Olhar atento de enfermeira devolve vida plena a mulher com AVC

Laila Nery - ESPECIAL PARA O ESTADÃO

Joane Santos recuperou o movimento do corpo e a fala depois de tratada por médico alertado por Danielle Meira

Joane Souza e Danielle Meira se reencontraram após a recuperação. "Fiquei emocionada", disse Joane.

Joane Souza e Danielle Meira se reencontraram após a recuperação. "Fiquei emocionada", disse Joane. Foto: Adilton Venegeroles

No dia 28 de janeiro, Gabriel e Miguel dos Santos, de 17 e 15 anos, encontraram a mãe, Joane Santos de Souza, de 35, caída no banheiro de casa, em Salvador. Com a ajuda de vizinhos, levaram a cuidadora de idosos até o Hospital Geral do Estado da Bahia (HGE), onde o diagnóstico de AVC assustou a família.

“A equipe médica que fez o primeiro atendimento via que ela não respondia, eles continuavam estimulando, mas ela não respondia. Depois de 4 horas no HGE, eles começaram a não dar mais esperanças para a minha família”, disse Miguel. 

Por sorte, quem ajudou a socorrer Joane foi Danielle Meira, uma enfermeira emergencista do Samu, que também atua como enfermeira no Hospital Geral Roberto Santos, em cirurgias de alta complexidade. 

Foram mais de 12 horas desde a ida para o HGE e a transferência para o centro cirúrgico do Hospital Roberto Santos, referência de alta complexidade em neurologia na Bahia. Naquele momento, Joane já não conseguia se comunicar nem mexer os membros do corpo. Tratava-se de um quadro de afasia - perda parcial ou total da fala ou da compreensão da linguagem, sequela comum do AVC. 

No Brasil, o AVC é a segunda causa de morte e incapacidade mais comum. Na maioria dos casos, quando o problema não é identificado rapidamente, as sequelas são irreversíveis. No caso de Joane, os primeiros sintomas ocorreram às 6h, mas ela só entrou na sala de cirurgia às 18h. 

 

 

Contato

A enfermeira do Samu foi quem trouxe luz para a família. Assim que Danielle conversou com setor de neurocirurgia do Hospital Geral Roberto Santos, ficou sabendo que um dos maiores especialistas em reconstrução do tecido cerebral no mundo, o neurocirurgião e pesquisador Leonardo Avellar, estava trabalhando naquele dia. 

Danielle é uma das voluntárias da equipe e via de perto o quanto a reconstrução cerebral pode ajudar em casos como aquele. “Sempre fico atenta aos chamados para casos de AVC, porque muitas vezes é possível reverter as sequelas com a equipe de neurocirurgia, mas existem emergencistas que nem conhecem o procedimento. A Joane estava no lugar certo, na hora certa e com a equipe certa.”

 

 

Reverter

Quando a paciente entrou na ambulância, o contato com o médico havia sido estabelecido e, assim que chegaram ao hospital, a equipe já estava preparada para tentar reverter as sequelas. “Quando se fala em AVC isquêmico, a maioria dos hospitais recorre ao tratamento clínico, ou seja, o tratamento para não piorar o quadro. No entanto, ele não possui tanta capacidade de reverter algo que já aconteceu”, conta o médico Leonardo Avellar. 

Segundo ele, a abordagem neurocirúrgica é a mais eficaz nessas situações. Ela amplia a janela de tratamento, é mais eficaz para reversão de sequelas neurológicas, indicada para grandes AVCs e apresenta excelente custo-benefício. Joane é a terceira paciente a se beneficiar pelo projeto iniciado, neste ano, no Hospital Geral Roberto Santos, o segundo no Brasil a oferecer o tratamento.

Foram quase seis horas no centro cirúrgico e, depois de quatro dias sedada, Joane acordou. Ela ainda não conseguia se movimentar, nem falar, mas já respondia aos estímulos neurológicos. No quinto dia, conseguia movimentar a boca e mastigar. Ainda na UTI, no sexto dia, ela começou a receber fisioterapia e já deu alguns passos, mas ainda não falava. 

“A nossa surpresa foi tão grande quando no dia seguinte ela falou. Todo mundo estava esperando alguma sequela, mas a minha irmã está praticamente perfeita”, comemora Joelma, a irmã mais velha.

