Ansiedade pode ser agravada diante do frio e da necessidade de comer mais; entenda

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Como lidar com o ‘comer emocional’ quando as temperaturas estão mais baixas? 

Quando a temperatura cai, nossa tendência é sentir mais fome e buscamos alimentos mais quentes e calóricos. 

Quando a temperatura cai, nossa tendência é sentir mais fome e buscamos alimentos mais quentes e calóricos.  Foto: Pixabay/congerdesign

Você já reparou que sentimos mais fome no frio? Não, isso não é coisa da sua cabeça. Existe uma explicação: os seres humanos se sentem ameaçados pelas baixas temperaturas e essa percepção faz com que haja uma busca por calor, que pode ser suprida também através dos alimentos. 

“Com certeza as pessoas sentem mais fome no frio por uma questão de sobrevivência. Ele baixa a nossa capacidade de esquentar o corpo, portanto, precisamos de mais calorias. Na parte psicológica, tem a ver com essa informação que o corpo recebe que vem em dissonância com o que sabemos. Por exemplo, sabemos que não estamos no inverno e, teoricamente, não deveríamos estar sentindo frio, mas estamos. Então, gera um conflito. É uma quebra da lógica orgânica”, explica a neuropsicóloga Gisele Calia.

A endocrinologista Lívia Marcela acrescenta que, nessa época, é comum optarmos por alimentos mais quentes e, com isso, mais calóricos, mais gordurosos. “Isso porque eles demoram mais para serem digeridos, produzindo, assim, maiores quantidades de calor. Um estudo da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, rastreou o quanto as pessoas comiam em cada estação do ano e com que rapidez. Os entrevistados consumiram cerca de 200 calorias a mais por dia a partir do outono, principalmente quando os dias ficaram mais escuros”, afirma. 

Outro dado importante é que, nesse período do ano, ocorre uma diminuição na produção de serotonina, um neurotransmissor que promove a sensação de bem-estar. Para suprir esta sensação de tristeza e desânimo, a maioria das pessoas acaba compensando com os alimentos.

A neuropsicóloga Gisele Calia ressalta que a comida gordurosa fornece mais caloria com menos quantidade: “E aí é uma escolha lógica e saborosa, porque o nosso paladar também foi moldado há anos para que gostássemos de coisas gordurosas, de energia rápida como o açúcar. E isso de fato aquece o corpo”.

Hambúrguer, batata frita e alimentos gordurosos demoram mais para serem digeridos, produzindo, assim, maiores quantidades de calor. 

Hambúrguer, batata frita e alimentos gordurosos demoram mais para serem digeridos, produzindo, assim, maiores quantidades de calor.  Foto: Pixabay/PortalJardin

Outro fato importante é que, no frio, nós gastamos mais energia para exercer as mesmas funções. “Isso porque nosso corpo tem que manter a temperatura estável e isso requer um gasto calórico maior. Esse gasto calórico gira em média em 200 calorias por dia. Porém, às vezes, nós exageramos na reposição de calorias nessa época do ano, o que pode render alguns quilinhos extras no final da estação”, destaca a doutora em Endocrinologia pela Unifesp Lívia Marcela. 

A especialista também lembra que essa sensação de frio pode variar entre os gêneros. “Algumas pesquisas revelam que as mulheres sentem mais frio do que os homens. Uma das explicações fisiológicas para essa diferença na sensação térmica é a quantidade e distribuição de pelos pelo corpo, também pela constituição física e pelos hormônios. Os pelos estão ligados a nervos que os contraem no frio e ajudam a elevar a temperatura corporal. Como as mulheres estão sempre depiladas e constitucionalmente têm menos pelos que os homens, tendem a ter menos contrações acontecendo abaixo da pele e tremem com qualquer brisa”, diz.

Doces e outras guloseimas são irresistíveis para algumas pessoas e essa vontade pode ficar acentuada no inverno. 

Doces e outras guloseimas são irresistíveis para algumas pessoas e essa vontade pode ficar acentuada no inverno.  Foto: Pixabay/silviarita

Ansiedade pode ser agravada diante do frio e a necessidade de comer mais

Você já ouviu falar sobre o ‘comer emocional’? Este é um termo usado para pessoas que, mesmo sem estar com fome, têm uma vontade irresistível de ingerir comida e, normalmente, de forma voraz. Essa situação fica mais evidente na compulsão alimentar. Porém, outras questões de saúde mental, como ansiedade e até mesmo quadros de depressão, podem ter os sintomas exacerbados.

“Qualquer reação física de falta, por exemplo, falta de cobertor, de alimento, ou outras necessidades como matar a sede e até vontade de ir ao banheiro, isso tudo gera ansiedade. O corpo interpreta que está faltando isso e, se não suprir essas necessidades, vai ter alguma consequência. E a ansiedade está muito relacionada à perigo, seja real, físico ou psicológico. Então, comer mais por ansiedade acontece quando está mais frio também”, avalia Gisele Calia. 

