Antes de embarcar, consulte um médico de viagem

Marcel Hartmann - O Estado de S. Paulo

Área interdisciplinar trabalha na prevenção de doenças típicas de quem viaja

Foto: DANIEL TEIXEIRA/AE

Subir a cordilheira do Himalaia, embarcar para uma viagem espiritual à Índia, fazer uma expedição na Amazônia ou começar um mochilão na Europa exigem bastante planejamento. Para além das reflexões sobre custos e hospedagem, a saúde é outro dos itens essenciais a serem levados em conta. E quem pode ajudar nisso é o médico do viajante, o profissional de uma área recente no Brasil que é especializado em preparar uma pessoa para a peregrinação.  

Quem atua na área vai fornecer informações para que o indivíduo não adoeça no local de destino, seja em viagens de ecoturismo, a trabalho ou a passeio. As recomendações abrangem ações a serem adotadas antes da partida (como vacinação), durante (evitar ingerir determinado alimento em um país) ou mesmo após o período (praticar uma atividade para tratar trombose).

“A ideia é fornecer uma orientação atualizada e precisa sobre as doenças que circulam em determinados locais, além das formas de prevenção”, diz Jessé Reis Alves, médico infectologista coordenador do Ambulatório de Medicina do Viajante do Instituto Emílio Ribas, de São Paulo, que oferece consultas grátis.

Na prática, ao chegar em uma consulta, o viajante primeiramente expõe com detalhes seu roteiro. O médico, então, fornece conselhos sobre precauções alimentares, vacinação, cuidados contra mosquitos ou outros animais perigosos presentes no destino, prevenção a problemas ligados a saneamento básico, alimentação, mergulho, altitude, exposição solar, calor, frio e efeitos da diferença de fusos horários.

Atualizar a carteira de vacinação e verificar as vacinas necessárias para o destino é prática essencial. “Muitas doenças endêmicas são evitadas assim, como febre amarela ou hepatite A. Nós checamos se a pessoa já a tomou ou se precisa de uma dose de reforço”, explica Ricardo Pereira Igreja, médico do Centro de Informação em Saúde Para Viajantes (CIVES) da UFRJ, serviço de atendimento grátis onde o agendamento é pela internet.

As mais recomendadas para quem viaja são as imunizações contra febre amarela, hepatite A e febre tifoide - esta última bastante comum no sudeste asiático e na Índia. Para doenças que não contam com vacina, como é o caso da malária, é aplicada a quimioprofilaxia, um medicamento utilizado para fortalecer o sistema imunológico.

Já quem viaja para montanhas, a prevenção é contra o mal da altitude. A forte dor de cabeça ocasionada pela menor presença de oxigênio em locais muito altos pode levar a tonturas, desmaio, vômitos ou, em casos mais graves, edema (acúmulo de líquido) no pulmão e no cérebro. Para alpinistas, os médicos de viagem receitam medicamentos que evitam ou, ao menos, reduzem os males da baixa pressão atmosférica.  

O que levar na consulta. Médicos recomendam marcar consulta com ao menos um mês antes do embarque, para dar tempo de atualizar o calendário vacinal. A vacina contra a raiva, por exemplo, exige três doses, cada uma aplicada semanalmente.

Além disso, é bom levar o roteiro detalhado. “Precisamos saber o que o indivíduo vai fazer, onde vai, o tipo de viagem, como é o roteiro dentro do país, se ele vai se deslocar de trem, de ônibus ou de avião”, explica Ricardo Pereira Igreja, infectologista do CIVES e também professor da Faculdade de Medicina da UFRJ. “Uma coisa é ir para a África e ficar em um hotel cinco estrelas; outra é acampar”, diz.

Área de atuação. A medicina de viagem não é uma especialidade, e sim uma área de atuação interdisciplinar que transita entre infectologia, medicina de família e medicina tropical. Geralmente, infectologistas acabam seguindo o caminho. Na medicina ocidental, os primeiros relatos de profissionais interessados datam da época das grandes navegações, quando infecções por catapora ou febre amarela dizimaram populações.

De forma mais recente, o interesse pela área começou após a Segunda Guerra Mundial, quando os deslocamentos começaram novamente a se intensificar, explica Jessé Reis Alves, do Emílio Ribas. “Até então, só quem era muito rico ou quem era muito pobre e imigrava era capaz de viajar”.

Com o nome de ‘medicina de viagem’, a prática teve início nos Estados Unidos, Canadá, Suíça, Alemanha e Reino Unido entre as décadas de 1980 e 1990. A primeira Conferência Internacional de Medicina de Viagem, por exemplo, foi em 1988 e contou com 500 participantes. Em 1993, surgiu a Sociedade Francesa de Medicina de Viagem, referência no mundo.

“É quando houve a globalização, as distâncias se tornaram curtas e o número de viajantes aumentou muito”,  explica Flávia Bravo, coordenadora do Centro Brasileiro de Medicina do Viajante, clínica privada do Rio de Janeiro. A partir de então, destinos considerados ‘exóticos’, como África, Himalaia ou sudeste asiático começaram a se popularizar.

Hoje, a Sociedade Internacional de Medicina de Viagem (ISTM, na sigla em inglês), criada em 1990, é a maior da área e conta com mais de 3.500 profissionais da saúde de quase 100 países.

Onde ir. No Brasil, há clínicas privadas ou ambulatórios ligados a universidades. Os maiores centros de referência são do Hospital de Clínicas da USP, do Instituto Emílio Ribas (SP), o CIVES (RJ) e a FioCruz (RJ). A Anvisa também disponibiliza uma lista de locais em todo o Brasil, discriminando os locais públicos dos particulares - você pode acessá-la aqui.