Deficientes visuais encontram melhora na condição de vida através do esporte

André Carlos Zorzi - O Estado de S.Paulo

Assim como acontece em quase todos os aspectos que cercam a vida de um deficiente visual, muitas pessoas ainda se surpreendem quando ouvem falar em cegos praticando esportes

Foto: Rio 2016 / Gabriel Nascimento

As Paralimpíadas costumam servir como um momento em que a população acompanha com certo afinco modalidades esportivas destinadas a deficientes, mas geralmente o interesse cessa logo após o término das competições. "É preciso mostrar às pessoas, veículos e governantes que é importante dar visibilidade desde o início da base, não só em véspera de paralimpíada, campeonato mundial ou Parapan", ressalta Francisco das Chagas, professor de golbol e futebol de cinco do CESEC-SP, instituição que proporciona acesso ao esporte para deficientes visuais.

O esporte pode proporcionar uma interessante socialização e melhora nas condições de saúde e de vida de pessoas com deficiência. "Primeiramente, a gente forma um cidadão. Se vai ser atleta de alto rendimento, é mero detalhe", continua Francisco.

Ele também fala sobre a realidade que atinge a maior parte dos praticantes no País: "Muitos trabalham durante o dia e treinam à noite. Nenhum atleta de seleção brasileira consegue viver do paradesporto atualmente. Os professores, em sua grande maioria, trabalham por amor, já que não são remunerados".

Uma unanimidade entre praticantes, técnicos e professores é a falta de divulgação do paradesporto em geral. "Se você for olhar, o esporte paralímpico chega a ser até melhor que os ditos 'normais', porque você corre contra a sua limitação. Faz mais do que aquilo que você pode. As pessoas que enxergam têm toda a adaptação, força física e estrutura. A gente não.", comenta Adílson Brás, praticante de atletismo, futebol e golbol.

Wesley Cassiano, goleiro de futebol de cinco e único jogador que não possui nenhum problema na visão em campo, também endossa a opinião dos colegas: "No começo eu achei meio estranho 'tomar gol de cego', mas depois vi que o esporte é mais difícil que o futebol convencional. É muito aprendizado, você entra no mundo deles e vê as dificuldades que passam. Mas não são coitadinhos, são iguais a nós e fazem tudo que fazemos."

Para Chagas, a melhor solução para o problema é investir na divulgação em escolas. Desta forma, o jovem tende a crescer sabendo que o paradesporto é tão importante quanto os esportes convencionais.

Foto: Francisco Chagas / Cesec

Outra ideia interessante é proporcionar a estudantes sem deficiência visual a oportunidade de passar por uma experiência semelhante, por meio da utilização de vendas e sob a supervisão de profissionais habilitados. Desta forma, há uma melhor compreensão e integração com o esporte paralímpico.

Apesar de, na maioria dos casos, os esportes possuírem regras bastante específicas, em outros, como no judô, elas são pouco alteradas. O sistema de disputa e os golpes são os mesmos, a grande diferença se dá ao início da luta: os competidores cegos precisam iniciá-la já com as mãos agarrando o adversário.

Pode-se inclusive enfrentar atletas normovisuais fora de competições oficiais, como conta Wagner Araújo, praticante da arte marcial: "Onde eu treino é misturado, justamente para não ter diferencial e um aprender com o outro, sem fazer distinção. Na época que a seleção treinou aqui com a gente, eles treinaram com atletas convencionais".

Atualmente, existem 62 equipes de futebol de cinco no País, e cerca de cem de golbol, incluindo as categorias masculina e feminina. Pode parecer pouco, mas em países como Alemanha, Argentina e China, por exemplo, o número não costuma passar de dez.

Eduardo Oliveira, conhecido como Dudu, é jogador do APADEV-PB e da seleção brasileira de futebol de cinco e já teve a oportunidade de visitar diversas cidades ao redor do mundo. Fez parte, inclusive, da equipe que trouxe o tetracampeonato mundial ao Brasil, em Tóquio-2014. 

"O Japão é muito acessível para deficientes visuais. Piso tátil para todos os lados, proteção nas calçadas para caso o deficiente vá para a beira da rua, sinais sonoros, não tem buraco na calçada.", compara o atleta, que também destaca São Paulo e Curitiba como cidades brasileiras das quais gostou em termos de acessibilidade.

Na capital paulista, por exemplo, é possível encontrar pisos táteis em muitas estações de metrô, e até mesmo em algumas avenidas importantes, como a Paulista, mas ainda é difícil encontrar um paulistano que conheça ruas ou avenidas que possuam semáforos sonoros, por exemplo.

Em meio a uma sociedade que ainda é bastante preconceituosa e possui pouco conhecimento a respeito da deficiência visual, muitas pessoas que perdem a visão passam por problemas, e por vezes chegam até a negar a própria capacidade de praticar esportes. "Muitos atletas vêm após perderem a visão e acham que não tem condições. O 'não' todo mundo vai te dizer, mas o 'sim' é só com você. 'Não quero ajuda, não consigo', isso não existe. Você consegue qualquer coisa, independente da deficiência", incentiva o professor.

Foto: Francisco Chagas / Cesec

Confira abaixo um pouco mais sobre o futebol e o golbol para deficientes visuais.

Futebol de cinco

O futebol de cinco é chamado assim por conta do número de jogadores que participam da partida. Disputado em quadra de tamanho semelhante ao futsal, cada time conta com a ajuda de três pessoas que enxergam. O único que participa diretamente do jogo é o goleiro, responsável por orientar verbalmente no setor de defesa, além de defender o gol. 

Os outros normovisuais são o técnico, orientador no meio-de-campo, e o chamador, que fica atrás dos gols auxiliando nos ataques. Portanto, o silêncio absoluto por parte do público é importante para que as instruções sejam ouvidas, assim como o guizo inserido dentro da bola com o intuito de que os atletas consigam saber onde ela está.

Mesmo sendo um esporte destinado a cegos da categoria B1 (falta de visibilidade total), em competições oficiais é obrigatório o uso de vendas nos olhos como meio de garantir isonomia.

 

 

 

Golbol

O golbol é um esporte criado especialmente para cegos. Realizado em quadra de tamanho semelhante à de vôlei, possui demarcações em alto relevo no chão, feitas com barbante e fita adesiva, para que os atletas consigam se situar taticamente. A bola pesa cerca de um quilo e meio e possui três guizos em seu interior. Bolas altas são proibidas: apenas arremessos rasteiros ou quicados.

 

 

CESEC-SP

O Cesec é uma das instituições paulistanas onde deficientes visuais de todas as idades podem encontrar estrutura e instrução para praticar diversas modalidades.

Após deixar de receber verba por meio da lei de incentivo ao esporte, a instituição, que não cobra mensalidade obrigatória, se mantém por contribuições de atletas e também por doações.

Quem se interessar em praticar um esporte precisa de liberação médica e oftalmológica, com classificação visual. 

Para mais informações:

E-mail: cesec@cesec.org.br

Telefone: (11) 2914-1911

Doações

Agencia: 0644

Conta corrente: 12280-6

Fav.: Centro de Emancipação Social e Esportiva de Cegos

CNPJ 56.091.127/0001-18

 

Foto: Francisco Chagas / Cesec