Café da manhã à base de café e de manteiga. A dieta, que restringe carboidratos e que foi criada pelo empresário americano Dave Asprey, tem conquistado, a cada dia, mais adeptos no Brasil. Junto com ela, cresce o consumo do óleo de coco e da já badalada manteiga Ghee. Especialistas, porém, advertem que a dieta não pode ser seguida sem orientação médica e de um nutricionista. Ela pode provocar problemas gástricos e não deve ser seguida pelos que têm doenças cardiovasculares.

Mas afinal quais os princípios da dieta? E qual a diferença dela para outras propostas low carb? Pedimos às nutricionistas Mônica Beyruti, do Departamento de Nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica  (ABESO), e Clarissa Fujiwara, da Clínica da médica Denise Lellis, para explicarem para a gente tudo sobre o assunto.

A seguir, eis as respostas.

Muito se tem falado sobre a Blulletproof, do livro do Dave Asprey. Como funciona a dieta?

Mônica Beyruti – De acordo com Dave Asprey, criador da “Bulletproof diet”, que conseguiu perder mais de 45 kg utilizando essa dieta, combinar  uma dieta rica em gorduras e pobre em carboidratos com o consumo no café da manhã de café coado misturado com manteiga ghee e óleo de coco,  pode ocasionar não somente uma perda de peso mas também pode melhorar a performance física. Ela baseia-se no processo de cetose, em que o organismo utiliza a gordura (tecido adiposo) como fonte de energia, levando à perda de peso.

Uma  receita simples do Café “Bulletproof”

– Uma xícara de café coado
+
– uma colher de sopa de manteiga Ghee
+
– uma colher de sopa MCT (Triglicerídeos de cadeia média), ou de oleo de coco extravirgem

Utilizar um mixer para misturar.

 

Clarissa Fujiwara – Fundamentalmente, o Bulletproof Coffee baseia-se no consumo de café, cuja receita envolve o uso de grãos de café orgânicos, utilizando filtro metálico e com baixo nível de toxinas – como micotoxinas que são produzidas por fungos, adicionados de manteiga sem sal – de vacas alimentadas com grama e de triglicerídeos de cadeia média, como o óleo de coco, um tipo de gordura de fácil digestão.  Dessa forma, a receita leva os seguintes que são misturados até criar uma espuma e cremosidade, sendo consumido em seguida:

  • 1 a 2 xícaras de café quente com (aprox. 250 a 500ml)
  •  1 a 2 colheres de sopa (no mínimo) de manteiga sem sal
  •  1 a 2 colheres de triglicerídeos de cadeia média, como o óleo de coco

A proposta é consumi-lo como meio de melhorar o foco mental e elevados níveis de concentração, proporcionar alta performance, diminuição da necessidade de horas de sono – o autor postula que as toxinas do café convencional se tratam de “sabotadoras” de performance – saciar o organismo durante um período prolongado, contribuindo inclusive para o processo de emagrecimento – decorrente do processo cetose pela restrição do consumo de carboidratos da alimentação, que “força” o organismo a mobilizar mais gordura estocada para produzir energia.

 

Quais as razões que têm feito nutricionistas de diferentes linhas  adotarem óleo de coco e manteiga ghee?

Mônica – Alguns nutricionistas adotam o óleo de coco pela sua ação antifúngica, sendo acrescentado na alimentação, principalmente, para auxiliar no tratamento daqueles pacientes que consomem em suas dietas muito carboidrato, muito doce  e que já tratam com seu médico de algum tipo de fungo como micose, candidíase, por exemplo. A manteiga Ghee passou a ser a preferida daqueles que acham que não consumir leite e derivados é mais saudável, mesmo os que não apresentam nenhuma intolerância. A manteiga ghee é uma manteiga da qual separam a gordura dos elementos sólidos do leite. Pode ser feita em casa de maneira artesanal: manteiga fresca aquecida em fogo baixo, em banho maria até a água evaporar e formar 2 camadas visíveis e muito distintas: espuma branca em cima e gordura pura (manteiga ghee). Com auxilio de uma colher, você vai retirando a espuma de cima até sobrar a gordura. Para garantir que não vão sobrar resíduos sólidos do leite, você pode passear o restante do óleo por uma peneira forrada com um pano limpo e bem fino. Muitas pessoas com intolerância a lactose consomem ghee visto que a conduta para intolerantes não exige a exclusão total de leite e derivados da sua dieta. Porém, muita atenção: alérgicos a proteína do leite NÃO PODEM  consumir   leite e derivados, incluindo traços desses itens, INCLUINDO A MANTEIGA GHEE , que NÃO pode ser consumida

Clarissa – Muitas repercussões e discussões foram geradas acerca dos efeitos do óleo de coco à saúde, no que tange à presença de ácido láurico, cáprico e caprílico que se atribuiria às propriedades antimicrobiana e antifúngica, além de maior destaque às possíveis ações promovendo a saciedade, seja pela redução da velocidade de esvaziamento do estômago e atividade em regiões responsáveis pelo controle da fome e saciedade no sistema nervoso central, além de efeito termogênico, aumentando a taxa de metabolismo basal. O fato é que ainda permanecem estudos controversos em relação ao consumo do óleo de coco propiciando estes benefícios e há uma lacuna de alegações que possam comprovadamente afirmar eficácia como terapêutica no emagrecimento e inclusive segurança quanto ao seu consumo.  Assim como o óleo de coco, a manteiga ghee ganhou notoriedade como ingrediente regular do cardápio de muitas pessoas que buscam uma alimentação mais saudável e emagrecimento. Basicamente, a manteiga ghee é extraída da manteiga convencional por um processo em que a água e os componentes sólidos, inclusive a lactose são removidos. Dessa forma, poderia ser consumida por indivíduos que apresentam intolerância e não digerem bem a lactose. É muitas vezes colocada como mais saudável do que a manteiga convencional e outros óleos na hora da cocção, pelo fato de apresentar ponto de fumaça mais elevado e, assim, suportar melhor altas temperaturas por períodos mais prolongados na exposição ao calor, sem a liberação de substâncias nocivas à saúde.

