Pregorexia: obsessão de gestantes com o peso pode virar transtorno

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

As consequências de dietas e exercícios em exagero são graves para mãe e bebê

Ganho de peso durante a gravidez é importante tanto para a mãe quanto para o bebê

Ganho de peso durante a gravidez é importante tanto para a mãe quanto para o bebê Foto: Pixabay

A obsessão pelo controle do peso pode ter consequências ainda mais graves durante a gestação. A preocupação excessiva com o número na balança pode se tornar transtorno: a pregorexia.

O termo, junção das palavras pregnant (grávida, em inglês) e anorexia, ainda é recente, mas a condição, não. “O transtorno começou a ser estudado recentemente e já tem notificações da Organização Mundial Saúde (OMS). Muitas vezes, os médicos identificam a anorexia na gestação, apenas não conhecem o nome”, explica Aline Melo, psicóloga do Grupo São Cristóvão Saúde.

Cristina Berbert Gelelete, nutricionista, afirma que a preocupação excessiva das grávidas com o peso não é incomum. “Muitas pacientes chegam no consultório preocupadas com isso. E eu preciso dizer: ‘não é com isso que você vai se preocupar agora. A preocupação é em desenvolver o feto’”, relata. 

A OMS indica que, em média, a mulher precisa engravidar 12 quilos durante a gestação para um desenvolvimento saudável do feto. O número varia de acordo com o índice de massa corporal (IMC) de cada uma antes da gestação, além da composição de peso de cada mulher. 

Cristina explica que o IMC já é um cálculo considerado ultrapassado na maioria dos casos, mas para grávidas ele ainda é a base utilizada para calcular quanto peso deve ser ganho. “Isso porque tem mais uma pessoa que está se desenvolvendo ali dentro”, explica.

“Se a paciente chega ao consultório já com sobrepeso ou abaixo do peso, a dieta será adaptada de acordo. Em alguns casos, não precisa engordar os 12 quilos, mas vei depender do corpo de cada mulher”, afirma a nutricionista.

E, antes de tudo, a gestante precisa estar ciente de que seu corpo vai passar por grandes mudanças. Aline explica que, quando a gravidez é inesperada, o impacto pode ser maior e, sem preparo, a futura mãe pode se assustar com as adaptações. Somado às alterações hormonais, a parte emocional da gestante pode ser muito impactada.

Além disso, mulheres que já tiveram transtornos alimentares ou emocionais anteriormente têm mais chances de desenvolver pregorexia, informa a psicóloga.

Aline ainda ressalta que o transtorno tem como base a pressão social pelo corpo feminino 'perfeito' e o culto à imagem. “O transtorno alimentar está muito voltado ao transtorno de imagem. A paciente se enxerga de uma maneira diferente do que está e adapta seus comportamentos alimentares em relação a isso.”

Portanto, o tratamento da pregorexia é um trabalho conjunto entre ginecologistas, nutricionistas e psicólogos ou psiquiatras. “Não adianta só mudar a alimentação, e é até difícil ela aderir ao plano alimentar nesse caso”, pondera Cristina. 

As médicas defendem que o acompanhamento da gestante seja multidisciplinar desde o início. Se alguém próximo perceber sinais de qualquer comportamento excessivo em relação ao peso, como contagem constante de calorias ou exercícios em exagero. Se o transtorno não foi tratado, as consequências podem ir desde os problemas da desnutrição para a mãe e o mal desenvolvimento do feto até um aborto espontâneo, em casos mais graves.

Atrizes como Blake Lively, Deborah Secco e Anne Hathaway falaram abertamente sobre a pressão que sentiram por ter um corpo perfeito durante e logo após a gravidez. Em entrevista ao programa de televisão australiano Sunrise no ano passado, Blake, que tem dois filhos, deu um recado para as gestantes: "Você não precisa se encaixar no padrão Victoria's Secret de imediato, porque você simplesmente fez o milagre mais incrível que a vida tem para oferecer. Quero dizer, você deu à luz um ser humano. Eu realmente gostaria de ver isso ser celebrado".