Para funcionar, exercício mental exige mais do que jogos simples

Constance Gustke - The New York Times

Todos os tipos de atividades concentradas, como aprender um novo idioma ou a tocar um instrumento musical, podem ser recompensadores para idosos

Treinamento com drone

Treinamento com drone Foto: Melissa Lytle/The New York Times

Quando um curso de "boa forma cerebral" foi lançado em sua comunidade para aposentados, Connie Cole estava ansiosa para se matricular. Depois que entrou, aprendeu a usar um iPad da Apple e a resolver tarefas mais complexas verbalmente e no papel.

"Meu pai teve demência, então farei tudo que puder para evitá-la. Se eu puder dar algo aos meus filhos, é ficar longe dela", diz Connie, de 86 anos, ex-professora primária que também resolve jogos de sudoku todas as manhãs.

Na verdade, não existe cura conhecida para a demência nem qualquer prova de que exercitar o cérebro de formas diferentes possa atrasar a chegada do mal de Alzheimer. Tais aulas, porém, oferecem mesmo assim capacidades úteis para idosos e costumam ser vistas como eficientes por muitos especialistas na melhora da saúde como um todo e da qualidade de vida dos participantes.

A aula em sua comunidade Gayton Terrace em Richmond, estado da Virgínia, Estados Unidos, fez Connie pensar com maior profundidade e a ler mais. A melhor parte é ela ter aprendido que hábitos regulares como se exercitar, rir e conviver, incluindo conversar com estranhos, são envolventes e, talvez, mais úteis para ampliar sua vida. Certamente elas ajudam a torná-la mais divertida.

A teoria dessa abordagem mais holística, que vai além de confiar nos populares jogos cerebrais de computador, é a de que a mente floresce com estímulo contínuo. "O cérebro não sabe a idade que tem. E o que ele deseja fazer é aprender", diz Paul Nussbaum, presidente do Brain Health Center, em Pittsburgh, que ajudou a criar o programa usado na Gayton Terrace e outras comunidades que integram a rede Brookdale Senior Living.

Os exercícios cerebrais precisam ser baseados na novidade e na complexidade, Nussbaum acrescentou, incluindo jogos de tabuleiros que são jogados com outras pessoas. Todos os tipos de atividades concentradas, como aprender um novo idioma ou a tocar um instrumento musical, podem ser recompensadores para idosos. Só que além do exercício e da boa nutrição, um cérebro que está plenamente envolvido social, mental e espiritualmente é mais resistente, defende Nussbaum.

A pior coisa para os idosos é o isolamento. "Nós todos temos a capacidade de ajudar os nossos cérebros a ter saúde, e o quanto antes isso começar, melhor", ele afirma.

Inúmeras pessoas nascidas na geração do pós-guerra já usam jogos de computador ou aplicativos para estimular o cérebro, mas eles deveriam ser vistos como parte de um engajamento maior com o mundo, acredita Nussbaum.

A Áegis Living, de Madison, comunidade com assistência social em Seattle, oferece jogos mentais em seu centro de ginástica para o cérebro. Earl Collins, 90 anos, pratica esses jogos algumas vezes por semana há pelo menos dois anos. "Eu fico usando o meu cérebro. E os jogos me fazem lembrar, decidir e observar", conta Collins, executivo aposentado da ACM.

Drones ajudam idosos a manter cérebro ativo com atividades

Drones ajudam idosos a manter cérebro ativo com atividades Foto: Melissa Lyttle/The New York Times

Ao mesmo tempo, Collins toca trombone em bandas e tem vida social ativa, o que inclui frequentar um grupo da igreja do seu bairro, participar de palestras e manter contato com antigos colegas.

De acordo com declaração do Centro Stanford para a Longevidade, assinada por 69 cientistas, o consenso dos pesquisadores é que os jogos cerebrais não são capazes de impedir o aparecimento da demência em quem tiver essa inclinação genética.