Portanto, segundo a neuropsicóloga, a ansiedade é ‘disparada’ por questões fisiológicas como a queda de temperatura climática e a fome: “Quando a pessoa tem algum tipo de desequilíbrio emocional, quer seja por depressão, ansiedade e transtorno alimentar, sentir mais fome agrava os sintomas. Isso desequilibra o já frágil controle de ingestão de alimentos”. 

O nosso organismo tenta se adaptar às mudanças do ambiente mas, para pacientes com qualquer tipo de transtorno mental, de leve a grave, a situação é mais desafiadora. “Uma revisão publicada em 2013 na revista Frontiers in Neuroscience, que analisou dados tanto em pessoas quanto em animais, descobriu que mudanças sazonais afetam muitos hormônios relacionados à fome e apetite, incluindo glicocorticóides, grelina e leptina”, aponta Lívia Marcela. 

Além das alterações nos hormônios, os dias de inverno são, em geral, mais escuros, e somos menos expostos à luz solar. Esse fato também aumenta a ansiedade e pode despertar sentimentos de tristeza

“Esses são sentimentos que estão diretamente relacionados com a procura de alimentos mais palatáveis e geralmente também existe um aumento da quantidade de alimentos. Além disso, nesta época ocorre uma diminuição na produção de serotonina, um neurotransmissor que promove a sensação de bem-estar. Para suprir esta sensação de tristeza e desânimo, a maioria acaba compensando com os alimentos”, analisa a endocrinologista, que cita um estudo realizado em Campinas e que acompanhou 227 mil indivíduos, entre 2008 e 2010. 

Os pesquisadores verificaram que os níveis de colesterol “ruim” (LDL) aumentaram significativamente no inverno e diminuíram no verão. 

Dicas para evitar comer exageradamente no inverno

Se você percebe que sente mais fome quando fica ansioso, triste, com raiva ou com qualquer outro sentimento, é preciso redobrar a atenção no inverno. “Uma dica importante para driblar o ‘comer emocional’, quando realmente não é uma necessidade orgânica, é fazer uma leitura antes de colocar o alimento na boca. Uma vez que o alimento está na boca, deflagra todo o processo de dificuldade de interromper ou compulsão”, enfatiza Gisele Calia.

A neuropsicóloga propõe uma espécie de ‘conversa’ com o alimento e simula um diálogo: “Então, você olha para a comida e reflete: ‘Sim, estou com vontade de comer esse doce porque sei que é gostoso, mas como está meu estado emocional agora?’. ‘Que hora almocei e jantei? Bom, não importa, sigo com vontade de comer o doce’. Na sequência, você pode raciocinar assim: ‘O que que estou sentindo, intendente da vontade de comer doce?’. É como se a vontade de comer doce se sobrepusesse a todas as outras sensações e desejos. ‘Se não existisse o doce aqui, o que estaria sentindo além desta vontade?’. É difícil traduzir isso de um jeito prático, mas é tentar tirar o doce da frente ou o alimento que está te ‘tentando’ e ver o que realmente está te fazendo falta”. 

A vontade de comer doce, a batatinha frita ou a macarronada podem estar escondendo outros sentimentos como aceitar um conflito, um sentimento negativo ou a ansiedade por ter de tomar alguma decisão, por exemplo. A dica é tentar, racionalmente, refletir sobre o comer, do contrário, você pode ceder à tentação e deixar o instinto ‘impulso’ imperar.  

Aqui no Brasil, a época mais fria do ano coincide com as tradicionais festas juninas, com diversas guloseimas como canjica, paçoca, pé-de-moleque, bolo de milho e quentão. E isso aumenta a dificuldade de controle do peso.

A endocrinologista Lívia Marcela fez uma lista de dicas para a reportagem do Estadão para você evitar comer exageradamente no frio:

- Comidas mais quentes e cremosas: “Temos a sensação do aumento de fome e também ficamos imaginando delícias como um brigadeiro de panela naquelas noites frias e chuvosas. Isso acontece porque o nosso organismo precisa de mais energia para manter a temperatura corporal. Então, a orientação para esses momentos de gula é procurar comer mais vezes durante o dia, evitando o consumo de alimentos mais gordurosos à noite”, afirma. 

- Carnes, risotos e queijos são bem-vindos: “Mas uma ótima ideia é incluir no cardápio temperos termogênicos, que aquecem o corpo e aumentam o gasto calórico. Tente não confundir tédio com fome, por exemplo, ‘estou sem nada para fazer então vou comer’. Isso realmente acontece normalmente no inverno”, diz

- Sopas e cremes: é preciso ter cuidado, pois alguns são preparados com ingredientes altamente calóricos. Avalie sempre antes de tomar.

 - E se não conseguir beber água no frio: uma opção para manter a hidratação em dia é investir em uma variedade de bebidas quentes, como os chás.

“A diminuição da prática de atividade física também ocorre, já que no frio as pessoas tendem a se exercitar menos. Esses comportamentos acabam se enquadrando como fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares e diabetes”, conclui a endocrinologista Lívia Marcela.