Menina que sofreu gordofobia na infância morre após fazer cirurgia bariátrica

- O Estado de S.Paulo

Amanda Rodrigues, de 19 anos, teve embolia pulmonar após a operação de redução do estômago

A irmã de Amanda Rodrigues contou todo o preconceito que a menina sofreu por ser gorda. 

A irmã de Amanda Rodrigues contou todo o preconceito que a menina sofreu por ser gorda.  Foto: Reprodução/Facebook

Na última terça-feira, 31, a jovem Mayara Rodrigues fez uma publicação em seu Facebook contando a história de sua irmã, Amanda, que morreu no último sábado, 28, por causa de complicações após uma cirurgia de redução de estômago. Mas o sofrimento de Amanda com relação ao peso começou muito antes.

Segundo a publicação, Amanda, de Campos de Goyatacazes (RJ), sempre foi uma criança gordinha e, aos sete anos, ela começou a sofrer preconceito. "Amanda não podia sentar na mesma mesa das meninas na hora do lanche, não podia ser do mesmo grupo nas brincadeiras na hora do parquinho e da educação física, e muito menos conviver junto na sala de aula. (...) Os meninos batiam nela. Até alguns professores apelidaram minha irmã", relatou Mayara na rede social.

A menina deixava de fazer várias atividades apenas por conta do peso. "Ela não ia ao shopping por vergonha das pessoas. Ela não segurava sua bandejinha de lanche. Ela não ia ao mar. (...) Amanda nunca soube o que era entrar em uma loja e escolher a roupa que ela queria", contou.

A vontade de emagrecer de Amanda era tanta que a família tentou de tudo, desde médicos e remédios a dietas e atividades físicas. Foi quando, aos 19 anos, a família e Amanda optaram pela cirurgia bariátrica. "Ela estava tão feliz, tão feliz... 'Eu vou ficar bonita, as pessoas vão gostar de mim'", disse na publicação.

Então, no dia 17 de janeiro, Amanda fez a cirurgia. Mas, ao voltar para o quarto, reclamou de uma dor na perna. A mãe da jovem informou aos médicos sobre a dor, e o médico pediu para que aplicassem coagulantes. A mãe já havia informado do histórico de trombose na família, mas o médico disse que estava tudo bem.

Dez dias depois, em 27 de janeiro Amanda estava em casa quando sentiu uma dor muito forte na barriga. "Levamos ela às pressas para o Beda [hospital em que ela foi operada], chegando lá, ele fez uma tomografia e disse que estava tudo bem. A minha irmã estava com falta de ar, estava morrendo de dor, e ele pediu para diminuir a dosagem do remédio para dor", conta a publicação. O médico disse à família que 'a dor era psicológica', mas Amanda insistia que não.

No dia seguinte, Amanda acordou às 3h não conseguia respirar. "Estava sufocada, não conseguia falar. Só olhava para a minha mãe desesperada. A minha mãe saiu gritando socorro pelo hospital Levaram a minha irmã para a UTI. A minha irmã teve embolia pulmonar, dentro do hospital, no socorro, e ninguém descobriu. O médico, sabendo do histórico da minha irmã, nem desconfiou da trombose", continuou Mayara no post.

"A minha irmã não vai mais sorrir, não vai dirigir, não vai se formar, não vai trabalhar, não vai namorar, não vai ser mãe, nem tia. O carro dela continua na garagem. Os seus perfumes continuam no armário. Sua cama ainda está aqui. Sua bolsa está pendurada no lugar de sempre. Seus sapatinhos estão onde você deixou. Sua gatinha está te procurando. Mas você irmã, você nunca mais vai voltar.", lamentou a irmã no fim da publicação, que já teve mais de 60 mil compartilhamentos.

Nos comentários, internautas mandaram mensagens de apoio à família e criticaram a 'ditadura da magreza que faz com que muitas meninas tenham restrições sociais'. Outras pessoas se identificaram com o preconceito contra pessoas gordas e pediram o fim da gordofobia.

Outro lado. O E+ entrou em contato com o Hospital Dr. Beda, onde foi realizada a cirurgia, e a direção do hospital declarou que "não foi feita nenhuma reclamação formal pela família perante o hospital sobre o caso" e que, devido à obrigação do sigilo médico, a equipe médica está "impedida de prestar informações a imprensa". O hospital ainda declarou: "Podemos dizer no momento, tão somente, que a Direção do Hospital buscou informações internas sobre o ocorrido, tendo sido apurado que não houve qualquer falha no tratamento da referida paciente.". 

Entretanto, o médico cirurgião Gustavo Cunha, o responsável pela cirurgia, deu entrevista ao UOL dizendo que "foram seguidos todos os protocolos de atendimento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica" e que todas as regras de pré e pós operatório foram seguidas.