Designers atualizam o clássico lustre de cristal

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Exposição em Milão apresenta novas versões para o tradicional lustre de cristal checo

Visitante observam lustre com influência Art Deco, do Oi atelier 

Visitante observam lustre com influência Art Deco, do Oi atelier  Foto: divulgação

A distinção entre cristal e vidro varia de país para país, de acordo com a composição química e as propriedades da massa vítrea. Na República Checa, o termo cristal é usado para designar qualquer vidro contendo óxido de chumbo em proporção superior a 24%. Já aos olhos do mundo, a equação é outra. Ao longo dos séculos os cristais produzidos no país têm se notabilizado por sua excelência e beleza. E, em anos mais recentes, também por seu design inovador.

Soprado, moldado e colorido na região da Boêmia, o cristal checo se tornou célebre pelo requinte artístico envolvido em cada etapa de sua produção. Mas, sobretudo, pela precisão do trabalho de seus mestres vidreiros. Artesãos responsáveis pelo corte e gravação de uma diversificada gama de objetos – vasos, lustres e ornamentos de todos os tipos – ainda hoje posicionados entre os itens mais rentáveis da pauta de exportações nacional. 

Fundada em 2007, por Leon Jakimic, a Lasvit é uma manufatura de vidros que chamou para si a missão de sintonizar a tradição cristaleira checa com o novo milênio. Combinando processos de produção artesanais e tecnologias atuais, como a das lâmpadas LED, ela tem se dedicado a dar vazão a uma tipologia original de produtos: mais do que lustres, a Lasvit se propõe a produzir esculturas e instalações luminosas. Feitas à mão, sob medida.

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“Dotar o cristal de um design leve e produzir experiências de tirar o fôlego”, eis, nas palavras de Jakimic, dois princípios basilares na dinâmica de atuação da marca. Assim como a permanente colaboração com jovens designers checos ou profissionais de renome de todo o mundo, como Nendo, Irmãos Campana, Ross Lovegrove ou Maarten Baas. Todos empenhados em colocar a maestria artesanal da casa à serviço de uma visão pouco convencional de design. 

“Fiquei muito feliz quando visitei o Palazzo Serbelloni, em Milão, e descobri nele belos lustres boêmios, do final dos anos 1700, instalados em um palácio neoclássico italiano. De imediato, percebi que nossos mestres poderiam contribuir significativamente para a restauração desses artefatos extraordinários. E que, além disso, seria o local perfeito para apresentar nossos produtos”, conta ele.

Cenário ideal para o almejado encontro entre passado e futuro preconizado por Jakimic, foi a sala napoleônica – endereço de residência de Napoleão Bonaporte durante sua estadia em Milão – o local escolhido para o lançamento de Via Lucis, a nova coleção da marca, durante a última edição do Salão do Móvel de Milão, em abril. Uma oportunidade única de conferir as novas criações Lasvit lado a lado com lustres de época recém-restaurados.

De imediato, uma constatação: para não interferir na contemplação do teto e dos lustres originais, a sala deveria ser equipada com nichos específicos para conter cada instalação. “Dessa forma, cada trabalho pôde ser apreciada em todos os seus detalhes: da textura de seus componentes às condições de luz e sombra produzidas”, explica Jakimic, citando a instalação Memento Mori, do checo Maxim Velcovsky, uma das peças mais emblemáticas da coleção.

"A frase em latim ‘memento mori’, em referência à necessidade de sempre lembrarmos da morte, foi a essência desse objeto. Ele simboliza o nascimento e a morte, bem como o desaparecimento de ofícios que são passados de geração em geração na Europa”, conta Velcovsky, que lançou mão de peças de vidro prensado, sugerindo correntes na forma de pequenos ossos, ao redor de outras maiores, sopradas, para prestar sua homenagem aos “imortais” lustres neoclássicos.

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Grandiosa, a arquitetura da sala napoleônica funcionou como contraponto ideal para a apresentação de outras criações evocativas do passado, mas com abordagem contemporânea. Caso de Imperatriz, de Jakub Berdych, que procurou oferecer uma reflexão sobre lustres populares durante o reinado da imperatriz Maria Teresa da Áustria; ou ainda Ludwig, de Maurizio Galante, que concebeu um lustre moderno, com proporções neoclássicas.

Exceção à regra, a escultura Intergalactic, de Petra Krausova e Libor Sostak, foi a única a não usufruir do magnífico espaço ocupado por Bonaparte durante seus dias em Milão. Posicionada logo no hall de entrada do palácio, a imensa esfera pulsante reproduzia um asteroide após atravessar a atmosfera, por meio 1.500 peças de vidro soprado iluminadas cada uma por uma lâmpada LED. 

“A instalação evoca o impacto que o choque de um meteorito há milhões de anos causou em nosso território, derretendo rochas e formando uma espécie de vidro verde, chamado Moldavite, hoje encontrado quase exclusivamente na República Checa. Portanto, tão raro quanto nossos cristais”, brinca Jakimic.