Aproveite as férias para conhecer três casas modernistas de São Paulo

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Arquiteto indica casas abertas à visitação e destaca o que vale a pena olhar com mais atenção

O arquiteto e urbanista Renato Anelli

O arquiteto e urbanista Renato Anelli Foto: Divulgação

Que tal aproveitar as férias para conhecer de perto três casas ícones do movimento modernista de São Paulo abertas ao público e sempre às voltas com uma intensa programação cultural? “Além do mais, a visita pode ser estendida. Do Museu Lasar Segall se pode visitar a casa modernista de Warchavchik, na Rua Santa Cruz. A partir da Casa de Vidro, de Lina, a capela do Morumbi, também uma obra de Warchavchik, e, da galeria que funciona na casa de Levi, o Museu da Escultura”, indica o arquiteto e urbanista Renato Anelli, professor da USP São Carlos e integrante do Conselho Administrativo do Instituto Lina Bo Bardi, que nesta entrevista exclusiva ao Casa destaca os pontos altos de cada projeto.

A Casa Museu Lasar Segall, na Vila Mariana

A Casa Museu Lasar Segall, na Vila Mariana Foto: Divulgação

Quais casas modernistas merecem a visita?

Entre as muitas existentes em São Paulo, destaco três que combinam alta qualidade arquitetônica e bom estado de conservação. Primeiro o Museu Lasar Segall, na casa-ateliê do artista, projeto de Gregori Warchavchik de 1931; em seguida, a Casa de Vidro, de 1951, antiga residência do casal e hoje sede do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, e a Galeria Luciana Brito, instalada em uma casa nos Jardins, projetada por Rino Levi, em 1958. 

A Casa de Vidro, no Morumbi, projeto de Lina Bo Bardi, atual sede do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi

A Casa de Vidro, no Morumbi, projeto de Lina Bo Bardi, atual sede do Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi Foto: Divulgação

Do ponto de vista estético e construtivo, no que elas inovaram e o que você recomenda que seja observado com maior atenção?

De imediato, a integração entre arquitetura e jardins. Tal intimidade procurava situar nos trópicos brasileiros as formas geométricas abstratas do ideário moderno, diluindo sua conotação internacional. Apesar de marcante nas três casas, o diálogo permanente com a natureza se dá de forma distinta em cada uma delas. A casa de Segall abraça o jardim. A residência dos Bardi situa-se no meio de uma mata plantada por Lina, na altura da copa das árvores. No projeto de Levi, o jardim é incorporado aos interiores, dividindo espaço com a sala de estar. Já as opções de ordem construtiva são bastante diversas. A casa de 1931 não tem o arrojo estrutural da Casa de Vidro, com sua estrutura de tubos de aço delgados e três faces envidraçadas, do piso ao teto. Ou mesmo da casa de Levi, na qual a sofisticação construtiva ocorre no ocultamento dos detalhes estruturais, que também permitem amplos planos de vidro para integrar o interior com o jardim.

Apesar de não tão antigas, a conservação dessas construções envolve manutenção permanente. Quais os principais cuidados? 

O pior que pode acontecer para um edifício tombado é ficar vazio e sem uso. É importante que eles acolham usos contemporâneos, mas compatíveis com sua arquitetura. As adaptações, quando necessárias, devem ocorrer de modo claro, não disfarçadas de originais. Obras como essas apresentam patologias construtivas específicas das construções com concreto armado, caixilhos metálicos, revestimentos, e, principalmente, impermeabilizações que necessitam de avaliações precisas. Nosso conhecimento técnico desses problemas é relativamente recente, pois temos a tendência de tratá-las como algo novo. Mas não podemos esquecer que algumas já se aproximam dos 100 anos. 

Casa projetada por Rino Levi nos Jardins, atual sede da Galeria Luciana Brito

Casa projetada por Rino Levi nos Jardins, atual sede da Galeria Luciana Brito Foto: Divulgação