Novo projeto quer desenvolver indústria do Acre com manejo comunitário da madeira

Marina Pauliquevis - O Estado de S. Paulo

Acre, Made in Amazonia nasceu de iniciativa do governo do Estado e tem como premissa a extração sustentável

Mesa de centro Jatobá, com mistura de várias madeiras

Mesa de centro Jatobá, com mistura de várias madeiras Foto: Brando Cimarosti/Divulgação

No início, não havia, necessariamente, a intenção de produzir móveis; o objetivo era lançar as bases para o desenvolvimento de um polo moveleiro no Acre. Mas a ideia inicial evoluiu e o resultado é uma coleção com peças de desenho limpo e acabamento impecável produzidas naquele Estado e, agora, prontas para chegar a todo o País. O projeto Acre, Made in Amazonia acabou de ser apresentado em São Paulo e chamou a atenção de quem passou pela feira High Design, realizada no início do mês, pela mistura de madeiras e pela forma como o material foi tratado em cada item.

Cedro, cerejeira, cumaru-ferro, itaúba, jatobá e tauari são algumas das madeiras usadas na produção das cinco linhas: Palafita, Jatobá, Empate, Yuxin e Estrela, que fazem referência à cultura e à história locais. “A mesa Yuxim, por exemplo, surgiu de um grafismo tradicional indígena. A mistura de cores, que faz parte da identidade local, também foi muito usada”, diz o designer Bernardo Senna.

Ele, o francês Emmanuel Gallina e profissionais do Poli.Design, do Consórcio Politécnico de Milão, escola de design de maior prestígio da Itália, estiveram à frente de workshops que reuniram arquitetos, marceneiros e artistas locais e deram origem aos móveis, entre mesas, cadeiras, bancos e buffets. O Sebrae e o Sistema Fieac, que reúne a indústria do Estado, também apoiaram o projeto, que nasceu de uma iniciativa do governo do Estado e tem como premissa o manejo sustentável da floresta.

Toda a matéria-prima tem a certificação do Forest Stewardship (FSC) e FSC Comunitária, modalidade exclusiva para produtos de florestas manejadas por pequenos produtores ou comunidades. O Acre conta com 450 mil hectares de área com plano de manejo florestal aprovado, com área a potencial para esse tipo de extração de 6 milhões de hectares, segundo a arquiteta Marlúcia Cândida, primeira-dama do Estado e idealizadora do projeto. O trabalho de manejo florestal envolve cerca de 600 famílias no Acre, em assentamentos da reforma agrária e unidades de conservação de uso sustentável.

De acordo com Senna, algumas das madeiras do Estado, de alta qualidade, são utilizadas em outras regiões do País. Aqui, o grande diferencial é o manejo comunitário. “A exploração da madeira não é controlada apenas pelos órgãos de fiscalização oficiais, mas também pela comunidade, que depende da floresta preservada para ter sua renda e que tem, inclusive, seus próprios técnicos que acompanham e garantem que a madeira não é falsificada nem no nome nem na origem”, conta. “A preservação é uma questão de sobrevivência, econômica, inclusive. O mercado já entende isso e o selo FSC é um enorme diferencial.”

Para ele, o consumidor final cada vez mais valoriza móveis produzidos com a preocupação de preservar a floresta. “É uma relação mútua: o consumidor precisa pedir mais e a indústria e instituições têm de oferecer mais produtos e divulgar mais o conceito para que se consolide definitivamente essa ideia.” Nas áreas de manejo florestal, as famílias envolvidas não apenas extraem a madeira, mas também coletam castanha, açaí e borracha e, até por isso, cuidam da floresta.

Em São Paulo, os móveis estarão à venda a partir de outubro, na loja Lofty Concept, no Morumbi. Segundo Senna, a coleção tem tudo para agradar a quem se interessa pela história do produto. “São peças para quem busca uma conexão com a cultura do local de origem do produto, que não foi feito apenas para se encaixar em determinado ambiente – ele vai se tornar uma presença relevante no espaço.”

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