A obesidade é um tema que permeia inúmeras conversas, matérias na imprensa, posts em redes sociais. Por ser um assunto de extrema importância, convidei meu colega do Hospital 9 de Julho, dr. Denis Pajecki para compartilhar um pouco de seu conhecimento sobre isso. Vale a leitura.

Para emagrecer basta força de vontade! É só cortar os carboidratos! Tem que operar a cabeça antes de fazer a bariátrica! Não conseguiu porque tem cabeça de gordo!

São muitos os conceitos enraizados na população em geral, em profissionais de saúde e mesmo nos pacientes, que compõem o que chamamos de Estigma da Obesidade. Para eles, o problema da obesidade é exclusivamente comportamental e não é encarado como doença. De todos eles, a “Cabeça de Gordo” é o que, a meu ver, reúne todos os preconceitos que estigmatizam o indivíduo com obesidade e prejudicam seu tratamento. Preguiçoso, desleixado e indisciplinado são alguns dos adjetivos associados a esse preconceito.  Todos eles carregam consigo a acusação e o sentimento de culpa pela falha nos tratamentos.

Não estou dizendo que fatores emocionais ou relacionados a saúde mental, em seu sentido mais amplo, não estejam relacionados ao ganho de peso e à obesidade. O transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP) e o comer emocional, associado a transtornos de ansiedade, depressão ou atenção, devem ser identificados na avaliação do indivíduo com obesidade e seu controle deve fazer parte de qualquer tratamento. Também não estou negligenciando os fatores ambientais, relacionados ao estilo de vida e hábitos alimentares. Mas a doença Obesidade é muito mais complexa. Em sua fisiopatologia são identificados fatores genéticos e fisiológicos que envolvem até mesmo a flora bacteriana intestinal (microbiota).

Nas últimas décadas avançou-se muito no conhecimento dos mecanismos neurofisiológicos relacionados ao gasto energético, controle da fome, saciedade e apetite, bem como da relação entre o trato digestivo e o cérebro (eixo cérebro-intestino) nessa dinâmica. Também se avançou, embora de forma menos contundente, no conhecimento dos complexos mecanismos genéticos que tornam alguns indivíduos mais predispostos ao ganho de peso. Entretanto, esse conhecimento ainda não tornou possível o desenvolvimento de tratamentos eficazes a longo prazo para a maioria dos pacientes. Mas a ciência avança e novas perspectivas surgem a cada dia. É certo, contudo, que os pacientes com obesidade são diferentes entre si e que não existe um tipo de tratamento que sirva para todos.

A atual pandemia do Covid-19 mostrou que a obesidade é um dos principais fatores de risco de gravidade e mortalidade em indivíduos acometidos pela Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). Esse é mais um dado que joga luz sobre a necessidade de tratamento de uma doença que é crônica e epidêmica.

É importante que médicos abordem o problema da obesidade com seus pacientes desde a primeira consulta e os encaminhem para tratamento, que poderá ser uma dieta orientada, associada ao uso de medicações ou cirurgia bariátrica, dependendo da gravidade do caso. Sem esquecer das mudanças de estilo de vida e dos cuidados com a saúde mental.

O que não pode é achar que não tem jeito, culpabilizar, deixar pra lá e atribuir tudo a tal “Cabeça de Gordo”.