curadoria de Yves Badetz, conservador do Musée d?Orsay, e de Marie Hélène Massé-Bersani, do Mobilier National, foi ambientada pelo arquiteto museográfico Didier Blin, e se divide em módulos temáticos que se entrelaçam, como aquele que foca o espírito do século 18 ainda presente em 1910, o que reflete o encanto com a vida moderna e fala de esportes, lazer, aviões, astros e do espaço, ou o que faz apelo à poesia e à literatura, aos símbolos do poder ou usa a elegante paisagem parisiense como motivo ornamental.

PRESENÇA DA MODA

Como não poderia faltar em se tratando da França, a moda está presente na mostra, fazendo o mesmo apelo à arte e ao bom artesanato. Na exposição, a associação arte-moda está exemplificada numa bela coleção de pequenas bolsas e carteiras, com desenhos, entre outros, de designers de moda famosos então, como Paul Poiret e Marion Stoll. As cores usadas eram, em geral, alegres. Falar do automóvel e do avião, como fizeram Bellaigue e Edelmann em seus biombos, ou de astros e da conquista do espaço, como fez Longobardi em seus conjuntos de poltronas e cadeiras, ou Pascalis com seus biombos decorados com dirigíveis, planadores e hidroaviões, era uma forma de se colocar na modernidade e de homenagear a ciência moderna. Com verve, charme e elegância.

Uma boa notícia para quem não puder ir a Paris nos próximos meses é que dentro da temática tapeçarias do Mobilier National, e em meio às atividades no Ano da França no Brasil, um conjunto delas, antigas e contemporâneas, muitas feitas a partir dos cartões originais de Eckhout, de paisagens das antigas e novas Índias, e outras assinadas por artistas contemporâneos, estarão expostas em Belo Horizonte, no Museu de Artes e Ofícios, entre os dias 18 de junho e 23 de agosto, e no Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro, de 10 de setembro a 15 de novembro. D?Eckhout à nos jours, chefs-d?oeuvre des Gobelins : collections et creations du XVIIème au XXème siecle é como se chamará a exposição organizada especialmente para o Brasil. (www.mariaignezbarbosa.com)