Crianças esperam mais de dois meses por atendimento em saúde mental na Inglaterra

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce para evitar problemas na vida adulta

Crianças esperam por atendimento em saúde mental por mais de dois meses na Inglaterra.

Crianças esperam por atendimento em saúde mental por mais de dois meses na Inglaterra. Foto: Pixabay

Relatório do Instituto de Políticas de Educação da Inglaterra revela que crianças e jovens estão enfrentando uma espera média de dois meses para receber tratamento em saúde mental. O caso de atendimento mais demorado foi de 188 dias.

Uma espécie de ‘triagem’ é realizada em pouco mais de um mês. Especialistas sugerem que longas filas, além de problemas de saúde mental preexistentes, podem causar danos significativos e dificultar a recuperação dos pacientes.

O terapeuta Pat Capel explica porque é importante agir rapidamente quando se trata de criança: “Todos nós sabemos que, quanto mais cedo tratamos a saúde mental, melhor é o prognóstico a longo prazo”, avalia em entrevista ao jornal britânico Metro

E a vida adulta de quem tem o atendimento infantil negligenciado pode ser muito difícil. Se relacionar com outras pessoas e em algumas situações, como no ambiente de trabalho, será um caminho tortuoso. Além da falta de um atendimento rápido, os casos de rejeição também crescem na Inglaterra. O estudo mostra que 56 mil crianças foram rejeitadas dos serviços de saúde mental só em 2017.

Um desses casos é o de Kieran, de 13 anos. Ele foi diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista por causa de problemas comportamentais. Sem atendimento adequado, está aos cuidados da mãe. Kristine conta que o filho ficou por nove meses esperando atendimento e não conseguiu: “Ele fica frustrado e sofre com ansiedade em situações que não consegue controlar. Ele se sente mal e acaba sendo agressivo. Então, pedi uma referência ao Serviço de Saúde Mental para Crianças e Adolescentes, mas ele foi recusado”, desabafou.

Quanto mais o tempo passa, mais difícil ficará para Kieran se adaptar às situações do cotidiano. “Se chegarmos aos 18 anos e ele não tiver estratégias para lidar com suas emoções, quem vai ajudá-lo? Tivemos um incidente em maio, na escola, onde ele atacou e acabou caindo pelas escadas porque estava tentando fugir da situação. Está ficando maior e mais forte. Quando tem essas explosões, ele pode causar mais danos”, avisou a mãe do adolescente.

O psiquiatra infantil Richard Graham aconselha aos pais a ouvir sempre seus filhos. “Tentar entender o que está acontecendo com eles é a essência da terapia familiar. Sentir-se valorizado e não julgado pode ter efeito curativo”, analisou o médico.