Design das Arábias

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Técnicas de produção tradicionais dos Emirados Árabes Unidos são retomadas pelos designers na mostra Tanween, um dos destaques da Semana de Design de Dubai que aconteceu no mês passado

A cadeira de balanço Hizz e a mesa Baskota, do Studio MUJU 

A cadeira de balanço Hizz e a mesa Baskota, do Studio MUJU  Foto: divulgação

Fundada em 2008 pela curadora Lateefa bint Makto, Tashkeel é uma organização de arte contemporânea sediada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, EAU, que se propõe a facilitar a prática da arte e do design, a experimentação criativa e o diálogo entre diferentes culturas. Para tanto, além de programas de residência artística, promove uma ampla gama de exposições, oficinas e seminários, com vistas a levar arte e cultura para um público mais amplo, que envolve a comunidade local e também a global.

Desde 2013, a organização instituiu um programa de apoio ao design, Tashkeel, que patrocina jovens profissionais, nativos ou radicados no país, no desenvolvimento de produtos capazes de responder em termos de produção, design e estética a seu ambiente de origem. Como principal trunfo, a possibilidade de explorar habilidades e recursos culturais de uma região, que, como poucas, contrapõe tradições milenares e acesso franqueado a tecnologias de ponta. 

Assim, a cada edição são selecionados quatro nomes, ou estúdios, que passam a produzir imediatamente com vistas a uma exposição anual, a Tanween, que este ano aconteceu de 24 a 29 do mês passado, durante a Semana de Design de Dubai, e teve como cenário um edifício desativado do d3, ou Dubai Design District: uma espécie de centro comercial e expositivo em vias de implantação nos arredores da cidade, que costuma sediar a maioria dos eventos em cartaz durante o festival.

Siga o Casa no Instagram e use a hashtag #casaestadao

Para melhor contextualizar a mostra deste ano, além de trabalhos inéditos, produzidos por recém-chegados como o britânico Saher Oliver Samman, os organizadores contaram com a participação de antigos alunos do programa, como Rand Abdul Jabbar e o Studio MUJU, de Jumana Taha e Mentalla Said, que foram encarregados de criar peças inéditas a partir de trabalhos anteriores. 

Samman, por exemplo, que está nos Emirados Árabes Unidos desde 2013, adora criar móveis a partir de uma perspectiva europeia. Mas sem nunca perder de vista a estética árabe. Uma receita seguida à risca na rede Woven, onde ele revisita o couro, um de seus materiais favoritos, com o objetivo de criar um móvel de extração contemporânea, mas, ainda assim, culturalmente integrado. 

Um percurso seguido de perto também pelas nativas Mentalla Said e Jumana Taha, designers à frente do Studio MUJU, que compareceram à mostra com duas novas criações: uma cadeira de balanço tradicional, mas com formas geométricas acentuadas, na qual o encosto parece flutuar e Baskota, mesas de dois níveis, que jogam divertidamente com proporções e possíveis encaixes. 

Reverenciada pelas designers, a emblemática poltrona Moza, projeto anterior da dupla, que sinaliza o renascimento de técnicas de tecelagem locais, resgatadas ao longo das viagens da dupla por todo o EAU, também compareceu à mostra em Dubai.

“Esta cadeira é manifestação física de uma cultura viva”, considera Jumana, que durante todo o processo de execução do móvel trabalhou lado a lado com um tecelão local, responsável pela escolha dos diferentes padrões étnicos que revestem o móvel. 

Curta a página do Casa no Facebook

Da mesma forma, a iraquiana Rand Abdul Jamal, autora da poltrona Shape, procura se apropriar da lógica inerente aos processos artesanais para construir móveis contemporâneos. No caso, dos mesmos perfis de madeira que definem a estrutura e a forma das tradicionais embarcações locais. “Meu trabalho consistiu em rearranjar estes componente, gerando novas possibilidade, tanto de forma quanto de uso”, afirma. Para a próxima edição do evento, que acontece em outubro de 2017, quatro designers baseados nos EAU já foram selecionados: Hamza Omari, Hatem Hatem, Lujain Abulfaraj e Lujaine Rezk. É esperar para ver.