Remoção de tatuagem, um processo ainda imperfeito

Courtney Rubin - O Estado de S.Paulo

Um novo laser, chamado picosegundo - porque dispara pulsos a uma trilhonésima parte de segundo - vem sendo considerado o primeiro grande avanço no processo de retirada das tatuagens dos últimos vinte anos

A remoção de tatuagens é um setor que movimenta aproximadamente 75 milhões de dólares por ano

A remoção de tatuagens é um setor que movimenta aproximadamente 75 milhões de dólares por ano Foto: Ripplesf/ Creative Commons

Anos depois de Carly Cardellino ter saído da agremiação universitária a que pertencia, ainda não conseguira se livrar de uma parte dela: a estrela verde água e o coração vermelho delineado em preto que eram seu símbolo e pelos quais pagou 50 dólares para tatuar no pé esquerdo, no segundo ano de faculdade.

Em 2009, depois de um tratamento a laser com sessões mensais, que durou um ano (ao custo de 3 mil dólares), a tatuagem "parecia um machucado, como se alguém tivesse pisado no meu pé de salto alto. Ficou pior do que antes", lamenta Carly, hoje editora de beleza do Cosmopolitan.com.

Ela já tinha se resignado a manter a marca coberta com um Band-Aid circular cor da pele quando, em dezembro de 2012, o FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos) aprovou um novo tipo de laser que remove, entre outras coisas, as chamadas "tatuagens renitentes". Depois de sete sessões (a 400 dólares cada) no consultório de Paul Friedman, dermatologista em Manhattan, o sinal finalmente sumiu.

"A pele ficou um pouco mais clara", explica ela, que atribui o fato, em parte, ao uso obsessivo de protetor solar na área (a tatuagem não pode ser exposta à luz solar durante o processo de remoção), "mas se eu te dissesse hoje que tinha uma tatuagem ali, você não ia acreditar."

O novo laser, chamado picosegundo - porque dispara pulsos a uma trilhonésima parte de segundo -, opera da mesma forma que o da geração anterior, ou seja, decompondo as partículas de tinta para que o corpo possa absorvê-la.

E ele vem sendo considerado o primeiro grande avanço no processo de retirada das tatuagens dos últimos vinte anos. Isso porque, comparado com as opções antigas, que funcionavam "apenas" em bilionésimos de segundo, os médicos dizem que o picosegundo reduz o tempo de tratamento pela metade e consegue remover as cores da tinta (vermelhos, azuis e verdes) que antes só manchavam. Um pequeno estudo publicado na revista Dermatology mostrou que 60% das tatuagens com pigmentos verdes e azuis praticamente desapareceram após uma ou duas sessões do novo método.

Seus defensores gostam de descrever a diferença na precisão da decomposição da tinta comparando pedregulhos a areia. (Os pesquisadores já estão trabalhando com o laser de femtossegundo, cuja velocidade de pulsação chega a um milionésimo de bilionésimo de segundo, o que, seguindo a mesma analogia, compararia a pulverização da tinta a sedimento.)

"É um avanço muito significativo", comemora o Dr. Roy Geronemus, professor de Dermatologia do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, que trabalha com lasers desde 1983 e conduziu alguns estudos iniciais do picosegundo. (Ele faz parte da diretoria do conselho médico da empresa que fabrica o laser.)

Como todo tratamento cosmético, é claro que inclui uma jogada de marketing. A remoção de tatuagens é um setor que movimenta aproximadamente 75 milhões de dólares por ano - dedicado principalmente a jovens profissionais que temem que a arte prejudique a ascensão de suas carreiras, mães que decidem que as imagens já não lhes representam mais e entusiastas que simplesmente querem coisa diferente.

Há também aqueles que não têm mais esperanças, só desilusões amorosas. Bruce Katz, dermatologista de Manhattan, conta que removeu o mesmo nome de mulher da mesma nádega de um homem. Duas vezes. Tirem suas conclusões.

Porém, o número de procedimentos feitos nos EUA caiu drasticamente nos últimos anos: de 58.429 em 2012 para 33.363 em 2014, período mais recente para o qual a Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética tem dados.

Alguns especialistas atribuem a queda à nova capacidade do laser de reduzir o tratamento (de acordo com a contagem da instituição, cada sessão conta como procedimento), mas o presidente da sociedade, James Grotting, dá uma explicação menos otimista.

