Tire seus olhos do computador

Jane E. Brody - The New York Times

A queixa mais comum relacionada à informática envolve os olhos, que podem desenvolver visão turva ou dupla, além de ardor, coceira, secura e vermelhidão, interferindo assim no desempenho no trabalho

Foto: Pixabay

Joanne Reitano é professora de História no LaGuardia Community College, em Queens. Escreve livros maravilhosos sobre a história da cidade e do Estado, e tem passado muitas horas, às vezes todo o dia, no computador revendo seu primeiro livro, The Restless City (A cidade que não para). Mas, segundo ela, quando está na frente da tela, seus "olhos ardem, o que dificulta muito o trabalho".

Depois de descansar os olhos por um tempo, o desconforto diminui, mas volta rapidamente quando retorna ao computador. "Se estivesse jogando, poderia desligá-lo, mas preciso dele para trabalhar", disse a professora frustrada.

Joanne tem uma condição chamada síndrome da visão de computador. E não é a única: o problema pode afetar qualquer pessoa que passa três ou mais horas por dia na frente de monitores e a população em risco é enorme.

Em todo o mundo, até 70 milhões de trabalhadores se arriscam a desenvolver a síndrome da visão de computador e esses números só tendem a crescer. Em um relatório sobre a condição, escrito por especialistas na Nigéria e em Botsuana e publicado no periódico Medical Practice and Reviews, os autores detalham uma lista crescente de profissionais em risco: contadores, arquitetos, banqueiros, engenheiros, controladores de voo, artistas gráficos, jornalistas, acadêmicos, secretários e estudantes, todos que "não podem trabalhar sem a ajuda do computador".

E isso sem contar os milhões de crianças e adolescentes que passam muitas horas por dia jogando.

Estudos indicam que de 70% a 90% das pessoas que usam computadores extensivamente, quer seja para trabalho ou lazer, têm um ou mais sintomas da síndrome da visão de computador. Os efeitos de seu uso prolongado não estão apenas relacionados à visão; as queixas incluem sintomas neurológicos como dores de cabeça crônicas e problemas musculares/ósseos como dores no pescoço e nas costas.

Os autores do relatório, Tope Raymond Akinbinu, da Nigéria, e Y.J. Mashalla, de Botsuana, citaram quatro estudos demonstrando que o uso do computador por até três horas por dia pode resultar em sintomas oculares, dor lombar, dor de cabeça gerada pela tensão e estresse psicossocial.

Porém, a queixa mais comum relacionada à informática envolve os olhos, que podem desenvolver visão turva ou dupla, além de ardor, coceira, secura e vermelhidão, interferindo assim no desempenho no trabalho.

Uma razão para o problema é universal: ao contrário de palavras impressas em uma página, com bordas bem definidas, as letras eletrônicas, que são formadas por pixels, possuem bordas menos nítidas, o que dificulta a manutenção do foco. Inconscientemente, os olhos repetidamente tentam descansar deslocando seu foco para uma área atrás do monitor, e esse constante alternar entre tela e ponto de relaxamento cria a fadiga ocular.

Outro efeito inconsciente é uma frequência muito reduzida de piscadas, o que pode resultar na secura dos olhos. Em vez da taxa de intermitência normal de piscadas de 17 ou mais por minuto, enquanto trabalhamos no computador ela muitas vezes se reduz para cerca de 12 a 15.

Mas há outros problemas. A distância entre a cabeça e a tela e a posição da primeira em relação à segunda também são importantes fatores de risco. Para dar aos olhos uma distância de foco confortável, a tela deve ficar aproximadamente entre 50,8 cm e 66 cm do rosto. Quanto mais perto do monitor estão os olhos, mais eles têm que trabalhar para se acomodar.

Além disso, quando olhamos para frente, os olhos devem estar no nível da parte superior do monitor. O departamento de Oftalmologia da Universidade da Pensilvânia aconselha que o centro do monitor fique cerca de dez a vinte centímetros mais baixo que os olhos para minimizar a secura e a ardência, pois isso diminui a superfície que fica exposta, porque eles não estão totalmente abertos. Essa distância também permite que o pescoço fique em uma posição mais relaxada.

Além disso, em um estudo feito no Irã com 642 estudantes pré-universitários publicado em Biotechnology and Health Sciences, no ano passado, 71% deles se sentavam muito perto do monitor para se sentirem mais confortáveis, e dois terços se posicionavam de modo impróprio, diretamente oposto ou abaixo do monitor.

Brilho e iluminação inadequados são outro problema. O contraste é crítico, melhor alcançado com letras pretas sobre a tela branca. A tela deve ser mais brilhante que a luz ambiente - uma lâmpada excessivamente brilhante e a forte luz do dia forçam os olhos para ver o que está na tela. Um monitor com muito brilho também faz com que suas pupilas se contraiam, dando aos olhos uma variedade maior de foco.

Você talvez precise reposicionar a mesa, usar um interruptor com graduação de luz, ou janela com persianas fechadas para manter a luz solar afastada. Além disso, o uso de uma tela plana com tratamento antirreflexo e lentes matizadas ou com redução de brilho podem ajudar a minimizar o problema.

Hábito pode ser prejudicial à saúde

Hábito pode ser prejudicial à saúde Foto: Pixabay

Certifique-se de adotar um tamanho de fonte que melhor se adapte à sua acuidade visual e de examinar os olhos regularmente - pelo menos uma vez por ano - para ter certeza que seus óculos estão atualizados. Isto é especialmente importante para pessoas com mais de 40 anos e para as crianças que usam muito os computadores, pois a acuidade visual pode mudar com a idade. Certifique-se, também, de que seu monitor tem uma tela de alta resolução, que fornece imagens e letras mais nítidas. E limpe o monitor regularmente com um pano de pó antiestático.

Quem trabalha com materiais impressos, alternando entre estes e a tela, pode minimizar a tensão no pescoço ao colocar os documentos em uma base ao lado do monitor. Se, como eu, você usa muitos documentos impressos diferentes ao mesmo tempo, considere a compra de óculos especiais para o computador - lentes bifocais ou progressivas com a porção superior ideal para leitura em tela e a inferior projetada para leitura no papel.

A prevenção é muito importante, mas se você tiver sintomas da síndrome da visão de computador, existem maneiras de reduzi-los ou eliminá-los. Os oftalmologistas sugerem a adoção da regra "20-20-20": a cada 20 minutos, fazer um intervalo de 20 segundos e olhar para alguma coisa a 6 metros de distância.

Conscientemente, pisque sempre que possível para manter a superfície do olho bem lubrificada. Para combater ainda mais a secura, a vermelhidão e a irritação, use colírio lubrificante várias vezes ao dia. Meu oftalmologista recomenda produtos livres de conservantes, vendidos em embalagens descartáveis.

Você também pode reduzir o risco de olhos secos evitando vento direto no rosto e usando um umidificador para aumentar a umidade do ar na sala. E Joanna disse que seu oftalmologista também sugeriu a aplicação de compressas úmidas quentes nos olhos todas as manhãs.