A casa que cresceu demais

Maria Ignez Barbosa - O Estado de S.Paulo

Dos tempos da fundadora, Yolanda Figueiredo, a Casa Cor mudou. Virou antes de tudo um bom negócio

Nem a Casa Foa, inaugurada em 1985 na Argentina, ou a Casa Cor de 1987 no Brasil, hão de ter sido as primeiras. Apresentar casas com seus aposentos decorados por profissionais atuantes é prática que se repete em muitas cidades do mundo e, pelo visto, nunca deixou de encantar e seduzir.

A Kips Bay Decorator Show House, em Nova York, é feita há 37 anos sempre em uma brownstone house - modelo de casa típica da cidade e que, pelo fato de os terrenos serem em geral pequenos, pode chegar a ter quatro andares e um subsolo - ou em alguma mansão urbana, como a mostra deste ano na bela propriedade no número 22 da Rua 71, onde funcionava a recém-falida Salander O?Reilly Gallery.

Todo o conteúdo exposto é depois leiloado pela Sotheby?s em benefício da Kips Bay Boys and Girls Club, entidade dedicada a cuidar de crianças deficientes após o período escolar. Esse evento é hoje financiado pelo Russian Investment Group, uma grande incorporadora responsável também pelo Russian Design Show no Ecostate Pavlovskaya Sloboda, a primeira grande comunidade verde de luxo da Rússia, onde todas as casas são de madeira, circundadas por uma densa floresta e um parque com paisagismo do inglês Peter Thompson.

Vinte e quatro arquitetos e designers de interiores foram responsáveis por esse projeto que inclui a Russian House e a Eco House, onde se realizam workshops, performances e mostras de design. Apesar de nos soar no fim do mundo, até os nossos Irmãos Campana já lá estiveram, pois seu design foi tema de uma exposição.

Ainda nos Estados Unidos, o grupo está por trás da Midsummer Dream Art House, em Southampton, no Estado de Nova York, que ocupa seis casas e reúne profissionais do calibre de Frank Gehry, Tom Dixon, Nina Campbell e Swarovski. Em Londres, mesmo que não seja sempre no mesmo endereço, essa união de diferentes decoradores ocorre em uma única casa - não importa se maior ou menor, mas sempre no formato residência.

Negócio que cresce

Diferentemente da Casa Foa na Argentina, que mantém o caráter beneficente inicial, a Casa Cor brasileira - especialmente a de São Paulo, pois a Casa Cor tem franqueados em vários Estados do País, além do Peru, Suécia e Panamá - parece ter crescido junto com a economia do País e a indústria do luxo no mundo. E nada parece indicar que a crise esteja a ameaçá-la.

Anuncia-se para agosto a primeira Casa Cor Campinas, com potencial para ser a terceira mais visitada, depois das de São Paulo e do Rio de Janeiro. Ocupará a sede da antiga Fazenda Mato Dentro, de 1820, hoje no centro da cidade.

Em São Paulo, as grandes mansões, mesmo as palacianas - algumas conhecidas por terem pertencido a famílias tradicionais - tornaram-se pequenas para a crescente e emergente família de decoradores convidada a participar. O jeito foi fazer espraiar a casa e suas necessidades. Um felizardo - havia sorteio - faria a sala, a sala de jantar ou o quarto principal. Aos outros, na medida da sorte, caberiam o quarto de hóspedes, o do bebê, o das crianças, o da moça, o do adolescente e mesmo o da empregada.

Depois o estúdio, o corredor, a varanda, o escritório, o bar, o gazebo, o pavilhão da piscina, o home theater, a sala de costura, a de almoço, a de ginástica, a cozinha, a copa, a biblioteca, o hall de entrada, o salão menor e o family room.

Ainda na administração antiga, em 2003 a Casa Cor paulista se instalou no Hospital Matarazzo. Sem doentes, mas com muitos quartos, salas, bares e ambientes de todo o tipo. E não parou aí. Foi preciso a área do Jockey Club, onde todos e muitos mais pudessem encontrar algum espaço e onde se constrói o inimaginável: jardins da Babilônia, suspensos, verticais ou orientais; áreas de lazer, livrarias, bares, jardins de inverno, lojas e restaurantes.

O visitante, mesmo que se encante e se impressione, pode se perder pelos labirintos, passagens, corredores e terminar por ir embora sem ter visto tudo, sem nem ter passado pela porta de entrada e sem a sensação de ter visto uma casa completa decorada.

Afinal, são 124 ambientes que podem estar em cima de árvores, em andares diferentes de arquibancadas ou nas mais distantes extremidades do enorme terreno. Misturam-se a showrooms de empresas que marqueteiam seus produtos. E, nessa caminhada de queimar calorias, de repente uma cozinha, ou duas, ou aquela diminuta dentro de um armário ou integradas e parte do ambiente. Óbvio que será sensacional, equipada com o que possa haver de mais moderno. E a sala de jantar? E os banheiros? Outra caminhada de quilômetros. Afinal são 22 mil m² de área construída e 44 mil m² de área ocupada.

Há quem tenha saudades dos bons tempos em que a coisa era mais familiar e divertida, e menos um parque temático de modismos. Tempo de refinamento e o mau gosto, quando havia, era apreciado por ser kitsch. Muitos dos profissionais que ainda atuam com sucesso e chegaram a participar da Casa Cor no formato mais recente foram desistindo de se apresentar, menos por esnobismo e mais, como diz um deles, pela ausência de um bom convívio, "hoje entre pessoas de menor educação".

Suítes funambulescas

Não surpreende que o antenado João Doria Júnior tenha visto ali um tremendo nicho de negócios, um belo espaço para eventos, um bom nome para virar logo e marca a ser comercializada.

Ao seu ritmo e estilo, mais no gênero russo emergente, e bem menos tipo família tradicional de Yolanda Figueiredo, fundadora da Casa Cor brasileira, Doria, além de incrementar a seu modo a Casa Cor, fez nascer o Casa Hotel, com direito a suítes funambulescas, cozinhas para hotéis de luxo e workshops com grandes chefs, e a Casa Kids, para crianças de 0 a 12 anos. Por sua vez desmembráveis em Casa Boa Mesa, Casa Office, Casa Cor Stars. Homenageiam-se agora celebridades de gosto controvertido em vez de buscar inspiração nos legendários designers do passado.

Há pirotecnias decorativas que nos permitem que, acionada por um motor no chão, uma parede gire e se transforme num canto de lareira ou de bar. Em outro ambiente, basta apertar um botão e a luz ambiente poderá de branca passar a verde ou âmbar. E tem a torneira pendurada no teto, de cano longo de vários metros, que "sentirá" a hora de oferecer a água na pia à sua frente. Ou a piscina com água que transborda e retorna e que muita dor de cabeça causou na sua montagem.

Não saberia dizer se a biografia Yolanda Figueiredo, uma vida de fé, ética e muito humor, de Marcela Mattos, conta segredos bem guardados sobre pequenos e grandes dramas inevitáveis entre decoradores e participantes durante as montagens da tantas edições de Casa Cor que ela presidiu. Afinal, essa paulista quatrocentona fez bem mais em sua vida de empresária. Foi corretora imobiliária, exportadora de bananas para a Argentina - de onde aliás trouxe a ideia da Casa Cor - e fundadora da Omint. Será certamente leitura de interesse nestes novos e coloridos tempos. (http:/mariaignezbarbosa.com).