Grupo de atletas com diabete correrá revezamento de 140 km para dar visibilidade à doença

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

São 12 corredores com a condição autoimune que farão a Volta à Ilha

Cada um dos atletas têm cuidados especiais para não sofrerem de hipoglicemia durante a prova

Cada um dos atletas têm cuidados especiais para não sofrerem de hipoglicemia durante a prova Foto: skeeze/Pixabay

A Volta à Ilha é uma corrida bastante desafiadora. A 22ª edição da prova de revezamento, que ocorre em Florianópolis, terá 140 quilômetros de distância e será no dia 8 de abril. Os participantes têm de acordar às 4h e correr na areia. Nos últimos 12 anos, a Volta à Ilha tem um grupo especial de corredores: portadores de diabete.

Há diversos mitos em relação a doença autoimune. Por causa das consequências negativas que ela pode trazer, muitos pensam que não é possível ser um atleta de alta performance com diabete. No entanto, o grupo formado por Alexei Angelo Caio, 42 anos, terapeuta, professor de artes marciais e portador da doença há 38 anos, prova o contrário.

É ele o responsável por organizar o grupo de diabéticos que fazem a Volta à Ilha anualmente, há 12 anos. Alexei explica que a doença autoimune pede determinados cuidados, mas não é para as pessoas sentirem pena de quem tem a condição. O objetivo do organizador do grupo é criar inclusão.

São necessários três cuidados principais para que os atletas diabéticos façam a prova de forma segura. "Todos são insulinodependentes. Eles sabem quanto de insulina eles terão de usar para um dia atípico. Outro pilar importante é a alimentação. Tenho atletas com diabete que são veganos e outros que comem de tudo. Cada um sabe o que pode ou não pode comer", explica Alexei. "Essa autonomia para os atletas é condição mínima para estarem lá". Além da insulina e da alimentação, o terceiro pilar é a prática frequente de atividade física.

Alexei na 16ª edição da Volta à Ilha

Alexei na 16ª edição da Volta à Ilha Foto: Acervo Pessoal/ Alexei Caio

Os atletas do grupo correm identificados com camisetas com o símbolo da diabete. Emerson Bisan, treinador de parte do grupo, ultramaratonista e portador da condição, explica que a ideia de fazer provas expondo que é diabético é incentivar, desmistificar e orientar as pessoas sobre a prática de atividade física de pessoas com diabete. Ele mesmo tem uma tatuagem que o identifica como portador da doença autoimune.

"Mesmo com todos os canais de informação alguns profissionais, pais, cuidadores ainda acham que quem tem diabete é incapaz e restrito a prática de qualquer atividade física", diz.

Para Bisan, há muitos casos de superproteção aliado a falta de informação e medo de acontecer algo durante a prática de esporte. Ele indica sempre ter contato com o médico, ter os exames em dia - especialmente na fase inicial. O cuidado mais importante para portadores de diabete tipo 1 durante atividades físicas é a hipoglicemia, explica o educador físico. "A melhor coisa é carregar uma porção de carboidrato de rápida absorção para corrigir ou prevenir a queda brusca das taxas de glicose.

Atletas. Ao todo são 12 pessoas no grupo e cada um corre trechos diferentes da prova. Alguns distâncias maiores, outros mais de um trecho. Alexei começou a organizar a equipe em novembro de 2016 e dividiu os participantes de acordo com o que cada um consegue fazer.

Bruno Helman, 22 anos, participará da equipe e da Volta à Ilha pela primeira vez. Para ele, é importante que haja um grupo como este para promover a causa para quem não tem diabete. "Para criar uma conscientização, mostrar que é possível o esporte de alta performance associada a uma doença autoimune", opina. "E para a comunidade diabética, mostrar que nossa condição não é um impeditivo para alcançarmos tudo que almejamos."

Bisan, Bianca Fiori, que treina com eles, Bruno e Alexei na USP

Bisan, Bianca Fiori, que treina com eles, Bruno e Alexei na USP Foto: Acervo Pessoal/Bruno Helman

Aos 18 anos, Helman descobriu que tinha a condição. Apesar dos sintomas, como cansaço, perda de peso, sede e outros, o jovem e sua família não suspeitaram que ele tivesse diabete tipo 1. Em um exame de rotina, a disfunção foi acusada. "No mesmo dia fui internado. Foi algo bem rápido e nos pegou de surpresa", relembra. Nos primeiros meses, ele teve dificuldade em aceitar, mas, depois decidiu que levaria uma vida mais saudável e começaria a correr para conseguir concluir uma maratona ao lado de seu pai.

Para a Volta à Ilha, o jovem espera que a equipe demonstre união e que não haja limites para que eles possam impactar pessoas dentro e fora da comunidade diabética. É ele quem fará a largada, às 4h, e correrá dois trechos, um de 10 km e outro de 6 km e sabe que precisa ajustar sua glicemia na noite anterior para que tudo saia bem. Ele ainda aponta para a importância de se hidratar e ingerir carboidratos.

Helman explica que alguns diabéticos medem seu índice glicêmico durante a atividade física, ele não, vai da percepção do momento. No entanto, ele sempre repõe o carboidrato a cada 5 km.