O aparecimento da Covid-19 atingiu o mundo como uma bomba. Sem saber lidar com este novo vírus, muitas pessoas estão morrendo, muitas pessoas estão contaminadas e quase toda população do mundo está em quarentena.

É lamentável a quantidade de mortes e de pacientes contaminados. Em todos os locais o esforço é imenso para se conseguir reduzir o impacto da doença, se descobrir medicações, vacinas, a cura enfim.

Por enquanto, não encontramos respostas. A questão que se coloca é como lidar com isso se, por ora, não sabemos quase nada e temos que conviver com o risco de contaminação. A nossa ignorância sobre como lidar com o vírus e a doença são visíveis pela quantidade de mortos em tão pouco tempo.

Infelizmente, situações não previstas fazem parte das nossas vidas e da História. A doença, por exemplo, muitas vezes, simplesmente aparece em nossas vidas (ex: câncer, derrames, infartos, acidentes, doenças degenerativas). Na história da humanidade já tivemos outras epidemias como meningites, tuberculoses, gripes.

Nassim Taleb, economista mundialmente conhecido, descreveu estes acontecimentos chamados “improváveis” em todo o campo de conhecimento e ação humana.  Em seu trabalho sobre o cisne negro, o autor comenta que até descobrirem a Austrália, as pessoas do Antigo Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos. Esta era uma crença inquestionável por ser absolutamente confirmada por evidências empíricas. Deparar-se com o primeiro cisne negro pode ter sido uma surpresa interessante para alguns ornitólogos, mas é aí que está a importância desta história: ela simplesmente ilustra o aprendizado por meio de observações ou experiências e a fragilidade do nosso conhecimento. Uma única observação pode invalidar uma afirmação originada pela existência de milhões de cisnes brancos.

Na medicina, a incerteza é uma certeza. As frases “A medicina é a ciência das certezas absolutas e transitórias” e “A Medicina é a ciência das incertezas e a arte da probabilidade” são ditas por inúmeros professores em universidades de todo o mundo. Muitos estudam o impacto da incerteza e nos ensinam a lidar com ela.

Como lidar com os impactos dos cisnes negros com o novo coronavírus? Como lidar com a incerteza deste momento?

Algumas coisas se beneficiam dos impactos. Elas prosperam e crescem quando são expostas à volatilidade, ao acaso, à desordem e aos agentes estressores e apreciam a aventura, o risco e a incerteza. No entanto, apesar da onipresença do fenômeno, não existe uma palavra para designar exatamente o oposto do frágil. Nosso filósofo economista Nassim Taleb chamou isto de antifrágil.

A antifragilidade não se resume à resiliência ou a robustez. O resiliente resiste a impactos e permanece o mesmo; o antifrágil fica melhor. Essa propriedade está por trás de tudo o que vem mudando com o tempo: a evolução, a cultura, as ideias, as revoluções, os sistemas políticos, a inovação tecnológica, o sucesso cultural e econômico[i]. Não será diferente da nossa resposta individual, familiar, empresarial e coletiva à crise do coronavírus.

* Estamos no meio da pandemia e essa é uma consideração circunstancial do momento em que estou escrevendo este artigo. Sou médico de trincheira e estou cuidando dos pacientes com Covid-19 e de outras patologias também, tanto no hospital quanto na casa de repouso em que atuo. Estou exposto ao vírus, assim como minha família. Assim não posso ser infectado, ficar doente e morrer. Dessa maneira não posso ser considerado um escritor diletantista. Estou no meio da confusão e quero ajudar as pessoas que sobreviverem ao vírus, para que possam viver melhor e serem melhores.

 

REFERÊNCIAS

[i] NN Taleb, Antifragile: Things That Gain from Disorder (Random House, New York, 2012)