Dia Mundial da Trombose alerta para doença comum entre mulheres e idosos

Marcel Hartmann - O Estado de S. Paulo

Formação de coágulo nas veias das pernas e coxas causa dor e inchaço e está por detrás de casos de infarto e embolia pulmonar

 Cerca de 90% dos casos de trombose acometem braços e coxas, segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).

 Cerca de 90% dos casos de trombose acometem braços e coxas, segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Foto: REUTERS

Fator-chave para muitos casos de infarto e de embolia pulmonar, a trombose é uma doença evitável se um estilo de vida saudável for adotado. Para alertar sobre os cuidados necessários desta doença que afeta sobretudo mulheres que usam pílula anticoncepcional e idosos, hoje, 13 de outubro, é comemorado o Dia Mundial da Trombose. 

A data foi criada em 2014 pela Sociedade Internacional de Trombose e Hemostase (ISTH, na sigla em inglês), que divulga informações sobre a doença caracterizada por obstruir uma ou mais veias da perna ou da coxa devido à formação de um coágulo de sangue (aglomeração de células sanguíneas). 

Para entender a enfermidade, tente visualizar as veias como o encanamento do organismo, por onde o sangue viaja pelo corpo. Quando esses canos são danificados internamente, o corpo envia seus 'soldados' de reconstrução (leucócitos, glóbulos vermelhos e plaquetas) para levarem nutrientes e cicatrizar a região. No entanto, em algumas pessoas o organismo gera um excesso de células (isto é, de soldados) e o coágulo fica aquoso, como uma gelatina, ou mesmo em um estado sólido.

“Quando temos uma pequena lesão na parede interna da veia, as plaquetas se agregam no local e liberam fatores de coagulação que chamam ainda mais células para aderir na região. Isso agrega várias dessas células, o que forma a coagulação”, explica Viviane Macedo, médica angiologista e cirurgiã vascular do Hospital Universitário de Brasília (HUB).

A trombose pode afetar qualquer membro do corpo, mas cerca de 90% dos casos ocorrem nas veias das pernas e coxas, conforme a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV). Por conta disso, os sintomas mais comuns são nessas áreas. As reclamações mais comuns são dor ao caminhar, inchaço, coceira, dormência, varizes e mudança na coloração da pele, geralmente para azul ou roxo. 

Por si só, os desconfortos da trombose já são uma dor de cabeça. Mas o problema maior são os perigos decorrentes. A doença está por detrás de muitos casos de ataque cardíaco, infarto tromboembólico e tromboembolismo venoso, as três principais causas de morte por coração, conforme a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostase (ISTH, na sigla em inglês).

A consequência mais temida, no entanto, é a embolia pulmonar, quando o coágulo se descola da veia da perna ou da coxa e viaja pela corrente sanguínea até chegar ao pulmão, o que causa tosses, dor torácica e dificuldade em respirar. Na prática, as veias do pulmão passam a ficar congestionadas em função do obstáculo e não conseguem fazer as trocas gasosas necessárias no sangue (tirar gás carbônico e colocar oxigênio). 

Com o passar das horas, a embolia pode ser fatal, tanto porque o sangue não é oxigenado (o que causa morte súbita), quanto pela sobrecarga do coração, uma vez que a pressão arterial aumenta na tentativa de forçar o sangue a ultrapassar o coágulo para chegar ao pulmão. “Esse processo pode ocorrer em menos de uma semana após o surgimento da trombose. Por isso, internamos o paciente na UTI o mais rápido possível”, explica Aline Lamaita, cirurgiã vascular do Hospital Albert Einstein, de São Paulo. 

Faltam dados acerca da incidência da doença na população brasileira. Nos Estados Unidos, cerca de 900 mil pessoas têm trombose a cada ano - destas, 100 mil devem morrer por alguma complicação, segundo a Sociedade Internacional de Trombose e Hemostase.

Tratamento. O diagnóstico de trombose é clínico e com um exame que detecta a presença do coágulo de forma semelhante ao funcionamento do ultrassom. A partir daí, o tempo para curar a doença é longo, de três a 12 meses. O intervalo é necessário para desfazer o trombo da perna sem que ele se desligue da veia da perna ou coxa e chegue ao pulmão - isto é, sem que a embolia pulmonar seja provocada. 

“Cirurgias abertas praticamente não são mais realizadas”, explica Viviane Macedo, angiologista e cirurgiã vascular do Hospital Universitário de Brasília. No lugar, alguns tratamentos entram em cena: uso de anticoagulante, aplicação de cateter e uso de meias elástica de pressão. 

O anticoagulante é um remédio, usado como pílula ou injeção, que estimula a produção de substâncias que afinam o sangue e impedem o aumento do coágulo. É que, ao ficar mais líquido, o sangue se desloca mais fácil pelo organismo e fica menos acumulado na perna ou na coxa. No entanto, a ação desse medicamento é sistêmica, no corpo inteiro - isto é, qualquer região vai 'sangrar mais' se uma ferida for aberta, então há contraindicação para pacientes que vão realizar cirurgia ou quem já tem predisposição a sangramento, por exemplo.  

A saída é o cateter, que é colocado dentro da veia para liberar aos poucos uma substância também anticoagulante. Por ser aplicado diretamente na região afetada, a ação é local. Por fim, a meia-calça elástica também é uma saída. Ela não é como as usadas no dia a dia: para tratar a trombose, o acessório tem uma pressão maior no tornozelo que diminui à medida em que sobe na perna. Como resultado, o sangue corre mais rápido pelas veias. 

Grupos de risco. Quem mais sofre com a doença são mulheres que tomam anticoncepcional ou em tratamento hormonal, grávidas, puérperas, fumantes, pessoas com varizes, pacientes com insuficiência cardíaca, tumores malignos, obesidade ou histórico de trombose, segundo a Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).

É que a enfermidade é causada por fatores conhecidos como a 'tríade de Virchow': lesão na parede interna da veia, redução da velocidade do fluxo sanguíneo e tendência a ter o sangue coagulado (ou espesso). 

Uma série de condições pode influenciar um desses três quesitos: ter varizes (parte das veias fica danificada, o que deixa o sangue mais lento), ter mais de 40 anos (o tônus muscular é menor, o que influencia o funcionamento das veias), ficar imóvel por muito tempo, ter tendência a coagular o sangue, realizar cirurgias ou ter sofrido um acidente que machucou a parede interna das veias, tabagismo, alguns tipos de câncer e quimioterapia (aumentam a coagulação), obesidade (excesso de peso exerce mais pressão nas veias, o que dificulta a passagem do sangue), ter insuficiência cardíaca (coração fraco bombeia menos o sangue, o que diminui sua velocidade), entre outras. Mas o pior de todos os fatores e ter histórico de trombose ou de embolia pulmonar.

“Por mais que o vaso seja desentupido, dificilmente ele volta a ser como era. Por isso, todo paciente que já teve trombose tem maior chance de ter novo quadro. Alguns usam anticoagulante para o resto da vida”, diz a médica cirurgiã vascular Aline Lamaita, cirurgiã vascular do Hospital Albert Einstein. 

Prevenção. Evitar a trombose é adotar cuidados para que a perna não fique muito tempo parada e para que o sangue não se torne espesso. Entre elas, movimentar as pernas durante viagens prolongadas de avião, carro ou ônibus, não fumar, beber bastante água para não deixar o sangue 'grosso' e fazer exercícios físicos para fortalecer a batata da perna (considerada o coração da parte inferior do corpo, porque impulsiona o sangue na região).