Fim do mito: semente e óleo de chia não emagrecem, mas trazem outros benefícios

Marcel Hartmann - O Estado de S.Paulo

Pesquisa da Unicamp avaliou o consumo por ratos e relatou melhora em substâncias essenciais para a prevenção a doenças crônicas

Pesquisa avaliou o consumo de chia por ratos e relatou melhora em substâncias essenciais para a prevenção a doenças crônicas

Pesquisa avaliou o consumo de chia por ratos e relatou melhora em substâncias essenciais para a prevenção a doenças crônicas Foto: Pixabay

Além de regular o intestino, ser uma ótima fonte de vitaminas e cair muito bem com iogurte, suco ou salada de frutas, a chia agora ganha mais um selo de amiga da saúde. Um estudo feito na Unicamp provou que a semente e o óleo de chia não emagrecem, como alardeado em muitas dietas, mas provocam uma série de regulações benéficas no corpo. Esses efeitos estão diretamente relacionados à prevenção ao câncer, ao mal de Alzheimer, ao diabetes e à pressão alta.

Apesar de a semente ser queridinha das dietas, por ser rica em ômega 3, antioxidantes, fibras e aminoácidos, não havia estudos científicos sobre seus efeitos em animais (apenas in vitro) e nenhuma pesquisa sobre os efeitos do óleo no organismo. A pesquisa, liderada pela doutora em nutrição Rafaela da Silva Marineli Campos e cujos resultados foram publicados até agora em três periódicos de relevância, entre eles o Food Research International, descobriu que esses ingredientes trazem mais benefícios do que a ciência conhecia até então. E todos ajudam na prevenção a doenças crônicas importantes.

Metodologia. O estudo acrescentou semente ou oléo de chia à dieta de 60 ratos magros e obesos. A ideia era simular se os ingredientes atuariam para prevenir e a remediar doenças.

Os pesquisadores analisaram uma série de parâmetros importantes: ganho de peso, resistência à insulina, HDL (colesterol bom), LDL (colesterol ruim), concentração de ômega 3, de enzimas antioxidantes e de substâncias pré ou anti-inflamatórias (que proliferam ou não células de gordura). Todos esses parâmetros, com a exceção do ganho de peso, foram modificados para melhor.

Os ratos que consumiam os ingredientes tiveram crescimento dos níveis de marcadores anti-inflamatórios, por exemplo, o que é importante para quem lida com excesso de peso. Na prática, a obesidade gera um estado crônico de inflamação do tecido de gordura do corpo. “Mas a chia e o óleo reverteram esse estado”, explica Rafaela, líder do estudo. Isso não acarreta perda de peso, mas combate o diabetes e doenças cardiovasculares, uma vez que a inflamação das células de gordura está correlacionada ao descontrole dos triglicérides.

Ter triglicérides, colesterol, gordura e açúcar controlados no sangue é essencial, sobretudo para portadores de pressão alta, diabetes, doenças cardiovasculares ou obesidade. E a chia conseguiu atuar nesse sentido. Um dos responsáveis é a ômega 3, uma gordura 'do bem' que também traz benefícios para a saúde do cérebro.

A semente e o óleo de chia não emagrecem, como alardeado em muitas dietas, mas provocam uma série de regulações benéficas no corpo. Esses efeitos estão diretamente relacionados à prevenção ao câncer, ao mal de Alzheimer, ao diabetes e à pressão alta

A semente e o óleo de chia não emagrecem, como alardeado em muitas dietas, mas provocam uma série de regulações benéficas no corpo. Esses efeitos estão diretamente relacionados à prevenção ao câncer, ao mal de Alzheimer, ao diabetes e à pressão alta Foto: Pixabay

Outro achado foi a elevação da presença de antioxidantes, substâncias encontradas em frutas vermelhas, uva, vinho e chocolate amargo. Elas são ótimas para a saúde, já que combatem os radicais livres, que degeneram as células do organismo. Mais do que deixar a pele com rugas, a oxidação das células causa doenças como Alzheimer, câncer ou diabete. “Os ratos obesos tinham um estresse oxidativo, mas os que receberam a chia também reverteram o processo”, explica Rafaela. Esse estresse oxidativo é desencadeado por alimentos ricos em gorduras e carboidratos, tabagismo, álcool, estresse, uso de determinados remédios e atividade física exaustiva (como ultramaratonas).

Para combatê-los, há duas frentes, explica Cainara Lins Draeger, professora de nutrição na Universidade de Brasília (UnB). “Ou são as defesas do próprio organismo, que produzem antioxidantes, ou uma alimentação rica em vitaminas, minerais e compostos fenólicos, que vão turbinar a produção de antioxidantes no corpo”, explica. A pesquisa da Unicamp provou que um desses alimentos é a chia.

Ressalva. Apesar de trazer boas descobertas, Rafaela Campos, líder do estudo da Unicamp, alerta que os resultados de pesquisa se restringem aos ratos e que não é possível dizer, agora, se a semente e o óleo de chia de fato previnem as doenças em humanos. “O metabolismo dos ratos e o dos humanos é diferente, então os resultados [da semente e do óleo no corpo] também. O que se sabe é que a chia reduziu o estresse oxidativo, e isso sim está relacionado à prevenção ao diabetes, ao Alzheimer e ao câncer”, afirma.

Para bater o martelo e dizer, de fato, que a chia combate tais doenças, é preciso de mais estudos, diz a nutricionista Cainara Lins Draeger, professora da UnB. “É um indício positivo de que pode funcionar em seres humanos, mas é preciso fazer um estudo em pacientes com câncer, diabetes ou Alzheimer e que consumam a chia para ver se ela de fato faz isso.

O único cuidado é não exagerar no consumo. “A chia, como todos os grãos, é rica em fitatos, substâncias que dificultam a absorção de alguns minerais”, diz Cainara. Portanto, ela recomenda deixar a chia, assim como o feijão, de molho por 6 horas em uma bacia com água. “Isso hidrata a semente e diminui a atuação dos fitatos.”