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O uso de anticoncepcionais previne a gravidez indesejada, mas é verdade ou mito que ele gera efeitos colaterais para a saúde e boa forma? Apesar de o tema não ser novo, as dúvidas persistem, sobretudo com a chegada de novas opções, como os LARCs, anticoncepcionais reversíveis de longa duração.

Para falar sobre o tema, entrevistamos a médica Bruna Pitaluga Peret Ottani, ginecologista e obstetra, pós-graduada em Nutrologia e membro do The Institute for Functional Medicine (IFM).

Eis a entrevista:

 

Ainda hoje muitas mulheres acreditam que o uso de anticoncepcionais pode falicitar o ganho de peso. Verdade ou mito?

Bruna – Verdade e mito. Nos trabalhos científicos essa questão é tratada como mito, já que os estudos não correlacionam ganho de peso com uso de métodos contraceptivos. Na prática, sabemos que metabolicamente as pessoas são diferentes e não é incomum escutarmos relato sobre ganho de peso após uso de um determinado método contraceptivo. Portanto, depende da experiência de cada mulher com o método.

Muito se tem falado dos anticoncepcionais de longa duração, conhecidos como LARCs. Qual a eficácia? É possível ter ganho de peso por conta do uso dos LARCs?

Bruna – Os LARCs são os anticoncepcionais reversíveis de longa duração e correspondem aos dispositivos intra-uterinos (de cobre ou de levonorgestrel) e implante de etonogestrel, não os chips de hormônios utilizados para fins estéticos. Eles são os métodos mais eficazes no mercado, com taxas menores de 1% de gestação com o uso. Para se ter uma ideia da eficácia, os LARCs são tão eficazes quanto uma laqueadura tubária ou vasectomia, mas são reversíveis, por isso fornecem segurança e liberdade para a mulher escolher a época que deseja gestar. Quanto mais sistêmico for o efeito do método maiores as chances de efeitos metabólicos e, portanto, a chance de se sentir inchada e com ganho de peso.

Além de relatarem ganho de peso por conta do uso de pílulas anticoncepcionais, algumas mulheres dizem ter aumento da celulite, entre outros efeitos colaterais. Isso realmente acontece?

Bruna – De novo, o efeito sistêmico de alguns métodos contraceptivos podem levar a alterações metabólicas pela passagem pelo fígado quando são metabolizados. Se uma mulher usa pílula, fuma e está obesa, a chance de ter complicações e efeitos colaterais é muito maior do que uma mulher magra e com hábitos saudáveis.

Além de evitar a gravidez indesejada, quais outros benefícios para o corpo dos anticoncepcionais de longa duração?

Bruna – O endoceptivo de levonorgestrel. tem a forma de T e 3,5cm de comprimento. O efeito contraceptivo se dá pelo espessamento do muco endocervical (a mulher não produz aquela secreção em clara de ovo que facilita a subida do espermatozóide) e pelo efeito local no endométrio (camada de dentro do útero) que fica fina e não ajuda a subida do espermatozóide dentro da cavidade. Geralmente é inserido no consultório e tem duração de cinco anos. A chance de engravidar com esse método é de 0,2%, menor que uma laqueadura tubária. Pelo efeito intra-uterino, muitas mulheres optam por esse método porque ao final de um ano muitas reduzem o fluxo menstrual e podem até ficar sem menstruar, mas com a função ovariana preservada. Pode ser utilizado para dor pélvica, sangramento uterino sem causa aparente, em mulheres com enxaqueca etc. O dispositivo de cobre oferece uma proteção semelhante, tem duração de dez anos e também pode ser inserido no consultório, porém não tem os efeitos em relação ao fluxo menstrual, podendo em alguns casos aumentar o fluxo em algumas mulheres. O implante é utilizado na via subdérmica na face interna do braço, tem duração de três anos e tem efeitos sistêmicos relacionados à distribuição sistêmica e apresenta uma lista de efeitos colaterais mais extensa, e também pode causar aumento do sangramento. Toda mulher deve discutir sobre o método contraceptivo com seu médico baseado na eficácia inicialmente. Depois se ela é apta ao método e se não apresenta contraindicações para o uso. Se ela estiver apta e puder selecionar ganhos secundários ao uso daquele determinado método ainda melhor. Porém temos que lembrar que segurança deve ser o primeiro item da lista.

Qual a relação de anticoncepcionais com a boa forma ou ausência dela?

Bruna – Uma mulher usando um método seguro e indicado para ela tem auto-estima melhor, apta para prática desportiva e, claro, não engravida sem planejar. A boa forma não é somente física, mas também mental. Uma mulher que entende o método contraceptivo que usa e planeja uma gestação é mais consciente do seu corpo e responsável pelas suas atitudes e escolhas. Existe um programa nos EUA chamado The Choice Project que acompanha mais de 9000 mulheres e avalia o método contraceptivo escolhido e continuidade do método. Os resultados são impressionantes: quando as mulheres recebem aconselhamento apropriado mais de 75% optam pelos LARCs (sendo que quase 50% optaram pelo endoceptivo de levonorgestrel ) e 86% mantiveram esse método após um ano, ao passo que entre as mulheres que usam outros métodos somente 55% permaneceram com o método escolhido incialmente. Esse dado demonstra a satisfação das que optaram pelos LARCs após um ano de uso e a baixa taxa de efeitos colaterais com esse grupo de anticoncepcionais.

Há contraindicação para os LARCs?

Bruna – Cada método tem as suas contraindicações. Antes de usar qualquer método, a mulher deve conversar com o profissional que a acompanha.

E as tradicionais pílulas?

Bruna – As pílulas comuns costumam ter uma lista maior de contraindicações, por exemplo uma mulher que fuma e está acima dos 35 anos aumenta o risco de trombose com uso de pílulas. De novo, sugiro que todas conversem com o médico ginecologista antes de usar um método contraceptivo.

Até semana que vem!