Muito além do cigarro

- O Estado de S.Paulo

Cardiologista alerta para o risco das versões mais "camufladas" e atrativas do tabaco, como o narguilé e o cigarro eletrônico

O Brasil tem feito avanços consideráveis no combate ao fumo. A parcela da população brasileira fumante acima de 18 anos caiu 28 % nos últimos oito anos, é o que mostra uma pesquisa feita pelo Ministério da Saúde. A Vigitel(Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) aponta que 11,3% da população brasileira era fumante no ano passado. Em 2006, o índice era de 15,7%.

Mas, a Organização Mundial de Saúde (OMS) quer reduzir ainda mais percentuais como este. Dados divulgados pela própria instituição revelam que a epidemia do tabaco mata cerca de 6 milhões de pessoas por ano, das quais 600 mil são fumantes passivos. 

Neste sábado, dia 31 de maio é comemorado o Dia Mundial sem Tabaco. A campanha deste ano tem como objetivo sensibilizar os governos a aumentarem os impostos sobre o tabaco, visando a redução no consumo. "A política de combate ao tabagismo é muito ampla. Além do aumento da tributação, também lutamos pela redução da publicidade, restrição ao uso público do cigarro e combate ao contrabando", explica a doutora em cardiologia Jaqueline Scholz Issa.

Mas, de acordo com a médica, o problema do tabagismo hoje vai muito além do cigarro. "O cigarro eletrônico, que tem se apresentado como alternativa nesse segmento, não é seguro e apresenta grau de dependência pior ou igual que o cigarro comum. Também vale lembrar que ainda não foi possível avaliar o impacto desse produto no organismo", afirma. Ela também faz um alerta ao uso narguilé. Segundo Jaqueline é uma estratégia eficiente para atrair os jovens ao vício.

Cardiologista explica os efeitos nocivos do cigarro eletrônico e do narguilé; assista

 

Jaqueline, que é pioneira da comemoração do Dia Mundial sem Tabaco no País, também criou o Programa de Assistência ao Fumante (PAF), que está disponível no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo (Incor) e em vários hospitais da rede pública e privada. A cardiologista comemora os resultados obtidos com o programa. Segundo ela, enquanto o porcentual de recaída de um ex-fumante é de cerca de 50% na média mundial, por aqui esse coeficiente não passa de 30%.

A eficácia do tratamento, garante a especialista, se dá porque a metodologia empregada no PAF leva em conta o grau de dependência do fumante, que é distinto para cada pessoa. O paciente também recebe tratamento em caso de doenças associadas ao vício, como depressão e ansiedade, e é obrigado a mudar sua rotina de comportamentos associados ao cigarro. Mas, a principal "arma" no programa da cardiologista está na escala de conforto. "Todos os tratamentos anteriores só levavam em conta a escala de abstinência do paciente, o quanto ele sofria para deixar o vício. Agora o que avaliamos é a escala de conforto, se o tratamento oferecido está confortável para ele, e assim podemos corrigir e adequar o tratamento para minimizar o sofrimento e evitar recaídas", diz.