Castelo que pertenceu a Christian Dior renasce na França

Marcelo Lima - O Estado de S.Paulo

Propriedade foi restaurada seguindo fielmente as referências deixadas pelo estilista

O castelo La Colle Noire refletido no espelho d’água

O castelo La Colle Noire refletido no espelho d’água Foto: Benjamin Decoin/Divulgação

Christian Dior tinha paixão por plantas. O lendário estilista cultivou centenas de canteiros de jasmins, oliveiras, videiras e, principalmente, rosas. A flor em torno da qual elaborou suas melhores fragrâncias e dedicou muitas das horas passadas no castelo de La Colle Noire: o seu éden particular em Montauroux, na região de Provence-Alpes-Côte d’Azur, no sudeste da França.

Uma propriedade com mais de 100 hectares, adquirida por Dior em 1951, para onde ele se transferiu definitivamente quando decidiu deixar a moda para trás. Um castelo do século 19 que ele ousou transformar em casa e onde cultivou amigos, arte e muitas plantas. Mais ainda, é o único lugar onde Dior se dedicou integralmente à decoração, com o requinte que imprimiu às suas criações de moda.

Ao todo, Christian Dior trabalhou na decoração do La Colle Noire por quatro anos. Em sintonia com o estilo da construção, procurou criar ali a sensação de estar em uma casa habitada há tempos, como costumava frisar. A esse desejo de dar a ilusão de que sucessivas gerações haviam vivido ali, veio se somar a paixão do estilista pelo século 18. Como resultado, acabou dando origem a um conceito muito particular de decoração que se viu interrompido com sua morte abrupta, em 1957.

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Desocupado desde então, o castelo foi readquirido em 2013 pela Maison Dior, que, em uma espécie de tributo a seu fundador, imediatamente deu início ao processo de restauração, tendo em vista um único objetivo: trazer à vida a casa imaginada na década de 1950, uma vez que Dior não havia concluído integralmente seus interiores.

Assim, os cômodos originalmente decorados pelo estilista foram alvo de estudos minuciosos, de modo a reproduzir nos demais características, o mais fielmente possível, afinadas com o gosto estético do Dior “decorador”, tal como ele teria feito, caso tivesse tido tempo suficiente. Arquivos, esboços e até relatos orais renderam à equipe formada por decoradores e paisagistas um farto material histórico que permitiu desvendar as preferências e as idiossincrasias do estilista.

O belo jardim e a enorme piscina que contorna o castelo foram inteiramente recompostos. Fiel ao amor de Dior pela natureza, a equipe replantou vinhas e oliveiras aos montes. Nos interiores, a meta foi combinar rusticidade provençal com claras referências ao século 19, emblematicamente representada pela mobília Napoleão III.

Em cada cômodo, um ideal decorativo parece ter se sobressaído com uma clareza imediata. Os salões históricos do térreo, ocupados por Christian Dior em vida, foram reconstruídos em todos os seus detalhes, com atenção extrema a cada uma de suas escolhas. De forma que o salão de verão, seu famoso banheiro, seu escritório e seu quarto foram reproduzidos com tal exatidão que exibem apenas os objetos e móveis que ele mesmo escolheu.

O Château de Groussay, decorado por Emilio Terry, as aquarelas de Alexandre Serebriakoff e o salão de Louise de Vilmorin, personagens com os quais Dior compartilhava o gosto em termos de arquitetura e decoração foram referências imediatas. Em cada espaço sente-se a preocupação em fugir do aspecto folclórico do estilo provençal em nome de uma linguagem mais depurada. 

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As dependências de Catherine Dior, irmã do estilista, foram reproduzidas a partir de sua casa em Callian, nas proximidades. Com sala de estar e quarto, as dependências foram decoradas com base nas fotos de sua casa provençal. Fiéis a suas preferências, móveis Luís XVI e muitos objetos de que ela gostava se fazem presentes. Em síntese, uma justa homenagem a quem, na juventude, inspirou o irmão a criar o perfume Miss Dior.

Não diretamente ligada ao “métier” da decoração, restaurar o Château de La Colle Noire foi um dos maiores desafios já enfrentados pela Maison Dior. Para seus dirigentes, mais do que uma construção de época, ele se tornou a manifestação de um ideal de beleza. Um lugar exclusivo, nutrido pelo amor profundo de Dior pelo sul da França e expressão máxima de sua simplicidade refinada.

E foi assim que, na ensolarada manhã de 9 de maio deste ano, o La Colle Noire reabriu suas portas para os ilustres convidados da Maison. Como o local radiante que sempre foi, onde a natureza pôde se manifestar em todo o seu esplendor, em consonância com o estilo visionário de Dior. Ou, como ele preferiria, como um lugar onde uma família deixou rastros de uma existência feliz.