Alexandre Frankel

 

A bicicleta sempre fez parte da minha vida. A paixão de infância me levou ao triathlon e a bike se tornou um dos esportes que nunca mais larguei. Mais do que isso, virou um estilo de vida, um meio saudável de locomoção. Quando me casei, fui morar perto do trabalho e abandonei o carro particular. Há 15 anos vou ao escritório pedalando, de patinete, de carona ou utilizo transporte público, experiência que me inspirou a escrever três livros “Como Viver em São Paulo sem Carro”.

 

Como empreendedor no mercado imobiliário, a bike é uma maneira de reinventar a cidade e a forma como as pessoas vivem nela. Pedalar nos conecta com a vida urbana, nos permite entender o que as pessoas estão conversando nas ruas, como se vestem, que música os jovens ouvem.

 

Como posso servir à cidade se não entendo como pensa quem vive nela?

 

A consultoria dinamarquesa Copenhaguenize divulga a cada dois anos um índice das 20 cidades mais amigáveis para bicicleta no mundo. Na edição de 2019, a lista foi liderada pela capital dinamarquesa, seguida por Amsterdã e mais 13 cidades europeias, 2 na Ásia e 3 nas Américas – Vancouver, Montreal e Bogotá. A única cidade brasileira que já figurou no ranking foi o Rio de Janeiro, que tem a segunda maior malha de ciclovia do país. Sua última inclusão foi em 2013.

 

Com a pandemia surgiram mundo afora as “ciclovias corona” dando mais segurança para as pessoas saírem de casa e manterem o distanciamento social ao invés de se aglomerarem no transporte público ou recorrerem ao carro. É mais um hábito que tende a crescer, acelerado por conta da Covid e que não deverá retroceder. Para agilizar a implantação, adotou-se o urbanismo tático – materiais leves, de rápida instalação e fáceis de adaptar ao gosto dos usuários.

 

Segundo o Ministério das Cidades, o Brasil tem 65 milhões de bicicletas e 7% dos deslocamentos são feitos sobre duas rodas, um número relevante, mas que ainda pode, e deve, crescer bastante. A maioria dos ciclistas está em municípios pequenos e médios. As grandes cidades ainda deixam a desejar.

 

A questão das distâncias precisa ser encarada de duas formas. Eu moro perto do trabalho, o que é um facilitador. Mas em cidades grandes, a bicicleta pode ser utilizada em uma parte do percurso, conectando-se a outros modais. É assim que se faz na Europa. Para isso, precisamos de mais capilaridade para o metrô e infraestrutura para estacionar as bicicletas ou vagões próprios para elas, ponto em que São Paulo ainda pode avançar bastante. O segundo ponto é urbanístico. Por que expulsamos os moradores para cada vez mais longe esvaziando as regiões centrais melhor servidas de transporte?

 

As estatísticas demonstram que o uso das ciclovias traz benefícios relevantes à saúde dos cidadãos. As “ciclovias corona”, instaladas em muitas cidades europeias, trarão ganhos de US$ 3 bilhões por ano em investimentos na saúde, segundo um novo estudo do Mercator Research Institute on Global Commons and Climate Change e do Institute for Climate Impact Research.

 

Aqui no Brasil, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise de Planejamento) calcula que o estímulo ao uso da bicicleta poderia poupar R$ 34,4 milhões ao SUS só na capital paulista, que tem 468 km de ciclovias. O número considera a redução da quantidade de internações e o percentual de viagens de ônibus e carros economizadas com mais deslocamentos de bicicletas.

 

Percebi desde cedo que meu sonho era construir coisas, buscar inovação. Acabei traduzindo isso de forma literalmente concreta, erguendo prédios. Olho para um lugar e já imagino o impacto positivo gerado para os moradores. Menos congestionamentos e mais tempo de qualidade. Para mim, está claro que precisamos reinventar o funcionamento das nossas cidades. Um espaço urbano pautado em mobilidade urbana, construções inteligentes, infraestrutura de escala humana, compartilhada e, claro, tornando mais amigável o uso da bicicleta.

Vamos pedalar para viver mais e melhor?