Aos vinte anos, na menopausa

Ibby Caputo - The New York Times

É estranho ser jovem e ao mesmo tempo uma pessoa idosa; tive uma visão antecipada de como é viver com 80 anos

Foto: Eleanor Davis/The New York Times

O câncer me envelheceu. Fui diagnosticada com leucemia mieloide aguda quando tinha 20 anos e depois de cinco meses hospitalizada e um ano em isolamento por exigência médica, sentia-me uma velha senhora, frágil e cansada.

Lentamente melhorei. Hoje, perto dos 30 anos, estou bem de saúde. Como muitos sobreviventes de câncer, fiquei totalmente incapacitada. Já sei o fim da história.

É estranho ser jovem e ao mesmo tempo uma pessoa idosa. Às vezes as pessoas observam que meus olhos estão brilhando. Que beleza! Mas é apenas a luz refletida pelas lentes implantadas em uma cirurgia de catarata, necessária por causa do longo tratamento com esteroides.

Tive uma visão antecipada de como é viver com 80 anos. Mas também me senti como se tivesse dois anos. Foi depois de um transplante de medula e um mês horrível de meningite viral. Estava extremamente fraca e tinha dificuldades para andar. Uma amiga que cuidava de mim levou-me até o banheiro para eu tomar banho. Entrei na banheira e ele me deixou ali, mas a água estava fria. Não tinha energia para sair, então me ajoelhei e gritei até ela retornar. 

Algumas semanas depois, um pouco mais fortalecida, fui me ver no espelho. Meu corpo parecia de uma pré-adolescente. Sem seios e careca. Não como uma mulher, mas uma menina de 11 anos. Neste dia prometi que jamais faria um regime. Antes de adoecer, achava que minhas pernas eram muito grossas, nariz muito chato. Que idiota!

Mas hoje sei - e realmente sei - que um dia minha vida vai acabar. Isto me ajuda a colocar muitas coisas em perspectiva.

Há oito anos estou saudável. Hoje estou casada, uma carreira está bem encaminhada. A vida parece ter voltado à normalidade. Mas recentemente, algo me desequilibrou. O endocrinologista sugeriu que eu parasse com contraceptivos.

Não tomo anticoncepcional para evitar a gravidez; no meu caso o remédio substitui os hormônios que meu corpo não fabrica mais. Entrei na menopausa aos 26 anos. Os médicos me aplicaram uma injeção para suspender a menstruação enquanto eu me submetia a quimioterapia, mas não deu certo. Minha menstruação já começara e meu sangue não coagulava por causa da leucemia e a quimioterapia também estimulava o sangramento. Sangrei durante um mês. E era tanto sangue que tinha de usar fraldas para adultos. E necessitei de muitas transfusões.

A quimioterapia não adiantou e tive de me submeter a um transplante de medula. Lembro-me sentada, pernas cruzadas, no leito do hospital, chorando por não entender o que ocorreria. Eu seria submetida a um "condicionamento" para o transplante, que inclui uma radiação do corpo inteiro. Disseram-me que seria protegida com uma espécie de armadura de chumbo para não afetar meus pulmões, mas nada seria feito para proteger meus ovários.

Após o transplante a menopausa se instalou em seguida. Acordava molhada de suor, meu pijama ensopado, lençóis molhados.

As pessoas não falam sobre menopausa. Pelo menos minhas amigas não o fazem. Talvez mulheres mais velhas conversem entre si sobre suas experiências. Mas ninguém se manifestou comigo a respeito.

Depois de um ano sem menstruar, os médicos iniciaram um tratamento contraceptivo, com hormônios. Lembro-me de estar dirigindo meu carro em Nova York, ao lado de minha mãe. Tinha 27 anos. Era época da Fleet Week e a cidade estava repleta de marinheiros - bonitos, fortes, nos seus uniformes azul e branco - passeando pela cidade. Minha mãe teve de me segurar para eu não ultrapassar o farol vermelho, tão excitada fiquei. Depois disto pedi ao meu médico para diminuir a dose de hormônios.

Com o uso de anticoncepcional ocorrem falsos períodos, que no início achei que era algo cruel, mas depois se tornaram normais. Encontrei um homem que não se preocupou muito com o problema meus ovários. Nós nos casamos e a vida prosseguiu seu curso.

Mas, recentemente soube que algumas mulheres conseguiram que seu ovário voltasse a funcionar depois de um transplante de medula. Minha endocrinologista disse que se parasse com o anticoncepcional, por meio de um teste sanguíneo simples saberíamos se sou fértil. Ela não achava muito provável, mas que deveria me proteger de alguma maneira que não estivesse pronta para ter um filho.

Pronta para ter um filho? Seu conselho de início deixou-me furiosa. A porta da fertilidade já havia fechado há muito tempo, deixando meu coração partido. Mas os médicos me incentivaram com seu entusiasmo.

Pensei no gato de Schrödinger - morto e vivo até você abrir a caixa. Meu médico que realizou o transplante e me conhece melhor, aconselhou-me a não abrir a caixa. Por que se dar esperança? Continue com o anticoncepcional e pense em uma adoção, aconselhou. 

Mas como não abrir a caixa? Saber se ainda sou viável? Capaz de criar vida? 

Decidi parar com o anticoncepcional. O que me levou a uma conversa de novo com meu marido. Queremos um filho? Até onde devemos ir para ter um filho? Já sofri tantos procedimentos invasivos. Estamos em posição de pensar em uma adoção? E queremos realmente adotar? Tantas crianças precisam de um lar afetuoso. Pensei em todas as mulheres nos seus 30 anos preocupadas com sua fertilidade. A conversa parece tão...normal.

Sei que o médico que se encarregou do meu transplante chamaria isto de falsas esperanças. É provável que esteja certo. Mas quando sua vida virou de cabeça para baixo, é doce ter um gosto daqueles momentos que você deixou de viver./Tradução de Terezinha Martino