Joane Souza, Joelma Souza e Sandra Maria Moreira comemoram a recuperação sem sequelas.

Joane Souza, Joelma Souza e Sandra Maria Moreira comemoram a recuperação sem sequelas. Foto: Edson Ruiz

 

 

Penumbra

O procedimento cirúrgico ao qual Joane foi submetida se chama trombectomia mecânica cirúrgica, sua função é desobstruir o vaso sanguíneo no cérebro, promovendo a reativação de áreas hipovascularizadas (a chamada zona de penumbra - um cérebro inativo funcionalmente, mas ainda viável). 

O procedimento vem sendo estudado pelos neurocirurgiões Leonardo Avellar e Marcelo Magaldi, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A meta do tratamento é recanalizar o vaso a tempo de permitir a recuperação do tecido cerebral. Então, para a maior parte dos casos, é preciso agir dentro de até quatro horas e meia do início dos sintomas. Com a trombectomia cirúrgica, os médicos ganham tempo de ação no tratamento do paciente, chegando, em certos casos, a mais de 24 horas. 

Graças ao procedimento, Joane já se comunica perfeitamente e voltou a movimentar braços e pernas.

 

 

Esclarecimento

A Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares e Academia Brasileira de Neurologia faz o seguinte esclarecimento sobre o conteúdo acima:

A Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares (SBDCV) e a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) apoiam fortemente que veículos de comunicação brasileiros destaquem e divulguem o Acidente Vascular Cerebral (AVC), doença responsável por alta morbidade e mortalidade no nosso país, bem como os seus tratamentos. No entanto, cumpre-nos alertar sobre a matéria supracitada a respeito do tratamento ao AVC isquêmico.

A reportagem abordou um tratamento denominado “trombectomia mecânica cirúrgica”, descrito como tratamento do AVC isquêmico agudo. Ressaltamos que tal tratamento não é reconhecido pela ABN ou SBDCV, as duas principais sociedades científicas que combatem o AVC no Brasil.

Reforçamos que, o tratamento citado, em sendo exclusivamente experimental, só deve ser realizado no contexto de uma pesquisa clínica com as devidas autorizações regulatórias necessárias. Trata-se de terapia com poucos estudos científicos publicados e sem nenhuma pesquisa terminada que o comparou aos tratamentos já consagrados da fase aguda do AVC isquêmico.

Com o intuito de orientar a sociedade sobre o assunto médico abordado na reportagem do Estadão, tecemos a seguir as correções pertinentes, respaldadas pela ABN, pela SBDCV, diretrizes nacionais internacionais acerca do tratamento do AVC isquêmico agudo:

1) O tratamento da fase aguda (primeiras horas) do AVC isquêmico consiste em tentar restabelecer o fluxo de sangue no cérebro, especificamente no vaso obstruído pelo trombo ou coágulo sanguíneo. Para tanto, atualmente, só há duas formas validadas e cientificamente comprovadas: Trombólise (dissolução do coágulo) com medicamento (chamada de trombólise medicamentosa) ou trombectomia mecânica (retirada do coágulo com catéteres).

2) A trombólise medicamentosa é feita com um medicamento que dissolve o trombo, chamado de trombolítico. Grandes estudos científicos demonstraram que esta terapia promove ganhos clínicossignificativos, com redução da incapacidade ou sequela, até mesmo reversão completa dos sintomas de AVC.

3) A trombectomia mecânica é um tipo de tratamento endovascular, realizado por cateterismo seletivo de vasos do cérebro, que tem como objetivo a extração mecânica do coágulo responsável pela obstrução vascular. Esta terapia também já foi extensivamente estudada e comprovada como positiva em pesquisas internacionais, com resultados significativos na melhora funcional de pacientes vítimas de AVC, bem como em importante estudo nacional realizado em hospitais que atuam no Sistema Único de Saúde, publicado em 2020.

4) Um dos grandes obstáculos ao sucesso do tratamento do AVC é o tempo: quando mais rápido for oferecido o tratamento adequado, maiores serão as chances de recuperação. Por esse motivo, é fundamental o reconhecimento dos sinais e sintomas sugestivos de AVC, e que o paciente seja direcionado o mais rápido possível para um hospital capacitado a realizar estes tratamentos. Para as duas modalidades de tratamento acima citadas, existem estudos mostrando benefício para pacientes que se apresentam com início de sintomas em até 24 horas.