Quando se exercita com jogos para o cérebro, você se torna melhor em jogá-los, diz Laura Carstensen, diretora fundadora do Centro. Só que não existem provas de que você se tornará mais inteligente e entrará em forma.

Ainda assim, a nova aprendizagem é útil, ela acrescentou, principalmente interagindo e não apenas ouvindo passivamente. Um bom exercício é aprender a ser fotógrafo, o que se traduz em melhor desempenho em testes espaciais.

Outro estudo, financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, sugere que o treinamento cognitivo que utiliza o raciocínio, tais como a solução de problemas e o aprendizado, como ler uma reportagem e discuti-la com um amigo, tem poder duradouro no cérebro - mesmo passados dez anos desde o encerramento do treino. Em estudo publicado em 2014, 2.832 participantes que fizeram o treinamento encontraram menor dificuldade ao desempenhar tarefas do cotidiano, como preparar refeições ou fazer compras. Os pesquisadores concluíram que treinar a memória em si não tem resultados duradouros.

"Essa é uma mensagem cheia de esperança. Mesmo um investimento modesto no treinamento cognitivo rende dividendos até uma década mais tarde. E é possível influenciar funções do dia a dia", assegura George Rebok, professor da Faculdade Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins, em Baltimore, que trabalhou no estudo.

Exercícios do cérebro estão em pauta em comumidades de aposentados

Exercícios do cérebro estão em pauta em comumidades de aposentados Foto: Melissa Lytle/The New York Times

Segundo Rebok, encontrar formas novas de se desafiar todo dia é uma boa ideia. Isso pode incluir várias atividades comuns, tais como efetuar cálculos mentais em vez de pegar a calculadora, tomar um novo caminho ou comer com a outra mão.

"Isso é o oposto do que estamos acostumados fazer, mas você deve continuar fazendo esses exercícios sem parar. Eles vão aumentar a plasticidade neurológica."

Wendy Suzuki, professora de neurologia da Universidade de Nova York, dá o mesmo conselho. "Sempre que se aprende algo novo, o cérebro muda. E as mudanças físicas mais duradouras vêm do exercício físico", explica ela.

Marty Donovan, 83 anos, se matriculou em um curso de ginástica cerebral de quatro semanas em sua comunidade para aposentados South Port Square, em Port Charlotte, Flórida. Ali, ela fez exercícios mentais como jogar um lenço com uma mão e pegar com a outra, resolver quebra-cabeças e aprender sobre nutrição. "Aprendi que meu cérebro não precisa se deteriorar. Mas preciso estimulá-lo diariamente para não ter problemas. A decisão é minha", diz Marty, cujos pais tiveram demência.

Marty sempre se exercitou. Ela lidera as aulas de hidroginástica, faz ioga e está aprendendo a meditar. "Mas eu costumo ficar sozinha, coisa que estou tentando mudar."

Carol Watkins, 78 anos, se matriculou no programa de ondas cerebrais do Asbury Methodist Village, em Maryland. Além de abordar nutrição e exercícios, o programa a incentivou a escolher um novo projeto que nunca havia feito. Assim, ela fez um ensaio fotográfico usando o programa de edição de imagens Picasa. No final da aula, levou uma pitaia, fruta que nunca havia comprado, à festa. "Eu tento fazer uma coisa diferente todos os dias. Quando caminho, tomo caminhos diferentes para chegar lá ou subo por escadas diferentes", diz Carol, funcionária pública aposentada.

Alvaro Fernandez, diretor executivo da empresa de pesquisa de mercado SharpBrains, diz que gostaria de ver uma maneira mais sistemática de medir a cognição, como, por exemplo, um checkup anual da saúde mental. "Se tivermos uma avaliação melhor, poderemos capacitar os consumidores. Essa é a próxima fronteira", diz ele.

Connie pretende aprender a linguagem dos sinais, uma coisa nova e complexa. "Quando você muda para uma casa de repouso, pensa que a vida acabou. Agora eu quero ler mais no meu (leitor eletrônico) Nook."