O combate à obesidade com tratamento multidisciplinar

Ana Gabriela Verotti - O Estado de S.Paulo

Apenas a cirurgia não é suficiente; acompanhamento psicológico também é necessário

Casos de obesidade podem ser mais eficazmente combatidos aliando-se diferentes frentes de tratamento. Embora muitos acreditem que apenas a cirurgia bariátrica vá resolver o problema, é necessário um trabalho em conjunto de nutricionistas, psicólogos, cirurgiões e preparadores físicos para que os quilos perdidos não sejam “readquiridos”.

“Obesidade não tem cura, tem tratamento”, declara Luiz Vicente Berti, cirurgião bariátrico do Hospital São Luiz. “É necessário que o paciente entenda que, para se manter com saúde e qualidade de vida, ele deve manter um grau de reeducação alimentar e atividade física depois de operado”. O acompanhamento com os profissionais deve começar antes mesmo da cirurgia.

Apenas 74% dos obesos mórbidos dizem ter esse conhecimento, e 57% não reconhecem estar nesta condição

Apenas 74% dos obesos mórbidos dizem ter esse conhecimento, e 57% não reconhecem estar nesta condição Foto: Tony Alter/Flickr

Psicólogos devem preparar os indivíduos para as transformações que a operação vai acarretar. “Trabalha-se o emocional para essas mudanças. Depois da operação, você vai ser a mesma pessoa, vai ter o mesmo marido, mulher, filhos, conta bancária. Mas também vai ter mais saúde e qualidade de vida”, diz.

O acompanhamento de nutricionistas e preparadores físicos também é necessário, antes e depois da operação. Berti lembra, no entanto, que os profissionais devem estar familiarizados com esses casos, para que melhores condições clínicas e psicológicas sejam alcançadas antes da cirurgia. “Não adianta um psicólogo que não está acostumado com pacientes que vão passar pelo procedimento cirúrgico. Não é terapia, é preparação para a operação”, enfatiza.

O trabalho continua no pós-operatório, com o acompanhamento técnico da cirurgia e a continuação de exercícios físicos e reposições vitamínicas personalizados para o paciente. A ideia é que o conjunto de ações faça com que o indivíduo não tenha seu peso aumentado novamente. O próprio comportamento do paciente deve mudar, comendo várias vezes ao dia, e os alimentos mais corretos. “A pessoa não vai se privar de nada, mas também não pode exagerar nos carboidratos”, conclui.

Perfil da obesidade no Brasil

De acordo com uma pesquisa atualizada, feita pelo Hospital São Luiz em parceria com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, apesar de 55% das pessoas estar ciente do que é a obesidade – contra 34% em 2007, quando a pesquisa havia sido atualizada pela última vez –, apenas 74% dos obesos mórbidos diz ter esse conhecimento, e 57% não reconhece estar nesta condição.

A falta de autoconsciência com relação à doença é um obstáculo grande para o tratamento. “‘Eu não sei que eu tenho essa doença, então para que eu preciso me tratar?’ Na cabeça das pessoas, obesos mórbidos são aqueles indivíduos que pesam 200kg. Mas você pode ser obeso com 80 kg, se tiver 1,40 m”, diz o cirurgião.

A pesquisa de 2007 apontava uma maior concentração de obesos mórbidos entre as classes A e B, cenário que mudou em 2014, com as classes C e D com maior número de pessoas nesta situação. “A população destas classes teve uma melhor no nível econômico, o que a fez adquirir hábitos que não tinham, como comer fora de casa e ingerir alimentos mais calóricos. Já as classes A e B, eu deduzo, ou se conscientizou ou se aproveitou da facilidade para ser operado e tratado”, diz.

Em 2007, pessoas na faixa dos 16 aos 18 anos tinham um índice maior de sobrepeso, e menor de obesidade mórbida; a pesquisa atual mostrou que estes resultados se inverteram: “as crianças e adolescentes estão engordando rápido, e os adultos também”. A maior faixa de obesidade continua entre indivíduos de 40 a 50 anos.

As pessoas têm um peso considerado normal quando seu Índice de Massa Corporal (IMC) não ultrapassa 25. Entre 25,1 e 30, considera-se sobrepeso e, acima de 30, o indivíduo é obeso. A partir desse número, classifica-se a obesidade de maneiras diferentes: com IMC entre 30 e 35, tem-se a obesidade grau 1; entre 35 e 40 e sem apresentar qualquer tipo de doença muito grave, como diabetes, hipertensão, considera-se obesidade grau 2. A partir de 40, o paciente é obeso mórbido clássico, sem necessariamente apresentar a doença. O IMC é calculado como a divisão do peso (em kg) pela altura (em cm) elevada ao quadrado.

Importância da prevenção

A necessidade de realizar campanhas para alertar as pessoas sobre a obesidade foi destacada pelo médico, que diz que ações “mais ou menos como foi feito com o tabagismo” deveriam ser realizadas. “Falta informação. As pessoas às vezes passam por uma série de frustrações em tratamentos clínicos e desistem, vão engordando. A conscientização dá ânimo para ter uma mudança de vida”, explica Berti.

A gravidade da obesidade, inclusive, é a mesma que a do tabagismo – especialmente considerando que as duas doenças podem aumentar o risco de desenvolvimento de câncer. Um estudo feito por cientistas da London School of Hygiene mostrou que pessoas em sobrepeso correspondem a mais de 12 mil casos de câncer por ano no Reino Unido, e que a obesidade pode ajudar a causar 10 tipos diferentes da doença.

Publicada pela revista médica inglesa Lancetl, a pesquisa também mostrou que um aumento de 13 kg a 16 kg em um adulto médio pode aumentar o risco de câncer de útero, vesícula biliar, rim, colo do útero, tireoide e leucemia. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, 50,8 dos brasileiros estão acima do peso, e, entre estes, 17,5% são obesos.

Para tentar reduzir estes números, o Hospital e Maternidade São Luiz Itaim inaugurou o Centro de Excelência em Cirurgia Bariátrica e Metabólica, que funcionará como uma clínica para pacientes com obesidade. A ideia é que o centro “seja o local onde resgatamos os pacientes que estão perdidos, que buscam o tipo de tratamento focado nos problemas deles”, finaliza o cirurgião.