Sintomas de enfarte em mulheres são menos evidentes; veja os sinais

Ludimila Honorato - O Estado de S.Paulo

Elas demoram mais para ir ao médico por não saber que estão tendo um ataque cardíaco

A pressão alta é um dos fatores que podem levar ao enfarte.

A pressão alta é um dos fatores que podem levar ao enfarte. Foto: rawpixel/Pixabay

As doenças cardiovasculares são as que mais matam homens e mulheres ao redor do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 17,9 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a alguma complicação cardíaca ou de vasos sanguíneos — o equivalente a 31% de todas as mortes mundiais.

No caso do enfarte, um dos principais motivos de óbito, as mulheres correm um risco maior de morrer do que os homens. Além disso, os sintomas da doença são menos evidentes e elas podem nem perceber que estão sofrendo um ataque cardíaco.

Não é difícil imaginar os motivos que elevaram os casos de enfarte em mulheres. "Estudos mostram que são pela qualidade de vida que a mulher leva hoje: mudança no status, trabalhar mais, [exercer] obrigações que antes eram mais postas para os homens, jornada dupla. O homem não absorveu as atividades do lar na mesma proporcionalidade, e a mulher ficou mais sobrecarregada", diz o cardiologista Hélio Castello, diretor do Grupo Angiocardio.

Esse cenário coloca a mulher em mais situações de estresse, favorece o aumento de peso, alimentação irregular e sono precário. "Uma mulher de 50 anos hoje tem mais risco de enfarte do que uma mulher da mesma idade 50 anos atrás", acrescenta o médico.

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De modo geral, quando se pensa nos fatores de risco, o especialista afirma que os homens são mais propensos ao enfarte quase a vida inteira. A mulher tem certa proteção durante o período fértil devido à produção hormonal, mas isso ocorre só até a menopausa. A partir daí, pela queda de hormônios, o risco aumenta e se aproxima mais ao do homem.

A Federação Mundial do Coração afirma que as doenças cardiovasculares são a causa número um de morte entre mulheres, com mais de dois milhões de óbitos prematuros por ano e um terço de todas as mortes entre o sexo feminino. Os ataques cardíacos, segundo a instituição, tiram a vida de 3,3 milhões de mulheres todos os anos. Além disso, elas são mais propensas do que eles a se tornarem deficientes após um derrame (acidente vascular cerebral).

É enfarte, mas não parece

Parte da explicação para as mulheres sofrerem mais com enfarte do que os homens está na fisiologia. Segundo Castello, as artérias coronárias delas têm um calibre menor do que as do homem, o que facilita entupir e dificulta desentupir. Outro fator é que os sintomas do enfarte nelas são mais discretos e diferentes dos sentidos pelos homens. Com isso, elas demoram mais para ir ao médico por não saberem que estão tendo um ataque cardíaco.

"Não se sabe se elas são mais resistentes à dor e se queixam menos, mas, de modo geral, os sintomas não são tão clássicos", diz o cardiologista. "O homem, geralmente, tem dor forte no peito, que vai para as costas e braço esquerdo, além de ter sudorese. Na mulher, esses sintomas, por relato, são menos intensos", completa. Dor de estômago, cansaço excessivo sem causa aparente, enjoo e mal-estar geral podem ser sinais de enfarte no grupo feminino.

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Castello menciona que, segundo estudos, a mulher demora mais para ir ao médico em casos de emergência. Ele sugere que é porque elas são menos egoístas do que os homens. "Antes de ir ao hospital, ela pensa no filho, na casa, na comida, em quem tem de chamar", diz. E o tempo é precioso em casos de enfarte e AVC, pois vai determinar o tipo de tratamento mais adequado.

Há cerca de dez anos, a revisora de textos Ana Lúcia Sesso, de 59 anos, teve uma crise de ansiedade, o que elevou sua pressão arterial a mais de 16/20. Diagnosticada com hipertensão, uma das causas do enfarte, ela mudou hábitos de vida e passou a tomar anti-hipertensivo.

"Vivo um dia de cada vez, respiro fundo quando percebo que a situação está começando a me afetar e caminho, no mínimo, 30 minutos por dia", conta. Além disso, ela prestou mais atenção ao que comia. "Redução do sal, mais legumes, verduras e frutas e menos carnes", explica. Saiba mais sobre os cuidados com a hipertensão aqui.

Taxa de óbitos por AVC em mulheres reduziu

Em março, o Ministério da Saúde divulgou dados do estudo Saúde Brasil 2018 em que observou uma queda na taxa de mortes por AVC e doenças cardíacas isquêmicas em mulheres entre 30 e 69 anos. Entre 2010 e 2016, o índice para AVC caiu de 39,5 para 35,2 óbitos por 100 mil habitantes do sexo feminino. Já as doenças cardíacas apresentaram queda de 55 para 51,6 óbitos por 100 mil habitantes.

O médico do Grupo Angiocardio levanta a hipótese de que essa redução se deve à maior preocupação recente com o controle da pressão arterial, principal causa de AVC em homens e mulheres. "No consultório, vemos que as mulheres são mais cuidadosas em relação a seus níveis de pressão. Além disso, por ter hábito rotineiro de passar no ginecologista, começamos a notar que esse médico acaba sendo um intermediário no tratamento da hipertensão", diz Castello.

O doutor em cardiologia Cristiano Pisani, eletrofisiologista habilitado pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac), acredita que a redução é global tanto para homens quanto para mulheres. "Por conta das medidas de prevenção, campanhas e das medicações anticoagulantes", aponta. "Com isso, as pessoas estão tendo mais consciência de procurar o médico e fazer acompanhamento."

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No caso das arritmias, o médico da Sobrac reforça que novos medicamentos têm agido como preventivos do AVC e consequente redução da mortalidade. A servidora pública Franciele Coura, de 32 anos, foi diagnosticada com arritmia cardíaca em 2014, condição que faz o coração dela bater ou muito rápido ou muito devagar. O batimento cardíaco irregular, chamado de fibrilação atrial, eleva o risco de AVC.

As palpitações que ela sentia durante as gestações dos filhos foram associadas à ansiedade, anemia ou à própria gravidez. Só após uma investigação mais detalhada diagnosticou a arritmia. "Eu mudei tudo na minha vida. O médico pediu para parar com a cafeína, que estimula o batimento, controlar exercícios físicos e, principalmente, hábito alimentar", conta.

Ao retirar alimentos com muita gordura, inserir frutas no lugar de guloseimas, evitar café e refrigerantes, Franciele sentiu o resultado imediato. "Passei a ter menos crises de arritmia e cheguei a perder peso."