Quais os riscos da adoção de um plano alimentar deste tipo? Pode haver aumento de colesterol ou triglicérides?

Mônica – Algumas pessoas passam mal com o café  e, por isso, devem ter cuidado ao ingerir o mesmo, especialmente aqueles com ansiedade, insônia e/ou problemas cardiovasculares,gastrite etc. Esta prática alimentar não é recomendada para quem tem fatores de risco alterados (colesterol e frações,triglicérides por exemplo) e problemas cardiovasculares. É uma dieta que não considera sua rotina, preferências alimentares, e nem é uma dieta que corrige seus hábitos inadequados.Com certeza terá como consequência reganho de peso. No final,terá que fazer uma nova dieta… e o efeito iô-iô..engorda-emagrece-…

Clarissa – É essencial considerar que na alimentação, para um alimento ser benéfico ou não, tudo dependerá da dosagem e contexto alimentar. Por exemplo, é impreciso afirmar que o óleo de coco ou a manteiga ghee por si só emagrecem. Dentro de um dia alimentar, podem favorecer a menor sensação de fome e auxiliar no controle da ingestão de alimentos na própria refeição e as conseguintes, porém, deve se lembrar que são ambas fundamentalmente fonte de gorduras e, assim, de elevada densidade energética (apresentam quantidade elevada de calorias relativamente para a porção) – a mensagem é que não se deve consumi- los simplesmente livre e irrestritamente, mas encaixá-los dentro de algumas situações analisando individualmente.

Qual a diferença desse tipo de dieta para uma dieta low carb?

Mônica – Não vejo diferença, exceto que está associada ao consumo de café misturado triglicerídeos de cadeia média (óleo de coco).

Clarissa – Dietas “low carb”, ou de baixo carboidrato, consistem em dietas que restringem em maior ou menor quantidade o consumo de carboidratos, sobretudo, de alimentos ricos em carboidratos simples e de alto índice glicêmico como, por exemplo, açúcar, pão, massas e cereais. A quantidade de carboidratos permitida para ingestão varia de acordo com diferentes dietas low carb e geralmente limitam o consumo para menos do que 20% da ingestão calórica, contudo, também refere-se a dietas que simplesmente limitam os carboidratos em proporção inferior das diretrizes nutricionais vigentes para menos de 45% do valor energético diário consumido. Essas dietas são, por vezes, cetogênicas, ou seja, restringem a ingestão diária de carboidratos suficiente para causar cetose. Exemplos de dietas low carb seriam a Atkins da década de 90 e, mais recentemente, a dieta Paleo que, apesar de não ter uma ter uma única definição, tem base nos tipos de alimentos que se pressupões que o homem ancestral consumiria tendo como um de seus elementos na remoção de alimentos da dieta, tais como açúcar, cereais e grãos refinados, produtos lácteos, e alimentos processados.

Que dieta seguir para conseguir os resultados e, mais importante, manter as conquista? O ideal é seguir um plano de reeducação alimentar, comendo alimentos que dão prazer?

Mônica – Algumas pequenas mudanças na alimentação de uma pessoa,com orientação de um nutricionista,já são suficientes para alterar para melhor não apenas a qualidade de vida mas também podem  ajudar a prevenir ou retardar o aparecimento de doenças crônico degenerativas como a obesidade, o diabetes e ainda, as doenças cardiovasculares. O ideal é seguir um plano alimentar equilibrado que te permita comer de maneira saudável,incluindo alimentos que lhe dão prazer.Uma dieta em que não existem alimentos bons ou ruins, e sim alimentos que devem ser consumidos no dia a dia e alimentos que devem ser consumidos eventualmente. Uma dieta que te permita comer em eventos sociais e um prato que não seja o famoso “bife e salada” no restaurante. Enfim,uma dieta que te ajude a alcançar seu peso desejado, focando numa menor perda de massa magra. Para isso, não pode conter valor calórico total tão baixo, deve conter carboidratos e proteínas de maneira equilibrada e o peso deve ser reduzido de maneira bastante gradativa, o que também ajuda a perder menos massa magra. Associar esta alimentação equilibrada a pratica de exercícios físicos. Resumindo, uma dieta que te ensine a caminhar sozinho no final do tratamento e acima de tudo, que lhe de prazer o tempo todo. Quem disse que para emagrecer precisamos sofrer? O equilíbrio em todos os aspectos é o fundamental para viver com qualidade.

Clarissa – Independentemente do tipo de padrão de dieta a ser adotado, se o objetivo é o emagrecimento duradouro, além do já conhecido balanço energético negativo (ou seja, que a quantidade de energia que entra no organismo seja menor da gasta). É  fundamental que o padrão alimentar seja compatível com a rotina e, inclusive, respeite as preferências alimentares individuais – o que não gera um sentimento negativo pelo alimento ou o próprio ato de comer. Atualmente, com a grande disponibilidade de alimentos e a diversidade quanto aos aspectos culturais, dificilmente haverá um padrão de dieta único que contemplaria a todas as pessoas (um dos pontos universais em termos de saúde é privilegiar alimentos naturais ou minimamente processados e ter uma dieta variada especialmente em termos de vegetais).Manter a motivação durante o processo de mudança de hábitos também é imprescindível, considerando que a modificação e abandono de certos hábitos não será uma tarefa tão simplória.

 

Até a próxima semana!