Exposição em São Paulo faz viagem ao Cariri

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Durante a semana de design, mostra apresentou o artesanato, a arte e a música da região nordestina

Vista geral do pavilhão do Cariri, no Jockey Club, revestido com chapas de MDF

Vista geral do pavilhão do Cariri, no Jockey Club, revestido com chapas de MDF Foto: Salvador Cordaro/Divulgação

Uma das mais comentadas mostras em cartaz na cidade durante o DW!2016, que aconteceu de 9 a 14 deste mês, no Jockey Club, a 3xDesign, abrigou sob um mesmo teto três realidades distintas, mas nem de longe desconectadas: o atual estágio do desenho industrial brasileiro, a experiência italiana de pensar e fazer design e, finalmente, o Cariri. Uma região forte e coesa e, ao contrário das outras, imune a influências externas. 

No primeiro segmento, o Brasil industrializado brilhou forte na apurada seleção do designer Jader Almeida, que reuniu alguns dos nossos produtos industriais mais difundidos no mercado internacional. Depois, a Itália, nossa referência maior, foi revistada pelo arquiteto brasileiro Ricardo Bello Dias. Por fim, a região do Cariri, explodiu em cores e sons pelas mãos dos curadores Pedro Ariel Santana e Ana Virginia Furlani.

“A ideia mestra foi mostrar nosso atual estágio de desenvolvimento no design, posicioná-lo lado a lado com a experiência italiana e, por fim, deixar o recado de que não podemos nunca perder de vista nossas raízes ancestrais, sob o risco de concebermos produtos vazios, sem alma”, comenta Santana, satisfeito com a repercussão alcançada pelo segmento na mostra. 

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“Mais do que uma exposição de design, o que objetivamos foi fornecer aos visitantes uma imersão no universo caleidoscópico do Cariri”, explica a cocuradora Ana Regina. “Penso tratar-se, na verdade, de uma manifestação cultural, tendo em vista que não podemos dissociar a produção artesanal do Cariri da cultura da região”, complementa o curador, que, para bem apresentar a região ao público paulistano, levou ao pavilhão uma legião de convidados especiais: músicos, escritores, xilogravuristas e cozinheiros.

Detalhe de cadeira e chapéu de couro com os arabescos de mestre Espedito Seleiro

Detalhe de cadeira e chapéu de couro com os arabescos de mestre Espedito Seleiro Foto: Zeca Wittner/Estadão

Segundo Santana, o sucesso do segmento se deu, antes de tudo, por se tratar de uma completa novidade para a maioria dos visitantes. “Percebi que pouco se sabia por aqui sobre a terra do Padre Cícero. Seu artesanato, seu colorido vibrante, sua religiosidade e especialmente o fato de que, à sua época, na primeira metade do século 20, o ‘padim’ incentivou o desenvolvimento de oficinas de artesanato locais, em materiais como couro, madeira, zinco e argila”, afirma ele. 

Ícone maior da região, como não poderia deixar de ser, a figura do padre Cícero Romão Batista foi o alvo de todas as atenções, comparecendo à mostra na forma de inúmeras esculturas, como parte de indumentárias e na maioria dos objetos devocionais. “O catolicismo do Cariri é cheio de peculiaridades, uma vez que a devoção à figura do Padre Cícero chega a ser igual ou maior até que à fé depositada pelos locais em Jesus Cristo”, comenta Ana Virginia.

Determinados em invocar essa atmosfera mística no pavilhão do Jockey, a dupla de curadores lançou mão de uma completa compilação de elementos típicos da região, tais como fitinhas coloridas do Juazeiro do Norte, imagens religiosas e flores de plástico daquelas que costumam decorar casas e bares da regiãos. Tudo devidamente apresentado dentro de uma ótica contemporânea, em um cenário revestido integralmente por placas de MDF, pontuado por inscrições em néon. 

Além do Padre Cícero, outras personalidades também marcaram presença no espaço. Caso do mestre Espedito Seleiro, com seus arabescos de couro colorido aplicados indistintamente sobre roupas e móveis. Ou ainda de Nino e Manoel Graziano, escultores de madeira que influenciaram toda uma geração de artistas santeiros, e das irmãs Cândido, que contam suas histórias, sacras e profanas, em quadros de argila.

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Vista com bons olhos por artistas e designers sulistas, a arte popular do Cariri já é uma realidade presente na obra de profissionais brasileiros como Marcelo Rosenbaum e Sergio Matos. Além, claro, dos irmãos Fernando e Humberto Campana, que no ano passado lançaram, pela Firma Casa, uma coleção de móveis executada em parceria com o mestre Espedito Seleiro. 

“O recado dessa mostra é simples: é bacana viajar para Milão, entender o que fazem os italianos, seu pensamento de design. Mas é importante também olharmos para dentro, sabermos de nossas coisas, para não perdermos a nossa essência”, diz Ariel, satisfeito em perceber que a mostra ajudou a colocar o Cariri no mapa do Brasil dos paulistanos. “O que não é pouca coisa.”