"Os números estão caindo porque os procedimentos de remoção não estão obtendo os resultados previstos", escreveu ele em um e-mail. E chamou as tatuagens de "problema ainda sem solução" por causa da possibilidade ainda existente de cicatrizes e da grande variação com que as diferentes cores e tipos de tinta reagem aos lasers. O rosa, por exemplo, geralmente contém óxido de ferro, o que significa que pode ficar preto, resultado que todos preferem evitar.

Ninguém discorda que a remoção é muito mais cara e demorada do que a própria tatuagem - e o custo é raramente coberto pelo seguro saúde. Só uma mulher entrevistada afirmou ter uma tatuagem quase "zerada", como é chamada, em uma ou duas sessões, mas era um signo do zodíaco marrom minúsculo no dedo anular direito. (O custo e os resultados iniciais variam muito por causa do tamanho e do local da tatuagem - na perna e no pé demoram mais para desaparecer porque a irrigação sanguínea é menor.)

Com o toque do laser, a pele imediatamente forma uma crosta. ("Se não, você sabe que a tinta não está absorvendo a luz", explica Friedman.) E a dor de um processo que, se der certo, deve resultar em bolhas purulentas? A maioria dos médicos oferece cremes anestésicos e injeções de lidocaína, ou seja, quando o laser atinge a epiderme (produzindo um estalo assustador), o pior já passou, como confirma Julian Schratter, artista do Brooklyn.

Embora tenha passado cinco horas, de bom grado, sendo tatuado para ganhar uma sequoia que se estendia do joelho direito à virilha, morre de medo de injeções. "É irônico, eu sei", admite. Na primeira consulta, sua ansiedade retardou o efeito das dez injeções de lidocaína que teve que tomar e o suplício acabou durando 2,5 horas - embora o tempo de aplicação tenha se limitado a apenas sete minutos.

Schratter, que tem mais sete tatuagens e pretende substituir a árvore por outro desenho, já estava mais tranquilo na segunda consulta, que durou só 45 minutos. Mesmo assim, brincou: "Desmatamento é complicado".

Leandro Giometti/Divulgação
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Informações adicionais:

Nem todo mundo que remove tatuagens é dermatologista

Basicamente a remoção de tatuagens a laser é o uso de uma vareta sobre um pedaço de pele. Nos EUA, a regulamentação do procedimento é estadual e permite que os operadores trabalhem após um treinamento prático de apenas 16 horas.

Para ter uma ideia, o site da empresa de laser Astanza traz a seguinte afirmação: "Empreendedores sem conhecimento médico abrem centros de remoção de tatuagem altamente rentáveis em 45 Estados todos os dias".

E ressalta que, mesmo que um médico ocupasse o posto de diretor, "a posição exigiria apenas checagens periódicas".

O Estado de Nova York pede um médico supervisionando os tratamentos, mas ressalta que a exigência "não representa a necessidade da presença física do profissional na hora e local em que o serviço está sendo prestado". Nova Jersey é mais rígido: remoção, só com a presença de um especialista.

Os médicos geralmente cobram pelo menos o dobro das clínicas; por que você deveria pagar um profissional?

"Até um macaco aprende a apertar botões. A questão é o julgamento. É por isso que se exige um médico", diz S. Tyler Hollmig, professor de Cirurgia Dermatológica da Universidade de Stanford.

Todo médico tem um caso de paciente cujo procedimento de remoção não deu certo. Tratar a tatuagem de forma adequada inclui entender como funciona a biologia da pele no local em que foi feita. E também não há uniformidade entre as tintas usadas.

E o paciente pode querer alguém que saiba analisar a cor da pele (o que é mais difícil com peles escuras), o histórico da tatuagem (já houve tentativa de remoção?) e há quanto tempo foi feita (as mais antigas são mais fáceis, pois o corpo gradualmente vai se livrando da tinta, que já pode estar desbotada).

A tatuagem não pode ser removida antes de seis meses de feita porque o processo inflamatório tem que ter sido concluído; não respeitado esse prazo, a remoção só fará piorar o caso.

E pode ser menos doloroso ir a um médico. Mesmo que no seu Estado a operação do laser não seja vista como uma questão da prática de medicina, administrar uma injeção de lidocaína é.