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O blog Vigilante da Causa Magra resolveu entrevistar o conceituado endocrinologista Flávio Cadegiani para sanar as principais dúvidas dos que desejam emagrecer de forma saudável, mas por uma razão desconhecida não atingem o objetivo. As dúvidas são variáveis, mas, em síntese, todos querem saber o que fazer quando se segue a dieta e o emagrecimento saudável não acontece.

Será que é resultado de um desequilíbrio hormonal? Se é isso quais hormônios devo acompanhar e quais exames devo fazer? Ou será que ganhei massa magra e fiquei mais pesado na balança? Como usar um método simples para checar a perda de gordura? Ou será que a dieta não tem funcionado porque estou dormindo menos do que preciso? Que alimentos devo comer para equilibrar meu organismo?

As repostas estão na entrevista abaixo:

 

Qual a importância dos hormônios no processo de emagrecimento?

Flávio Cadegiani (F.C.) – O equilíbrio hormonal é fundamental para que o corpo tenha uma resposta adequada à dieta e à atividade física. Contudo, somente desequilíbrios hormonais francos, ou seja, que observamos baixos ou altos níveis em relação aos valores de referência que podem interferir neste processo.  Já tive muitos pacientes que faltavam somente a reposição hormonal adequada para que conseguissem perder peso. Muitas dessas pessoas com disfunções hormonais percebem que o esforço é em vão. É aí que o endocrinologista entra.
O desequilíbrio hormonal pode prejudicar a perda de peso e facilitar o ganho de gordura?

F.C. – Sim! O principal é o hormônio da tireoide. O hipotireoidismo (baixa produção de hormônios da tireoide) não deixa ninguém obeso (embora possa dar 2-3kg a mais na balança), mas dificulta e muito a perda de peso. Pacientes que para determinado esforço perderam 6-7kg, acabam perdendo menos de 1kg. Baixos níveis de testosterona e de IGF-1, assim como doenças que causam excesso de cortisol, também facilitam o acúmulo de gordura e tornam improvável a perda de peso, mesmo com uma excelente dieta.
Como deixar o corpo em equilíbrio?

F. C. – Um dos grandes aspectos que ainda é pouco comentado é o sono. O sono de boa qualidade emagrece, assim como a falta de sono engorda. Tenho pacientes que bastaram dormir para conseguir emagrecer, pois não estavam dormindo direito. O sono de qualidade aumenta a produção de testosterona, de GH e de hormônios tireoidianos, e reduz a produção de cortisol. A falta gera exatamente o resultado hormonal oposto, que deixa muito propício o ganho de peso.  Atividades físicas regulares também ajudam a melhorar a produção de GH, testosterona e hormônios da tireoide, e a longo prazo reduzem a liberação de cortisol. Mas cuidado! O excesso (mas tem de ser em quantidade exagerada) como maratonas geram o efeito oposto.  Alimentação com bons óleos ajudam na produção de hormônios femininos e masculino; castanha do Pará contem selênio, que ajuda na saúde da tireoide; e proteínas mantém um bom equilíbrio hormonal.
Quais hormônios devemos acompanhar e qual a periodicidade que os exames devem ser feitos?

F.C. – Se o paciente não tiver queixas, é improvável que ele tenha alguma disfunção hormonal, e por isso não tem necessidade de exames hormonais. Pacientes com queixas como fadiga e cansaço devem ser investigados para problemas de tireoide, de GH, de testosterona, de menopausa e de cortisol, embora a causa mais comum seja um estresse crônico ou distúrbios do sono. Em geral não existe uma rotina para solicitação de exames hormonais.
Qual o percentual de gordura ideal para homens e mulheres atletas e não atletas?

F.C. – A curva de riscos em geral é em “J”. Ou seja, embora muita gordura traga muito risco, a falta de gordura também é um problema. Homens com menos de 6% e mulheres com menos de 14% de gordura têm aumento de chance de várias doenças. Mulheres já abaixo de 18% reduzem fertilidade, e quando chega a 12% podem parar de menstruar. Por outro lado, os homens não podem passar de 20%, e as mulheres de 28%, pelo método de bioimpedância ou de densitometria.
Existe algum método mais eficiente para descobrir o percentual de gordura?

