Hoje meu convidado é o Dr. Ricardo Nahas, coordenador do Centro de Medicina do Exercício e do Esporte do Hospital 9 de Julho

 Olá. Volto a visitar a coluna do Dr. Marcelo Levites, sempre com sua permissão, trazendo informações que podem ajudar a sua longevidade conquistada. Como várias vezes abordamos nessa coluna, a atividade física é tão importante para a qualidade de vida como a comida das nossas refeições. E, fazê-la após aconselhamento médico, aumenta a segurança e garante mais benefícios ainda.

Quanto mais ativo for, melhor

Mas o que a mochila do neto tem com isso? Ah, podemos tornar esse hábito diário em exercício e oportunidade de uma linda interação.

Claro que com aquela “bagagem” adquirida ao longo da vida vamos fazer a função do avô, da avó: dar palpite e transmitir conhecimentos.

A primeira pergunta dos seus filhos será: mas para quê? Posso levar de carro por esses quarteirões até a escola sem contar os que separam os da sua casa da minha.

Aí você vai contar para eles um dos ensinamentos da nossa coluna: o pior veneno para minha idade é o sofá. Quanto mais ativo for, melhor. Sabe aquela disposição para os fins de semana e as brincadeiras com os meus netos? Vem daí. Responda com ênfase: economize gasolina e torne os ambientes mais saudáveis. Vai convencer? Não sei, mas está muito na moda atualmente.

Então os seus filhos vão jogar sobre você a nuvem negra da dúvida: e a bagagem que os dois terão que transportar? Aí o golpe chegou perto do fígado mas sem nocautear.

A resposta para a sua parte é fácil: além de caminhar, um pesinho extra a ser carregado não faz mal, pelo contrário. Pode ajudar a desenvolver aqueles músculos esquecidos nos braços. É evidente que estamos pensando em cargas leves, projetadas para a criança transportar. Pode ser o lanche, por exemplo, ou mesmo a mochila com o material.

E o neto? Vai no colo? Não. Vai adquirindo o hábito de ir aos lugares com as próprias pernas. Vai ouvindo histórias, aprendendo sobre trânsito, vendo que o vô e a vó não existem só no almoço de domingos.

Vai sem “carga”. Aí vem uma discussão que infelizmente a literatura e os estudos ainda não conseguiram consenso: mochila nas costas causa dor? Prejudica? O artigo que deixo a referência* tentou elucidar o mistério.

Foram levantados 6.597 artigos reunidos e filtrados para os de maior expressão científica serem analisados: um total de 69 com 72.627 indivíduos.

E qual a conclusão? Não existe conclusão e, sim, recomendação para que mais estudos sejam feitos e que tragam evidências esclarecedoras.

Existe também a percepção um tanto óbvia de que quanto mais pesada for a mochila maior a chance de provocar dor.

Diante disso, deixo a minha recomendação: não fomos feitos para carregar grandes cargas por longos períodos. O peso deve respeitar limites que giram em torno de 10% do seu peso corporal e ser distribuído para evitar que tudo se concentre em um determinado lugar do corpo. Um exemplo: se vou transportar 10 quilos, melhor fazê-lo colocando 5 quilos em cada mão e não os 10 quilos nas costas ou em uma mão apenas.

Para conduzir o netinho, no entanto, lembre-se de deixar uma de suas mãos livre para segurá-lo e conduzir pelo trajeto escolhido. Lembre-se que o caminho será cheio de desafios e que ele escolherá os maiores como poças de água, saltar grandes “abismos” ou defeitos na calçada, se distrair com pássaros e cachorros, entre tantos “perigos” que enfrentará despreocupadamente por ter o vô ou a vó dando segurança ao seu lado. Isso é longevidade. Viva mais e melhor.

Fonte:

*Do schoolbags cause back pain in children and adolescents? A systematic reviewTiê Parma Yamato, Chris G Maher, Adrian C Traeger, Christopher M Wiliams, Steve J Kamper

Br J Sports Med 2018;0:1–6. doi:10.1136/bjsports-2017-098927