Desmistificando o colesterol

ANA GABRIELA VEROTTI - O Estado de S.Paulo

De extrema importância para o organismo, a substância deve ser bem controlada para não causar doenças

Em 8 de agosto comemora-se o Dia Nacional do Combate ao Colesterol - nome que pode sugerir que a substância é uma vilã para o corpo quando, na realidade, ela é essencial ao organismo. “O colesterol faz parte da constituição da parede das células. De certa forma, ele atua protegendo-as, selecionando o que elas absorvem ou não”, explica Evandro de Sousa Portes, presidente da Regional São Paulo da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia.

Ele comenta que o colesterol ainda é matéria-prima para a produção de todos os hormônios esteroides, o que incluem os hormônios sexuais. “Sem a molécula do colesterol, nós seríamos incapazes de produzir glicocorticóide e outros hormônios das glândulas suprarrenais”, adiciona. Os glicocorticóides têm diversas funções que vão desde a estabilização de membrana celular até ações relacionadas ao componente imunológico.

A molécula do colesterol também dá origem à vitamina D. Portes ainda menciona que “diversas enzimas agem sobre o colesterol e, dependendo do tecido que possui essas enzimas, nós produzimos o elemento que aquele tecido nasceu para produzir através do colesterol”.

O colesterol pode ser classificado como bom ou ruim dependendo de sua densidade, que mede os diferentes níveis de lipídios. O colesterol HDL (da sigla em inglês high-density lipoprotein, ou lipoproteína de alta densidade) é o tipo que se deposita menos na parede das artérias. “Ele age como ‘faxineiro’ do nosso organismo, tirando um pouco do colesterol depositado”, explica Portes. Este outro colesterol é o chamado LDL (low-density lipoprotein, ou lipoproteína de baixa densidade). Ele se deposita na parede da artéria e provoca placas de gordura, “que formam ulcerações e coágulos, entopem a artéria, provocam a falta de irrigação dos tecidos e levam à necrose”, ressalta o endocrinologista.

Quando a necrose ocorre no coração, causa o infarto agudo do miocárdio; no cérebro, resulta no acidente vascular cerebral (AVC); nos membros, promove a gangrena, que leva à amputação.

Apesar de a alimentação ser uma fonte de obtenção de colesterol, ele é tão importante que o próprio corpo o produz. “Mesmo que a pessoa só consuma legumes e verduras, ela não fica protegida de ter uma elevação do colesterol, porque todos os animais têm capacidade de sintetizá-lo”, declara Portes.

O médico destaca, porém que alguns pacientes têm níveis de colesterol mais elevados do que outros, o que pode ser resolvido ingerindo menos alimentos ricos em colesterol. “Muitas pessoas nascem com problemas que as induzem a produzir mais colesterol do que o corpo precisa e os mecanismos de hiperprodução do colesterol são ligados”, ele explica. E adiciona que apesar de a quantidade de colesterol aumentar conforme a pessoa for ganhando peso, também há casos de indivíduos magros, que realizam atividade física e têm uma alimentação balanceada e que produzem mais colesterol do que é necessário. Nesse caso, indica Portes, a causa é genética.

O médico aconselha os pacientes a ficarem atentos com a história familiar: “sabendo do histórico, é possível pressupor se o indivíduo tem uma doença que o predispõe a produzir mais colesterol”. Uma vez que um paciente é identificado com colesterol elevado, ele deve começar a tomar medicação e fazer exames de sangue periodicamente - a cada 3 meses, no início, e a cada 6 meses, uma vez que o colesterol estiver bem controlado.

Pacientes que não apresentam nenhum fator de risco devem fazer exame de sangue ao menos uma vez por ano. “As enzimas sofrem alterações e muita coisa pode mudar em um ano. É muito mais fácil prevenir estas doenças desencadeadas pelo colesterol elevado do que tratá-las, muitas vezes com sequelas”, justifica.

Portes também diz que os pacientes devem ter uma alimentação com quantidade de caloria suficiente para manter o peso dentro de uma meta, ingerindo vegetais, legumes, verduras, e também carne vermelha, frango, ovos etc. “Não há nenhuma restrição, mas a pessoa deve buscar comer um mínimo de gordura possível. Por exemplo, entre uma sobrecoxa e um filé de frango, optar pelo filé. Ou pelo frango sem pele”, sugere.

O médico ainda ressalta a importância de praticar alguma atividade física regular. “Não precisa ser nenhum atleta, só tem que manter o corpo em movimento”, finaliza.