F. C. – Os métodos mais precisos para descobrir percentual de gordura são balança hidrostática (quando o paciente mergulha) e o pletismógrafo (Bod Pod). Ambos não são tão acessíveis. Logo em seguida estão a densitometria e a bioimpedância de boa qualidade. As dobras dão uma excelente ideia mas muitas vezes a redução de dobras pode significar desinchaço e não perda de gordura.
Mulheres magras às vezes têm percentual de gordura elevado! Mulheres fortes às vezes têm peso pesado mas percentual baixo. Como isso acontece?

F.C. – Como o próprio nome diz, é percentual, e não quilos de gordura. Por isso, embora a mulher seja magra, muitas vezes por diversos motivos ela tem muito pouco músculo. Por isso, proporcionalmente, ela tem muita gordura, por menor, que seja a quantidade, e dessa foram o % fica elevado. O pensamento oposto ocorre com as mulheres fortes. Quer ver um exemplo? Muitas vezes tenho pacientes que após iniciar o emagrecimento, perdem até bastante gordura mas o percentual aumenta! Vamos colocar uma situação hipotética: inicialmente o paciente tem 100kg na balança, 5kg de osso, 35kg de água, 10kg de músculo e 50kg de gordura. Aí ele perde 10kg na balança. Olha só, excelente! mas destes 10kg, 8kg foram de água (por um desinchaço que sempre acontece no início do tratamento) e 2kg de gordura. Aí ele foi para 90kg e 48kg de gordura, ou seja, percentualmente, ele subiu para 54%! Mas o resultado foi bom de qualquer forma. São armadilhas destes métodos.

Afinal, o peso na balança importa ou não?

F. C. – Eu acho que nós somos excessivamente centrados na balança. Mas existe um método muito simples e bacana de acompanhar usando a balança, que é o é aliar a balança à fita métrica. Se a balança não reduzir, mas  a circunferência do abdômen ou do quadril reduzirem, significa que perdeu gordura. Se a fita métrica reduzir mais do que a balança, provavelmente significa que a maior parte da perda de peso foi de gordura. Por outro lado, se a balança despencar mas o abdômen ou o quadril não, aí pode ser que tenha perdido músculo.  A balança é ao final de contas a soma de tudo que temos no corpo. Então ela não necessariamente nos conta a verdade com precisão.

Qual a perda de peso saudável por semana e ou mês?

F. C. – Não existe uma velocidade de perda de peso máxima, desde que o paciente tome o dobro de cuidado para não reganhar o que ele perdeu (que é a parte mais difícil). Já se falou em 1,5kg por semana de gordura, mas este dado já caiu por terra.
O que não pode faltar em uma dieta saudável?

F.C. – Fontes naturais de minerais e vitaminas. As fontes naturais dão muito mais benefícios do que as suplementações com vitaminas. Existem alguns casos, inclusive, que determinada vitamina aumenta o risco de doenças se ingerida por cápsula mas reduz se ingerida por alimentação. Ou seja, muitos vegetais de todas as cores e muitas frutas de todas as cores e texturas. A ingestão de proteína é fundamental para que a taxa metabólica basal e a massa magra se mantenham (e assim evita ficar com tantas “pelancas”). As fibras ajudam a melhorar as bactérias no intestino, que hoje sabemos ter papel fundamental na perda de peso (as bactérias intestinais podem te emagrecer ou te engordar, a depender de quais tipos estiverem lá, o que dependerá da sua alimentação).
O que deve ficar de fora do cardápio de quem quer emagrecer?

F.C. – Não gosto da ideia de retirar qualquer coisa do cardápio que alguma pessoa goste. Porque lá no fundo ela estará contando os dias para voltar a comer, descompensar no excesso e…voltar a ganhar tudo de novo! Hoje lidamos com compensações programadas, senão a vida sem saídas com amigos e sem viagens (e seus respectivos sabores) ficam sem graça. E acredite, consegue-se os mesmos resultados.

Na refeição livre da semana, o que produz mais estragos: o doce, a massa ou o álcool? Por qual razão?

F. C. – O álcool, principalmente a cerveja, junto com doces ou massas. Eu peço para optar por álcool ou comida. Isso porque forma a bomba metabólica perfeita para armazenar gordura nas células e inchar completamente.

 

Em tempo, Flávio Cadegiani é endocrinologista da Corpometria, membro da Abeso (Associação Brasileira de Estudos Sobre a Obesidade), membro especialista da The Endocrine Society,  da AACE (American Association of Clinical Endocrinologists) e da TOS (The Obesity Society).

 

 

Até a semana que vem!