Acretismo placentário pode levar à remoção do útero

Maria Eduarda Chagas - O Estado de S.Paulo

Kim Kardashian apresentou a doença em sua primeira gravidez e corre riscos na segunda gestação

Kim Kardashian pode precisar retirar o útero após o nascimento de seu segundo filho, fruto da união com o músico Kanye West

Kim Kardashian pode precisar retirar o útero após o nascimento de seu segundo filho, fruto da união com o músico Kanye West Foto: Danny Moloshok/ Reuters

Kim Kardashian pode precisar retirar o útero após o nascimento de seu segundo filho, fruto da união com o músico Kanye West. Grávida de seis meses, a celebridade, de 34 anos, afirmou à revista americana C Magazine que teve acretismo placentário, quando esperava North, sua filha de dois anos. Kim agora espera um menino e disse que os médicos vão ficar atentos para ver se a operação será necessária após o parto.

A doença acomete duas em cada cem mulheres sem danos prévios no útero, de acordo com Karina Zulli, ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade São Luiz Itaim. Para mulheres que já apresentaram problemas no órgão, o risco cresce: a cada cem, pelo menos oito terão acretismo placentário. Veja perguntas e respostas sobre a doença:

O que é acretismo placentário?

O acretismo placentário é uma doença gestacional, em que uma parte da placenta invade a parede uterina durante a gravidez. “Depois que a criança nasce, a placenta fica presa”, explica o obstetra Eduardo Cordioli, da Associação de Obstetrícia e Ginecologia do Estado de São Paulo (SOGESP). “A placenta às vezes perfura o útero e pode também atravessar o útero e ficar grudada a outros órgãos”. Karina Zulli, ginecologista e obstetra do Hospital e Maternidade São Luiz acrescenta que quanto maior for a invasão da placenta para dentro do útero e abdômen, mais grave é a doença.

Existe alguma pré-disposição à doença?

A pré-existência de cicatrizes no útero aumenta as chances de a gestante desenvolver o problema. “Quanto maior o número de cesáreas, maior a chance de ter o problema”, afirma Cordioli. Idade materna avançada, mulheres submetidas a cirurgias uterinas anteriores e curetagens - quando há raspagem do útero após um aborto - também aumentam os riscos.

Quais são os sintomas?

Na maioria dos casos não há sintomas específicos. Quando o acretismo placentário está associado a placenta prévia - placenta de inserção mais baixa do que o normal - pode ocorrer um sangramento vaginal indolor, imotivado e intermitente durante a gestação, segundo os especialistas.

Como é feito o diagnóstico?

A única forma de fazer o diagnóstico é por meio de exames como ultrassonografia e ressonância magnética.

Feito o diagnóstico, a gestante tem alguma limitação?

Cordioli recomenda que a gestante diagnosticada com acretismo placentário não faça nenhuma atividade física intensa durante a gravidez, mas ela pode levar uma vida normal e manter sua rotina. “Se houver sangramento, contudo, ela tem que ficar em repouso ou, em alguns casos, até internada. Sem sintoma, é vida normal até a hora do parto. A recomendação é se alimentar bem e fazer uma reposição de ferro“.

Por que esta condição é perigosa?

“Durante o parto, a placenta não sai por completo, comprometendo a contração uterina. Além disso, pode provocar hemorragia e até ser necessário remover o útero”, diz Karina. Por isso, é importante fazer o diagnostico antes para que haja um planejamento cirúrgico. “O parto nesses casos deve ser realizado com uma equipe completa, de excelência, em local onde tenha UTI materna e banco de sangue disponível. Tecnologias como radiologia intervencionista podem ajudar nesses casos. A técnica ajuda a controlar a hemorragia e a operação pode ser feita com mais segurança”, diz Cordioli.

Quem já teve acretismo placentário pode engravidar depois?

Em muitos casos, a doença é tratada com a remoção do útero logo após o parto, o que impossibilita uma nova gravidez. Quando o útero é preservado, é necessário ter cuidado e acompanhar a gestação, já que há chances de a doença acontecer novamente. “Antes de iniciar as tentativas da nova gestação, é importante que a mulher seja submetida a uma histeroscopia diagnóstica, exame que irá avaliar o endométrio. Se o endométrio estiver refeito e o útero não apresentar grandes cicatrizes, a gravidez está liberada, mas todos os cuidados devem ser tomados já no pré-natal”, afirma Karina.

Existe tratamento?

Não há tratamento clínico para a doença, segundo Cordioli, mas é essencial diagnosticar a doença antes. “O grande problema é não saber da situação e, na hora, não estar preparado. Descobrindo antes, é possível planejar o parto”, diz.