Homem já viajou por 20 países durante tratamento de hemodiálise

Ludimila Honorato - O Estado de S.Paulo

Empresário manteve viagens de lazer e a trabalho por meio de serviço que permite tratamento em trânsito

Osvaldo Sandeado realizando hemodiálise em Dubai.

Osvaldo Sandeado realizando hemodiálise em Dubai. Foto: Osvaldo Sandeado/Arquivo pessoal

O desejo de viajar, conhecer outras pessoas e culturas que ele nem imaginava que existiam quando morava na zona leste de São Paulo fez Osvaldo Saldeado seguir uma carreira que lhe permitiu tudo isso. O sonho que nasceu por volta dos 11 anos de idade, enquanto estudava inglês, levou-o a trabalhar numa multinacional com chance de ir à Europa aos 24 anos. Desde então, tendo fundado a própria empresa em 2006, o executivo seguiu desbravando o mundo e nos últimos três anos com um detalhe: se preparando para fazer hemodiálise aonde quer que vá.

Ainda em 2006, ele descobriu ter amiloidose primária, uma doença que altera as células plasmáticas e provocou, no caso dele, acúmulo da proteína amiloide nos rins. A enfermidade só foi diagnosticada porque precisou fazer raspagem da próstata devido ao aumento benigno da glândula.

O tratamento do acúmulo protéico foi feito anos mais tarde, com transplante de medula óssea e quimioterapia - primeiro por seis meses e depois por seis anos. Antes, teve diagnóstico de câncer no estômago, que levou à retirada total do órgão, do baço e da vesícula.

Mas os rins chegaram ao limite e, em 2017, Saldeado teve de aderir à hemodiálise, terapia renal que substitui o trabalho que os rins deveriam fazer, que é de filtrar as impurezas do sangue. Nesse procedimento, a pessoa fica conectada a uma máquina por meio de pequenas perfurações na dobra do braço, da mesma maneira que é feita uma coleta de sangue, por exemplo.

Duas vezes por semana, o empresário tem de ir a uma clínica e fazer o procedimento que dura quatro horas. Para muitas pessoas, isso seria a interrupção de uma vida viajante, mas para ele, hoje com 68 anos, foi um impulso para ir além.

Osvaldo Sandeado, de 68 anos, fundou a própria empresa em 2006 e viajou o mundo a trabalho ou lazer mesmo tendo de fazer hemodiálise.

Osvaldo Sandeado, de 68 anos, fundou a própria empresa em 2006 e viajou o mundo a trabalho ou lazer mesmo tendo de fazer hemodiálise. Foto: Grazi Ventura

Se valendo dos serviços de uma clínica de nefrologia de São Paulo, ele consegue agendar as sessões de hemodiálise em outras cidades do Brasil e do mundo. "Eu me preparo, mais ou menos, dois meses antes. Para onde vou, entro em contato com a clínica que faz hemodiálise e pode receber turista, transmito para eles os dias que faço e, no aceite, mando uma série de documentos e eles ficam sabendo do tratamento que faço aqui para poder fazer lá", conta o executivo.

Para viagens ao exterior, o planejamento é o mesmo, mas alguns documentos têm de ser enviados traduzidos e a maioria da comunicação é em inglês. Ele também chega à cidade com antecedência para conhecer a clínica e confirmar se está tudo certo para o procedimento, que é realizado na segunda e na sexta-feira.

Osvaldo Sandeado em passeio na Muralha da China.

Osvaldo Sandeado em passeio na Muralha da China. Foto: Osvaldo Sandeado/Arquivo pessoal

Às vezes, Saldeado precisa fazer adaptações: em Israel, por exemplo, os estabelecimentos fecham às sextas, então ele altera o planejamento para terça e sábado. No ano passado, na França, a cidade onde ia ficar não tinha clínica com o serviço, então ele se programou para ir à cidade vizinha. No Brasil, por conta do convênio médico, ele não paga pelas sessões de hemodiálise em trânsito, mas pagou pelo serviço na maioria dos outros países.

"A adaptação a isso é curiosa. Você vai crescendo em termos de entendimento, que é importante para sua vida, ou faz ou faz. Não tem escolha", diz o empresário. "Você tem de deixar de olhar sua limitação como coisa negativa e tratar como uma bênção, um presente que pode usar para exercer sua imaginação e chegar mais longe ainda", afirma Saldeado, que mantém um olhar otimista sobre a doença. Ele planeja fazer vídeos para o YouTube para mostrar às pessoas que é possível manter uma vida ativa, realizar sonhos e viajar mesmo em tratamento de hemodiálise.

Hemodiálise em trânsito no Brasil e no exterior

Diversas clínicas brasileiras e internacionais compartilham do serviço de hemodiálise em trânsito. Com a chegada ao Brasil de empresas de origem estrangeira, a possibilidade de fazer o tratamento em outras cidades do País e do mundo é maior. De forma mais restrita, o Sistema Único de Saúde oferece o serviço em território nacional desde 2018 e a Fundação Pró-Rim também viabiliza o procedimento mediante solicitação por formulário.

O nefrologista Bruno Henrique Graçaplena Vieira, da DaVita Tratamento Renal, explica que a clínica presta os serviços, além de consultas ambulatoriais, para todas as pessoas, de crianças a idosos. No final do ano passado, a empresa registrou um aumento na demanda em diferentes cidades, como em Santos, litoral paulista, e Botafogo, no Rio.

Nesta última cidade, 40 brasileiros realizaram diálise em trânsito, além de receber pacientes estrangeiros. "A gente tem boa oferta de vagas, o sistema é mais ágil", afirma. Para dar conta da procura, a clínica disponibilizou mais equipamentos para as unidades.

Também é possível fazer a diálise peritoneal, em que o procedimento é realizado dentro do corpo do paciente por meio de um cateter inserido na barriga. Segundo o médico, essa medida tem bastante indicação nos primeiros anos do tratamento por dar maior sobrevida à pessoa. Mas é preciso avaliar caso a caso.

Doença renal crônica

A hemodiálise é indicada quando os rins apresentam falência, com funcionamento abaixo de 15% em pessoas com diabete e abaixo de 10% nos não diabéticos. Dependendo da condição, ela deve ser feita em quatro sessões semanais de três horas ou três sessões de quatro horas. Em alguns casos, é possível fazer diariamente.

No Brasil e no mundo, além da baixa ingestão de água e consumo excessivo de sal, a hipertensão e a diabete são os principais fatores de risco para complicações nos rins. Uma pesquisa realizada pela Abril Inteligência com 1.554 pessoas sem doença renal mostrou que 42% delas acreditam que diabete aumenta muito o risco de problemas nos rins e 46% indicaram a hipertensão.

"Muito tempo de hipertensão pode levar à doença renal crônica porque eleva o desgaste precoce das células do rins. Aumenta a maneira como as células do rim trabalham e elas morrem precocemente", explica o nefrologista.

Nos estágios iniciais, a doença não apresenta sintomas, mas, quando avança, pode manifestar náusea, falta de apetite, cansaço e inchaço. "A partir do momento que o rim tem falência, a pessoa fica dependente de substituição do rim", diz Vieira. As opções são diálise ou hemodiálise para o resto da vida e transplante do órgão.

Para viagens, o nefrologista recomenda que quem tem doença crônica deve controlar a ingestão de líquidos, manter o peso adequado, controlar a alimentação, seguir tomando os medicamentos conforme orientação do médico e, o mais importante, não faltar nas sessões de hemodiálise - o que se torna mais possível com os serviços em trânsito das clínicas.