A boa safra do Design

Marcelo Lima, marcelo.lima.antena@estadao.com.br - O Estado de S.Paulo

Exposição no MAM reúne peças que representam a variada produção atual dos designers brasileiros

Ao contrário da maestria para o artesão ou do conhecimento intuitivo para o artista, é a capacidade de reflexão, de responder de forma criativa a questões bastante específicas o que caracteriza e identifica o trabalho dos designers - atividade aprendida, mental por excelência, que tem nos materiais e tecnologias alguns de seus referenciais e na prática do projeto, seu principal fundamento.

Em fase de consolidação, o design brasileiro amplia suas fronteiras, aqui e lá fora. Novos olhares, vindos de todos os cantos do Brasil, atestam que a produção nacional não está mais restrita às grandes metrópoles. Enquanto isso, no exterior, a criatividade do produto nacional é celebrada em prosa e verso. Cada vez mais se produz e se experimenta.

Nas palavras da jornalista Adélia Borges, "se pratica" design no País. "Em um mundo que tende a diluir as fronteiras, o design é a atividade em que elas se interpenetram. A disciplina, por excelência, na qual a inventividade é colocada a serviço do cotidiano e de um mundo melhor", sintetiza Adélia, curadora da exposição Design brasileiro hoje: fronteiras, em cartaz no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo até 7 de julho.  

Anel Puzzle, de Antonio Bernardo

Se a prática conduz mesmo à perfeição, é questão ainda a dividir opiniões. Mas, que no caso do design, ela conduz a um aprimoramento é inegável. Como bem exemplifica a seleção precisa organizada por Adélia, provavelmente nunca, em tão curto espaço de tempo, se projetou tanto no Brasil. Nunca também o design esteve tão presente no cotidiano dos brasileiros e com resultados tão promissores.

Fiel à sua ideia inicial de abolir barreiras, Adélia opta por uma abordagem multidisciplinar da produção nacional: de móveis a objetos, de equipamentos eletrônicos a livros, embalagens e cartazes. Como em um retrato em tempo real, produtos com menos de uma década de vida são apresentados lado a lado, tal como são vivenciados nas casas brasileiras.

VASTA E PLURAL

"Meu objetivo não foi fazer um ranking dos melhores, muito menos traçar um panorama exaustivo de uma produção que é vasta e plural", pontua Adélia. "Busquei apenas mostrar a amplitude e variedade de um campo de atividade que vem se desenvolvendo - e se profissionalizando - cada vez mais por todo o País."

Para além de um enfoque cronológico ou documental, a curadora trabalha com o presente, sobre matéria-prima fresca. A amplitude temática, raramente vista em mostras do gênero, conduz o visitante a um percurso de descobertas. Assim, ao lado das famosas sandálias Melissa desenhadas pelos irmãos Campana, é possível se deparar com a lavadora de roupas Superpop, de Chelles & Hayashi Design.

Digna de nota é também a frequente presença de profissionais de outros campos de atuação, que acabam por cruzar a fronteira do design. Caso de Guto Lacaz, que emprestou sua inventividade para a Tok&Stok, na forma do porta-revistas Zig Zag, e ainda do arquiteto Isay Weinfeld, representado na mostra por uma fruteira.

A possibilidade intrínseca que cada objeto exibido tem de ir além da sua função para percorrer também caminhos ora da arte, ora do artesanato, é outra atração à parte. "Acredito até que é por meio dessas intersecções que o design vem conquistando espaço nas prateleiras e nas casas brasileiras de todos os tipos e segmentos", argumenta Adélia, para quem o brasileiro é plural por natureza. "No design, não poderia ser diferente."