Hoje meu convidado é o Dr. Denis Pajecki, doutor pela Faculdade de Medicina da USP e Cirurgião Bariátrico do Centro de Controle do Peso do Hospital 9 de Julho

A expectativa de vida das populações aumentou significativamente nas últimas décadas. Em paralelo o mundo experimenta uma epidemia de obesidade. No Brasil, sua prevalência atingiu o índice de 19,8% da população acima dos 18 anos, com pico de 24,6% nos indivíduos entre 55 e 64 anos.  Proporcionalmente, os índices são maiores nas populações de mais baixa renda e menor escolaridade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, nos países desenvolvidos são considerados idosos os indivíduos com 65 anos ou mais; e nos países em desenvolvimento aqueles com 60 anos ou mais. No Brasil esta definição é reforçada pelo estatuto do idoso. A população acima de 65 anos dobrou em nosso meio nos últimos 20 anos, chegando a mais de 18 milhões de pessoas. A prevalência de sobrepeso e obesidade nessa faixa etária também aumentou, atingindo 60,6% e 21,5% dos indivíduos, respectivamente.

Dieta, atividade física e programas de modificação de estilo de vida são os pilares do tratamento clínico da obesidade

Os objetivos do tratamento da obesidade podem variar segundo as faixas etárias: enquanto em jovens a prevenção de complicações sistêmicas, diminuição de risco e tratamento de doenças associadas como diabetes, hipertensão arterial e dislipidemias são primordiais, em idosos a prioridade está na melhora da qualidade de vida. Nessa população, a redução da quantidade de medicações para controle de doenças crônicas e a melhora de aspectos mecânicos relacionados à mobilidade e funcionalidade são desfechos de maior relevância.

Dieta, atividade física e programas de modificação de estilo de vida são os pilares do tratamento clínico da obesidade. A utilização de medicação específica para obesidade em idosos deve ser feita com máxima cautela, devido a possíveis efeitos colaterais e ao risco de interação medicamentosa, considerando o uso frequente de variadas medicações nesta população. Medicações mais modernas, com melhor perfil de segurança e que chegaram recentemente ao mercado, embora ainda não plenamente testadas nesta população, poderão ser de grande valia nesse contexto.

No processo de envelhecimento ocorrem mudanças biológicas que levam a mudanças na composição corporal como a diminuição da massa muscular e da densidade mineral óssea, e concomitante aumento de gordura corporal. Dentre os compartimentos corporais, a massa muscular é o componente relacionado à capacidade funcional e mobilidade do indivíduo, ou seja, relacionados à  sua autonomia e independência para a realização das atividades do dia a dia.

A perda progressiva de massa muscular, associada a perda de força pode levar esses indivíduos a uma condição definida como sarcopenia, que está relacionada à maior número de quedas, fraturas, incapacidades, hospitalizações recorrentes e maior mortalidade.

Nesse sentido, o ganho de peso e a obesidade podem agravar o processo de limitação funcional que ocorre progressivamente com o avançar da idade, principalmente a partir dos 65 anos. Por outro lado, estudos demonstram que tratamentos para perda de peso levam a recuperação funcional e melhora da qualidade de vida nessa população. Nesse processo destaca-se, em particular, a importância da preservação da massa muscular, por meio de dietas adequadas e exercícios físicos de resistência.

A indicação de cirurgia para tratamento da obesidade, em pacientes com 65 anos ou mais, ainda é controversa. Entretanto, com o crescente número de idosos com obesidade grave, a cirurgia bariátrica tem se tornado uma opção cada vez mais frequente de tratamento para esta população. A IFSO (Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade) publicou diretriz destacando que o objetivo principal deste tratamento seria a melhora de sua qualidade de vida.

A portaria  no 424/2013 do Ministério da Saúde e a resolução no 2131/2015 do Conselho Federal de Medicina destacaram que pacientes com mais de 65 anos podem ser operados, desde que cumpridos os critérios gerais de indicação, devendo-se avaliar, individualmente, o risco cirúrgico, o risco-benefício do tratamento, a expectativa de vida e os benefícios esperados do emagrecimento.

Vale destacar que a cirurgia bariátrica é um procedimento seguro e que o risco cirúrgico na população de maior idade teve redução significativa na era da cirurgia minimamente invasiva (laparoscópica ou robótica) aproximando-a dos índices observados na população mais jovem.

Não obstante, a Agência Nacional de Saúde (ANS) não considera obrigatória a cobertura deste tipo de procedimento para pacientes com mais de 65 anos. Tal fato pode gerar alguma dificuldade na autorização de cirurgias pelos planos de saúde, para pacientes nessa faixa etária.

Obesidade é doença crônica e multifatorial. Isso significa que qualquer que seja o tratamento indicado, serão necessárias intervenções que objetivem a melhora do hábito alimentar e do estilo de vida, por tempo prolongado. A introdução ou a suspensão de medicações só podem ser feitas pelo medico, com cuidados redobrados nos pacientes idosos. E para aqueles indicados para o tratamento cirúrgico, o acompanhamento pós-operatório com equipe multidisciplinar, como sempre, é obrigatório, com atenção especial no sentido de minimizar a perda de massa muscular. Viva mais e melhor.