Revestimentos delimitam ambientes em projeto onde a arquitetura se sobrepõe à decoração

Natália Mazzoni - O Estado de S. Paulo

Pastilha, vidro e madeira. Não foi preciso mais do que três materiais para viabilizar o ideal de unidade deste apartamento

Vista da sala de estar para a cozinha. As poltronas Paulistano, de Paulo Mendes da Rocha, vieram da antiga casa do casal

Vista da sala de estar para a cozinha. As poltronas Paulistano, de Paulo Mendes da Rocha, vieram da antiga casa do casal Foto: Rafael Monteiro/Divulgação

São 100 m² de um prédio antigo em Pinheiros. A planta não tem nada de convencional, diferente daquela que existia ali quando o arquiteto Guilheme Pianca, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), chegou para comandar seu primeiro projeto individual. Os espaços eram divididos de maneira clássica: todos isolados e, por isso, com pouca incidência de luz.

Como os proprietários são formados em arquitetura, convencê-los de que o projeto incluísse uma grande demolição e, depois, uma planta livre, com ambientes feitos para serem usados e transformados não foi um problema. A família, que inclui duas filhas pequenas, ganhou, então, um espaço completamente novo, feito na medida para o uso que se faz dele. “Eles queriam de fato uma nova arquitetura. Não se tratava apenas de fazer uso de novos materiais, mas sim, de pensar um novo programa que reconfigurasse completamente os espaços”, diz Pianca.

Depois de demolidas quase todas as paredes, o plano foi distribuir os cômodos de maneira mais concisa possível. “São dois quartos, um para o casal e outro para as crianças, que se conecta com a brinquedoteca. E os dois dormitórios são separados pelo mobiliário de madeira”, explica Pianca. Os banheiros, por sua vez, são definidos por divisórias de vidro serigrafado branco. “O banheiro é um exemplo de como pensamos esse projeto. Ele não tem porta, fica entre o corredor e a área de serviço, ocupando o espaço de uma bancada de madeira com duas pias. Reservada, temos em frente à bancada a área de banho e o vaso sanitário”, comenta o arquiteto.

No resto da casa, sala, cozinha, área de serviço, escritório e quarto de brinquedos foram implantados de forma a possibilitar a articulação e interação mútua. Portas, só as de entrada do apartamento e as que separam os dois quartos do resto. Quando abertas, fazem com que tudo vire uma coisa só. “São espaços integrados, mas com usos delimitados. Nas áreas molhadas, deixamos isso claro separando-as das outras pelo uso das pastilhas brancas. Então, temos apenas dois revestimentos principais: a pastilha e a madeira.

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Na iluminação, também contamos com apenas dois tipos de luminárias”, pontua Pianca. 

Repletos de marcenaria, os espaços são livres de grandes adornos de decoração. Aqui, a estética se deu nas paredes descascadas e no tom quente da madeira tauari, escolhida para ressaltar o fundo avermelhado do piso de taco de peroba-rosa que já existia e foi restaurado. “Foi um trabalho grande de marcenaria, para que tudo funcionasse e também tivesse o acabamento exigido num projeto onde esse será um dos pontos mais importantes. Sobre o resultado geral, considero que esse é um apartamento que está perfeitamente ajustado ao uso que os moradores fazem dele.”

Concreto aparente, madeira e alvenaria no apartamento assinado por Guilherme Pianca

Concreto aparente, madeira e alvenaria no apartamento assinado por Guilherme Pianca Foto: Rafael Monteiro/Divulgação

Delimitar sem restringir 

Madeira, pastilha e vidro. Não foi preciso mais do que isso para colocar em prática neste apartamento a ideia de um espaço onde a integração e a unidade prevalecessem. “Uma quantidade modesta de materiais é um caminho possível para delimitar usos distintos que estão integrados espacialmente, como foi feito neste projeto”, diz o arquiteto Guilherme Pianca.

Para ele, manter algumas constantes, como elementos de marcenaria ou tratamento de paredes, durante a transição entre ambientes é uma estratégia certeira para configurar unidade ao conjunto quando se trata de ambientes completamente integrados. “A relação entre pisos e paredes é matriz da definição dos ambientes: um piso atua no espaço de maneira distinta de acordo com as paredes utilizadas. O mesmo material pode assumir o papel de uma base neutra ou um elemento mais imperativo, dependendo da relação que estabelece com outros componentes.”

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